Erica Parise/Showtime
Erica Parise/Showtime

Com ‘Homeland’ chegando ao fim, que tipo de herói da TV combaterá a próxima forma de terrorismo?

Entre o passado e o presente, série demonstrou uma misteriosa aptidão para ficar um passo à frente das notícias

Hank Stuever, The Washington Post

30 de abril de 2020 | 10h00

Apesar de todos os seus arranhões, perdas pessoais e chamados absurdamente urgentes, Jack Bauer, o agente antiterrorismo durão e de personalidade difícil interpretado por Kiefer Sutherland na série 24 Horas, da Fox, tinha uma vida relativamente tranquila em comparação com Carrie Mathison, a resiliente, mas quase sempre profundamente ferida (e, não por acaso, bipolar) agente da CIA interpretada por Claire Danes em Homeland’, da Showtime, que se encerra no domingo, depois de uma impressionante sucessão de oito temporadas.

Cada um à sua maneira, Jack e Carrie passaram a representar as prementes crises globais de seus tempos. 24 Horas estreou semanas depois dos ataques terroristas de setembro de 2001 e do rufo dos tambores da guerra, num momento que poderia ser considerado chocantemente inapropriado (o primeiro episódio se abria com uma mulher instalando uma bomba dentro de um avião) ou muito direcionado apenas para os Estados Unidos. Os espectadores americanos descobriram que podiam projetar muitas de suas ansiedades sobre segurança nacional na série, que funcionava como uma descarga de adrenalina, expressa em reviravoltas cada vez mais distorcidas (e menos plausíveis).



Foi mais difícil encontrar essa catarse em Homeland, mas isso deixou a série muito melhor e mais relevante. As derrotas sofridas por seus personagens (principalmente Claire Danes como Carrie e Mandy Patinkin como Saul Berenson, consultor de inteligência e mentor de Carrie) tornaram Homeland mais verossímil à medida que a guerra contra o terror na vida real do século 21 se arrastava indefinidamente.

A pinta de valentão de Jack Bauer e a sua Unidade Contraterrorismo fictícia retratadas na era do 11 de Setembro deram lugar, em Homeland, a uma CIA sitiada e politicamente paralisada, vista através das distorções da justificável paranoia de uma agente.

A história de Carrie Mathison não devia ser interpretada como uma sequência da trajetória de Jack Bauer (embora ambas as séries tivessem um mesmo produtor executivo, Howard Gordon). Ainda assim, desde a primeira temporada de Homeland ficou bem claro que Carrie avançaria por um território muito mais complexo e sombrio do que o deixado por Jack - uma época que vai mais ou menos da operação militar americana que matou o líder da Al Qaeda, Osama bin Laden, em maio de 2011 até as audiências de impeachment do presidente Donald Trump em 2019, uma era na qual o setor de inteligência primeiro foi elogiado, depois difamado e, por fim, punido com a demissão pela Casa Branca.

A presciência de Homeland antecipou muitos casos de conduta desonesta das autoridades de inteligência, que são sempre atormentadas pela inaptidão do executivo, a qual a série tratou como uma condição crônica dos sucessivos presidentes.

Co-criada e meticulosamente supervisionada pelo produtor executivo e escritor Alex Gansa (e adaptada de uma série de TV israelense), Homeland começou como um fascinante thriller sobre a confiabilidade de um fuzileiro naval recentemente resgatado da condição de prisioneiro de guerra, o sargento Nicholas Brody (Damian Lewis).

Enquanto o país celebrava Brody como um herói de guerra, Carrie trabalhava para descobrir se ele havia se convertido ao terrorismo islâmico. Sete temporadas depois, Homeland tinha outro roteiro: Carrie, que passara meses numa prisão russa, sem acesso a seus medicamentos psiquiátricos, agora tinha a desconfiança de seus colegas por toda uma série de razões, entre as quais a possibilidade de ela ser uma espiã russa.

Entre o passado e o presente, Homeland demonstrou uma misteriosa aptidão para ficar um passo à frente das notícias. O enredo estava obcecado por propaganda russa online e criadores de caos de extrema direita no mesmo momento em que o país começava a ver (e ignorar) as cordas atadas a várias marionetes.

Agora, na temporada final, Homeland se concentra no tão esperado acordo de paz entre os Estados Unidos e o Taleban. O presidente americano (Beau Bridges) viajou para o Afeganistão para selar o acordo, mas foi morto quando seu helicóptero militar caiu - um evento projetado para parecer que o Taleban derrubara a aeronave.

Desafiando seus supervisores da CIA, nos últimos episódios Carrie fez de tudo para encontrar (e depois perder) a caixa preta do helicóptero, a qual poderia provar que a queda fora um acidente. Estamos mais uma vez no ponto em que Homeland sempre prosperou: um mundo à beira do precipício, com tensões crescentes entre os Estados Unidos e o Paquistão e muitos homens determinados a não ouvir uma mulher que todos acham que não bate bem da cabeça. Uma recapitulação de todo o arco da história de Homeland poderia simplesmente dizer: “Apesar de tudo, ela seguiu em frente”.

Como muitos dos fãs de primeira hora, tentei ser um daqueles espectadores que desistiram de ‘Homeland’, mas nunca consegui. Eu mais admirava que criticava as tramoias e guinadas da série (não se pode dizer “loucuras”, dado seu compromisso em retratar a doença mental de Carrie). Homeland foi um estudo incomum da arte da correção de rumo no meio da temporada, inventando soluções surpreendentes e provocativas para os becos narrativos onde se enfiara. A principal foi a decisão de Carrie, na sétima temporada, de renunciar à guarda da filha - a única mãe de TV que consigo imaginar cuja solução para o dilema do equilíbrio entre vida pessoal e profissional foi deixar de ser mãe. Foi um comentário doloroso e poderoso sobre o estado caótico do mundo, o dela e o nosso.

Quando se trata de séries que são tão relevantes, as melhores sempre deixam uma pergunta: quem ou o que vai tomar o seu lugar?

Que tipo de herói contemporâneo seria o sucessor natural de Jack Bauer ou Carrie Mathison? E qual será o foco de sua missão? Quem ou o que será seu inimigo - o terrorismo doméstico? Vladimir Putin? Negacionistas da mudança climática?

Seria, quem sabe, um agente do FBI combatendo os crimes de ódio e as notícias falsas dos americanos, numa série sobre uma nação dividida, apodrecendo por dentro? (Homeland chegou a tocar nesse assunto.) Ou então uma série sobre uma espécie de esquadrão de operações especiais de ex-diplomatas, encarregados de restaurar os danos globais provocados por determinado governo?

Uma série sobre uma epidemiologista lutando contra campanhas de desinformação? Sobre um especialista em segurança cibernética, mesmo que os telespectadores não curtam muito séries sobre pessoas sentadas na frente do computador? (Homeland, infelizmente, acabou com seu mais promissor potencial de spin-off: Max Piotrowski, o leal técnico de informática de Carrie, uma alma cada vez mais endurecida e dedicada, interpretada por Maury Sterling).

Nosso próximo Jack ou Carrie será um tipo de hacker alucinado, como Rami Malek em Mr. Robot, de Sam Esmail? Ou os terapeutas e soldados traídos e mentalmente manipulados de uma outra série de Esmail, a conspiratória Homecoming, que volta no mês que vem?

Nenhuma das opções acima, imagino. Como o próprio mundo, a missão agora está mais aberta e perigosa que nunca. A personagem que ficar com a tarefa está fadada a ser torturada, literal e figurativamente.

TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

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