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Cate Blanchett fala de 'Estado Zero', série sobre refugiados na Austrália

'É uma loucura onde chegamos enquanto espécie humana', a atriz e produtora disse ao 'Estadão'

Mariane Morisawa, Especial para o Estado

02 de julho de 2020 | 05h00

BERLIM - Os dois Oscars na estante e o reconhecimento como uma das maiores atrizes de sua geração não bastaram para Cate Blanchett. Como suas colegas de profissão Charlize Theron, Nicole Kidman e Reese Witherspoon, ela quer gerar papéis intrigantes e falar de temas que lhe interessam. Por isso, abraçou com força o cargo de produtora. Só neste ano, produz e estrela as minisséries Mrs. America, ainda inédita no Brasil, e Estado Zero, que entra na Netflix na quarta-feira, 8. “Uma das razões pelas quais quis fazer a série foi ter como debater todas as discussões possíveis”, disse a atriz com exclusividade ao Estadão, referindo-se a Estado Zero, exibida no Festival de Berlim. 

A série fala da situação dos refugiados na Austrália, país natal de Cate Blanchett. “Quando começamos a conversar sobre esse assunto, ninguém estava falando sobre isso. Tudo estava envolto em silêncio, mas nós sabíamos que coisas terríveis estavam acontecendo nesse processo fora do território australiano”, contou a atriz, que hoje é embaixatriz do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados. No começo do século, muito antes da crise de refugiados na Europa e do fechamento das fronteiras americanas, a Austrália começou a processar os pedidos de asilo nas ilhas de Manus, em Papua Nova Guiné, e Nauru, ou seja, fora de seu território. 

Os refugiados passaram a ser mantidos em centros de detenção. “Os jornalistas não conseguiam ter acesso a eles. Quem falava do assunto era desacreditado.” Junto com sua amiga de colégio e universidade Elise McCredie, ela resolveu que um drama era a melhor maneira de tratar do tema. “Queríamos mostrar a face humana do problema e explorar toda a sua complexidade.” 

Elise estruturou o roteiro em torno de quatro núcleos. Inspirada na história real de Cornelia Rau, criou a personagem Sofie Werner (Yvonne Strahovski), que se envolve num culto liderado por Pat Masters (um papel pequeno para Cate) e seu marido Gordon (Dominic West). Um dia, ela aparece no campo de detenção de imigrantes de Barton, dizendo-se alemã. Já Ameer (Fayssal Bazzi) é um pai de família afegã que consegue chegar à Indonésia, com planos de ir para a Austrália. Mas ele é enganado pelos contrabandistas de pessoas e acaba mandando sua mulher e duas filhas na frente. Cam Sandford (Jai Courtney) é um pai de família em dificuldades financeiras que aceita um emprego como guarda no centro de detenção pelo triplo do salário. Já Clare Kowitz (Asher Keddie) trabalha para o Departamento de Gerenciamento de Imigração e Assuntos Multiculturais e é enviada para o centro de detenção no meio de uma crise. “Não queremos dizer ao público o que pensar, só apresentamos a situação”, explicou Blanchett. 

Os personagens foram desenvolvidos a partir de pesquisas feitas por Elise e de histórias ouvidas por Cate em seu trabalho com a ONU. Algumas das cenas mais inacreditáveis – como o protesto dos refugiados tâmeis no telhado dos galpões do campo – foram tiradas da realidade. Elise ficou impressionada com o relato de que os pais não tinham mais autoridade sobre seus filhos. “As crianças tinham de pedir ao guarda para ir ao banheiro”, disse ela. “Os pais não tinham apenas perdido seus empregos, mas também sua identidade e autoridade. E isso cortou meu coração.” Um candidato a asilo era chamado de “não-cidadão ilegítimo”. “Eles perdiam o nome, eram um UNC (da sigla em inglês para unlawful non-citizen) com um número”, disse Elise. “E não usaram a palavra ‘ilegal’, porque não era verdade que eram ilegais, mas era muito perto disso. Então muita gente começou a dizer que eles eram ilegais.”

Revolta. Foi o que seu país estava fazendo com os refugiados que gerou a faísca para a série acontecer. “Sentíamos uma impotência em relação ao assunto e pensamos: o que podemos fazer a respeito?”, disse Elise, destacando que, enquanto a Alemanha tinha recebido mais de um milhão de refugiados, a Austrália estava brigando para manter poucas centenas fora de seu território. “E gastando bilhões para isso. Não faz sentido em termos humanitários nem econômicos. É uma loucura onde chegamos enquanto espécie humana”, disse Cate. “85% das pessoas deslocadas estão abrigadas em países em desenvolvimento, como Turquia, Uganda e Colômbia.”

Para a atriz, simplesmente remover os caminhos seguros e legais para os pedidos de asilo não resolve a questão. “Os conflitos vão continuar existindo, as pessoas vão continuar fugindo, só que sem segurança nenhuma.” Ela frisou que nenhuma mãe ou pai colocaria seu filho em um bote no Mediterrâneo ou no Pacífico se não fosse por desespero. “Eu conversei com uma arquiteta num campo de refugiados no Líbano. E ela me contou que ia colocar suas três filhas num barco para tentar chegar à Europa. Porque o campo não tinha condições, as crianças estavam sem escola fazia cinco anos. Ela disse que não tinha opção.”

Países como o Líbano e a Turquia ficam sobrecarregados de refugiados, e outros, como a Austrália, usam a retórica de que não recebê-los para proteger sua população. “Eles criminalizam essas pessoas que têm o direito de pedir asilo. Elas foram identificadas como refugiados genuínos. Então, somos nós que estamos desrespeitando os direitos humanos”, disse Cate. 

A atriz e produtora acredita que a Austrália exportou esse discurso, hoje utilizado nos Estados Unidos e em outros países. “Estamos criando um problema muito maior”, disse ela. “E a grande ironia é que estão deixando de lado que a Austrália foi um território invadido e transformado em colônia; trata-se de um país construído por asilados, refugiados e imigrantes. E isso foi algo positivo. O que está acontecendo é a antítese do que temos de melhor.”

Por isso, Cate Blanchett acha que a ajuda passa pelo combate a esse discurso. “Desafie a linguagem xenofóbica e racista, a retórica baseada no medo. Se alguém falar sobre imigrantes economia em relação aos refugiados, diga que eles não são imigrantes econômicos, mas que estão fugindo da guerra. São arquitetos, médicas, enfermeiras. Essas pessoas têm talentos, receba todas bem. São humanos. Elas poderiam ser você.” 

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