Rai Fiction
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Clássico de Umberto Eco, 'O Nome da Rosa' vira série com John Turturro

Em entrevista ao 'Estado', o diretor Giacomo Battiato fala dessa nova adaptação, que estreia na plataforma Starzplay; veja o trailer

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2020 | 05h00
Atualizado 07 de maio de 2020 | 10h01

Em 1980, quando Umberto Eco publicou seu romance que virou best-seller, um enigma quase tão misterioso quanto a sequência de mortes que ele narra em sua abadia medieval era o título – O Nome da Rosa. Com o tempo, o próprio Eco, professor de semiótica, viria a esclarecer. O poder infinito das palavras. Seis anos depois, estreou o filme de Jean-Jacques Annaud com Sean Connery como o frade William de Baskerville e Christian Slater como o noviço Adso – Baskerville investiga uma série de assassinatos num mosteiro italiano, no século 14. Agora, a obra dá origem a uma minissérie, com oito capítulos, que chega nesta quinta, 7, ao Starzplay, serviço premium de streaming da Starz que, no Brasil, está disponível no Starzplay App, lançado para iOS e Android, assim como na Apple TV para toda a América Latina.

O Nome da Rosa, o filme, é outro memorável sucesso, mas os puristas torceram o nariz. Como seria impossível condensar a riqueza da erudição de Eco num relato de duas horas, Annaud concentrou-se na investigação policial. Quem está matando, e por quê? Elementar, meu caro Watson. As deduções sherlockianas já estavam sugeridas no nome do frei. Baskerville evoca um célebre cão, de um autor reverenciado como mestre da narrativa de mistério e suspense, Arthur Conan Doyle. O público adorou, mas entre os leitores insatisfeitos de Eco estava o ator John Turturro. Ele sempre achou que seriam necessárias muitas horas – muitas mais que as duas do filme – para dar conta do infinito poder das palavras do livro, e do seu substrato filosófico. Turturro buscou, e encontrou, um parceiro na gigantesca tarefa. Giacomo Battiato é historiador, medievalista reconhecido, romancista e diretor. 

Battiato dirige e coassina o roteiro com Turturro (e Nigel Williams). Ele conversa pelo telefone com o Estado. Para o repórter, é um sonho conversar com Battiato também sobre outra série que ele fez lá atrás, sobre Benvenuto Cellini. “Foi um trabalho que me deu muito prazer. E já possui elementos que estão em O Nome da Rosa. Arte e ciência, fé e razão. O poder da religião, a Igreja, o risco dos fundamentalismos. Todo fanatismo é perigoso.” 

Battiato ganhou reconhecimento internacional e prêmios. “Quando John (Turturro) me propôs acompanhá-lo nessa jornada, ele buscava um italiano com formação medievalista. Parecia loucura retomar um livro cult, que deu origem a um filme tão famoso. Mas John me convenceu, com seu entusiasmo, que o livro está mais atual que nunca, e agora, face aos extremismos, aos ataques à ciência que os fundamentalistas de todo o mundo estão lançando, é preciso voltar a essas questões e ao obscurantismo dos que querem tomar os livros sagrados ao pé da letra. Todo conto sagrado trabalha com mitos e metáforas. Exige sabedoria, discernimento crítico, e são coisas em falta no mundo atual.”

Para entrevistar Battiato, o repórter assistiu a parte do material e impressionou-se com a beleza visual, o apuro cenográfico. Quem conhece o livro sabe dos meandros labirínticos e secretos da grande biblioteca que guarda os livros apócrifos, incluindo o mais importante de todos, que na ficção é atribuído a Aristóteles. Battiato usou de toda a sua imaginação de medievalista para criar essas cenas de calígrafos reescrevendo, à luz de velas, os grandes livros. Até que ponto a reescritura não se distanciou dos originais? 

