Glauco Firpo/Globo
Glauco Firpo/Globo

Bruno Mazzeo explora a flexibilização da quarentena na nova temporada de 'Diário de um Confinado'

O paranoico protagonista Murilo tenta lidar com o mundo do chamado 'novo normal'

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2020 | 05h00

A pandemia provocada pelo novo coronavírus alterou radicalmente os planos dos artistas, obrigados a buscar soluções que, ao menos, remediassem o surpreendente cancelamento de suas atividades. Entre os inúmeros exemplos, destaca-se o ator e roteirista Bruno Mazzeo que, ao lado da mulher, Joana Jabace, criou a série Diário de um Confinado, cuja segunda temporada já está disponível na plataforma Globoplay.

São seis novos episódios, que mostram novamente o dia a dia de Murilo (Mazzeo), rapaz que, ainda cumprindo a quarentena, tenta agora sair de casa. O loft onde vive – na verdade, a sala do apartamento onde Joana e Mazzeo moram com os filhos, no Rio – continua como o principal cenário onde se desenrola a trama, espaço que possibilita uma maior quantidade de casos engraçados nos quais Murilo acaba envolvido.

“Considero que esta segunda temporada é dividida em três fatias, e a principal delas ainda é a das cenas do Murilo no apartamento”, observa Joana, que assina a direção artística da série. “Uma outra é ele interagindo com outros personagens por meio de aplicativo de conversa, pelo computador ou celular. Assim, como na primeira temporada, ele fala remotamente com a analista, os amigos, a mãe. E tem uma terceira fatia: Murilo vai à casa de um amigo, dá uma volta de carro, vai a um restaurante ao ar livre. É alguém que tenta lidar com o mundo que está flexibilizando, mas que ainda tem muito medo. Murilo é um paranoico nato, um angustiado. Ele vive nessa gangorra da dúvida, indo e voltando.”

De fato, se, na primeira temporada, Murilo é obrigado a viver uma nova rotina (como evitar contato com entregadores de refeições, por exemplo), agora seu aprendizado é uma tentativa, ainda que pálida, de retomar o contato com a área externa ao seu apartamento. “Agora, a gente começa a falar um pouco do mundo que vamos encontrar aí fora. Murilo continua com seus altos e baixos de humor e vai tentar dar esse passinho na flexibilização. Mas ele está ainda mais neurótico. Quanto mais relaxamento vai tendo, menos relaxado ele fica”, explica Mazzeo, autor da série.

Um momento engraçado mostra o reencontro do personagem com amigos, durante um churrasco na casa de um deles. Como na primeira temporada, a maioria dos personagens aparece por videochamadas, dirigidas por Joana, também a distância – os próprios atores fazem a captação de suas cenas com kits de gravação, preparados para uso individual, composto por dois celulares, tripés, microfone externo e uma aparelhagem usada para controlar a iluminação. “Queríamos continuar sendo essa produção caseira, mas não amadora”, comenta Mazzeo, que terminou também a gravação da nova temporada da Escolinha do Professor Raimundo.

Com os alunos mantendo o distanciamento e usando o álcool em gel, o programa (que chega em outubro à Globo e ao Viva) vai homenagear seu criador, Chico Anysio, com a turma cantando uma paródia que cita grandes personagens criados pelo humorista. Sobre o trabalho, Mazzeo respondeu, por e-mail, às seguintes questões.

Qual foi o principal aprendizado que você e Joana conquistaram na primeira temporada para melhor realizar a segunda?

Joana teve muitos aprendizados na maneira de produzir e dirigir, coisas que até foram acontecendo durante a primeira. Difícil dizer com exatidão, às vezes são até coisas subjetivas, mas também no texto a gente sempre vai entendendo como a narrativa funciona melhor, que tipo de gag funciona mais. E a segunda é bem diferente, porque tem mais cenas externas, participações presenciais, então tínhamos que descobrir novas maneiras.

Amigos confinados deram sugestões para voces? 

Claro que as histórias que ouço dos amigos acabam sendo inspiração, assim como as dos amigos parceiros de texto. Uma pena que não conseguimos usar questões de casal, em função do personagem ser solteiro. Na criação, sofri com isso, pois todas minhas primeiras ideias eram relacionadas ao casamento quarentenado.

A primeira temporada termina com tom poético e carregado de esperança. Como você acredita que a série contribuiu para ajudar as pessoas a enfrentar o isolamento social? 

Escrever sempre me faz bem para botar para fora questões minhas. Acredito que possa ter feito bem às pessoas que se identificaram, mais que a diversão, o fato de se ver ali, saber que não está sozinho nessa. 

Murilo se arrisca a sair de casa na nova temporada. Era inevitável que isso acontecesse? 

A série foi criada em cima de uma situação pontual, muito específica. Só faria sentido continuar se ela acompanhasse a evolução do assunto. Acredito que a gente conseguiu. As pessoas continuam me escrevendo que têm se identificado também com essa questão da flexibilização neurótica do Murilo.

Falando agora de Chico Anysio, você volta a viver o papel que ele eternizou, na Escolinha do Professor Raimundo. Esse parece ser o personagem mais próximo de seu pai. 

Realmente, o Professor Raimundo foi ficando, com o tempo, muito parecido com meu pai. No início (durante décadas, aliás), era um cara mais sisudo. Mas aí ele passou a fazer muito o personagem (durante um tempo, diariamente), então é natural que isso acontecesse. Tenho muito do meu pai em gestos, maneira de sentar, coisas de DNA mesmo, como todo filho. Então, acabou ficando parecido em alguns trejeitos. Mas jamais chegarei perto dele, nem tenho essa pretensão, continuo tratando a Escolinha como uma grande homenagem a meu pai e seus colegas geniais. 

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