HBO
HBO

Com Jude Law, 'The Third Day' desponta como uma das principais séries da safra da pandemia

Com lançamento adiado em cinco meses, a minissérie de seis episódios é dividida em duas partes intercaladas por um evento ao vivo transmitido pela internet

Guilherme Sobota, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2020 | 05h00

Mesmo antes de estrear no dia 14, a série britânica The Third Day, da HBO, já desponta como uma das mais destacadas da safra pandêmica de 2020. Com lançamento adiado em cinco meses, a minissérie de seis episódios é dividida em duas partes (a princípio independentes, mas quem vai saber?) intercaladas por um evento ao vivo transmitido pela internet (uma live de amplas proporções).

O evento – uma espécie de peça de teatro montada para a TV pela companhia inglesa Punchdrunk, conhecida pelo seu trabalho de teatro imersivo e parceira no projeto de desenvolvimento da série – vai conectar as duas partes da história, acompanhando ao vivo os desdobramentos de um único dia, incluindo aí a participação do elenco da série.

E que elenco. Nos primeiros três episódios (Verão), Jude Law vive Sam, um homem atravessado por um sofrimento profundo e recente e que, por um acontecimento misterioso, na linha fina entre sonho e realidade, vai parar numa ilha próxima à costa britânica (na realidade, a Osea Island, no estuário do Rio Blackwater). Como na vida real, o acesso à ilha é limitado pelo humor da maré – se muito alta, não há como chegar a pé ou de carro.

Levado até lá por uma costura de acontecimentos oníricos, Sam se vê, portanto, conquistado pelos rituais que os moradores (ficcionais) da ilha mantêm, e esse envolvimento que, sem spoilers, ganha ares de thriller psicológico, é o que vai fazê-lo lidar com os seus traumas. 

Na segunda parte (Inverno), a atriz britânica Naomie Harris (indicada para o Oscar por Moonlight – Sob a Luz do Luar) é Helen, forasteira também atraída pela ilha, e cuja própria chegada ao lugar coloca um ponto de interrogação nas fronteiras entre realidade e ficção, o que pode ser um grande problema quando se tem duas filhas pequenas para cuidar.

Além dos dois, a série ainda tem Katherine Waterston (da saga Animais Fantásticos), Emily Watson (mais recentemente indicada para o Emmy e o Globo de Ouro pela série Chernobyl) e Paddy Considine (de The Outsider). A maior parte do elenco deve participar do evento ao vivo (intitulado Outono) como numa peça de teatro mesmo, marcado para ocorrer no dia 3 de outubro.

Em uma coletiva de imprensa internacional e virtual, Jude Law contou que estudou drama junto com Felix Barrett, fundador da companhia Punchdrunk e um dos criadores de The Third Day, ao lado do roteirista Dennis Kelly (da série Utopia). “Mas me tornei um fã, retomamos a amizade e já vínhamos conversamos sobre esse conceito há alguns anos, uma ideia de ‘quebrar a quarta parede’”, diz Law, referindo-se à dimensão em que os personagens fictícios passam a interagir com o espectador de forma direta. “Os elementos entre a série e a produção ao vivo são conectados, mas, ao mesmo tempo, desconectados. Sempre tivemos em mente que estávamos construindo uma produção de TV.”

Com origem no teatro e carreira estrelada no cinema, o ator tem dado mais atenção à TV desde 2016, com o retrato poderoso de Lenny Belardo, o papa jovem e sedutor da série The Young Pope, com o qual foi indicado para um Globo de Ouro (ele reprisa o papel na continuação The New Pope, de 2019). Ele conta que, na experiência em The Third Day, porém, ele utilizou mais recursos teatrais do que em outras produções.

“Estávamos ensaiando a cena em que Jesse (Waterston) e Sam ficam bêbados no parque”, compartilha o ator. “Basicamente, Felix pegou sua equipe da Punchdrunk e criou essa atmosfera realista no parque. Foi um casamento maravilhoso desses dois mundos, do teatro e da TV.”

O diretor Marc Munden (de Utopia) também aguarda ansiosamente a estreia. “Vamos fazer duas semanas de ensaios para tentar ‘blocar’ tudo”, explica. “A estrutura é a mesma de um festival de teatro, vamos entender ainda como fazer. Há várias peças únicas desse episódio, mas também existem pontos da história que conectam as duas partes, e é fundamental desempenhar isso bem.” A segunda parte é dirigida por Philippa Lowthorpe (de The Crown).

Como todo tipo de produção artística coletiva em 2020, a série foi atravessada pela pandemia e, numa dessas coincidências, o isolamento (dos outros, mas também dentro de si) já aparecia como um dos temas abordados pelo roteiro. “É estranho”, concorda um dos criadores, Dennis Kelly. “A pandemia mudou tudo no mundo. Um dos temas da série é o isolamento, como se fechar pode ser uma reação ao medo, a tempos difíceis. Espero que a série possibilite justamente o contrário, apesar disso. Estamos em tempos difíceis, mas também consigo ver projetos incríveis de colaboração”, explica ainda.

O elenco diz estar preparado para o desafio da “superlive” que, se bem realizada, pode se tornar um marco na maneira como as pessoas fazem TV em tempos hiperconectados. “Só não sei como vou lidar com a câmera na minha cara o tempo todo”, completa Law, de 47 anos. “Quando atuo, realmente esqueço o que está acontecendo e desapareço no mundo daquele personagem, o que é um sentimento muito emocionante para um ator. Se eu não voltar, por favor me tragam de volta.”

'As duas crianças foram autênticas', afirma Naomi Harris

Como foi trabalhar com duas crianças?

Não sabia exatamente como seria. Mas quase todas as minhas cenas são com elas. Tive esse encontro com as atrizes e fiquei meio assustada porque precisava muito me conectar com elas. Mas elas foram tão autênticas, e isso me fez trabalhar melhor, porque eu precisava estar totalmente no momento. Chorei quando acabou, porque elas passaram a ser minhas filhas mesmo (risos).

Há um ritmo parecido entre ‘Moonlight’ e ‘The Third Day’? Você sentiu isso?

Como não sou diretora, não fico muito por dentro do ângulo das câmeras, nem do ritmo do filme. Foi parecido no sentido de que Barry Jenkins (diretor de Moonlight) cria um ambiente seguro que consegue tirar o melhor das pessoas. É assim que Philippa trabalha também. Não tem julgamentos; ela é muito sensível. Há diretores que não se conectam diretamente com o sentimento, mas não é assim com Philippa. Ela faz o ator se sentir livre para sentir o que precisa ser sentido no momento. É assim que eles se assemelham.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.