Por falar em ‘adaptações’, a dele. O repórter leu algumas das críticas mistas que a série recebeu. Uma delas refere-se ao excesso de monges que terminaria por confundir a narrativa. “O filme, concentrado na intriga policial, eliminava a riqueza das entrelinhas de Eco. Ao retomar essas entrelinhas, teríamos que estender o mistério e sabíamos que muitos espectadores poderiam ver isso como excesso. De qualquer maneira, nenhuma adaptação de um livro cult, qualquer que seja, consegue atingir a unanimidade.” 

Um tema importante sempre foi, desde o começo, a ausência das mulheres, a sua demonização. “É uma coisa que está no livro e remonta às origens da Igreja, que queríamos muito discutir, John e eu, principalmente no atual quadro de empoderamento, quando as mulheres, duramente, conquistaram seu lugar de fala.” Impossível não falar do elenco. “Já que iria interpretar William, John nunca quis rever o filme. Brincava dizendo que não queria ser influenciado por Sean (Connery), colocando um pouco de 007 no seu frei. Nosso Adso, Damien Hardung, é muito talentoso.” Se existe uma unanimidade, porém, são os elogios da crítica para Rupert Everett como o implacável Bernardo Gui.

Com Sean Connery, filme foi um sucesso

No Dicionário de Cinema, Jean Tulard assinala o paradoxo. Jean-Jacques Annaud ganhou o Oscar com um primeiro filme que foi fracasso na França, Preto e Branco em Cores, de 1976. Relançado após o prêmio, fracassou de novo. Ele filmou o futebol, Coup de Tête, e o público de novo não quis nem saber. O sucesso veio com A Guerra do Fogo, sua recriação dos homens das cavernas, de 1981. Embalado no novo prestígio comercial, ele assumiu o que parecia impossível. Adaptou o best-seller de Umberto Eco.

Como condensar em pouco mais de duas horas um calhamaço de quase 600 páginas? Annaud escolheu o que poderia parecer mais fácil, a intriga policial, e saiu-se muito bem. O filme estourou. A persona do 007 Sean Connery contribuiu. Faz o frei franciscano William de Baskerville, que investiga uma série de sete assassinatos, em sete noites seguidas, num mosteiro da Itália medieval, em 1327.

William e seu auxiliar, Adso/Christian Slater, descobrem os segredos da abadia na grande biblioteca que guarda livros apócrifos. Perde-se, na transcrição, a erudição das descrições de Eco sobre a cultura da Idade Média e a riqueza de suas informações sobre a separação entre religião e política na época, ou o embate, dentro da própria instituição, entre retornar à pobreza e à simplicidade do Cristo ou armar-se para enfrentar os novos tempos (e ameaças)?

Como altamente positivo, o filme mantém, mesmo reduzida, a intertextualidade no centro do livro, a discussão medieval sobre as ‘universais’ – ou sobre o que vale mais, as coisas ou o nome que damos a elas? F. Murray Abraham, que havia recebido o Oscar de 1984 pelo Salieri de Amadeus, de Milos Forman, é bem impressionante como o inquisidor Bernardo Gui. O filme pode ser encontrado no Now. 

Livro foi um best-seller mundial

Um dos intelectuais italianos mais conhecidos e influentes, Umberto Eco (1932-2016) despontou no mundo acadêmico primeiro com ideias inovadoras sobre a semiótica – com isso, sua obra teórica foi traduzida e estudada em diversos idiomas.

O novo passo aconteceu em 1980, quando lançou O Nome da Rosa, livro de ficção que, ao unir uma trama policial com um detalhado estudo dos costumes medievais, tornou-se um enorme sucesso mundial. De uma certa forma, o público adorou o ambiente dos monastérios e os contrastes no interior da Igreja, ainda que a linguagem por vezes sofisticada não fosse facilmente inteligível.

Em 2010, em entrevista ao Estado, em Milão, Eco respondeu com ironia à pergunta sobre o trecho do livro em que se discute se Jesus chegou a sorrir. “De acordo com Baudelaire, é o diabo quem tem mais senso de humor”, disse, rindo. “E, se Deus realmente é bem-humorado, é possível entender por que certos homens poderosos agem de determinada maneira.” / UBIRATAN BRASIL 

 

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