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'Borgen'

O elenco é um dos pontos altos da série dinamarquesa: suas mulheres excedem

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2020 | 03h00

Há algo de formidável no reino da Dinamarca. É a primeira-ministra Birgitte Nyborg, protagonista da telessérie Borgen, que a Netflix exibe há semanas para uma audiência fascinada pelas intrigas da corte e, principalmente, pela personalidade da primeira-ministra e sua bela e esplêndida intérprete, Sidse Babett Knudsen. 

Borgen, castelo em dinamarquês, é o apelido do Palácio Christianborg, onde se concentra o poder político do país, a Praça dos Três Poderes de Copenhague. A Dinamarca já teve uma primeira-ministra de verdade: a social-democrata Helle Thorning-Schmidt, que liderou o parlamento entre 2010 e 2015, e aposentou-se em 2016. Birgitte Nyborg não foi inspirada nela. A primeira temporada da série já estava sendo vista quando Thorning-Schmidt assumiu o poder. 

Pelo carisma e pela competência, Birgitte tem mais a ver com Jacinda Ardern, a primeira-ministra da Nova Zelândia, cuja exitosa reação à pandemia da covid-19 deixou humilhados todos os marmanjos alfas da política mundial, a começar pelos infectados e inoperantes ogros da Casa Branca e do Palácio do Planalto. 

Quando a série tem início, Birgitte acaba de se eleger PM pelos Moderados. Ao final da terceira temporada, estará à frente dos Novos Democratas e seus liberais de centro-esquerda. Os nomes e programas dos partidos da série e os do parlamento real só eventualmente se tangenciam. Ekspress, o inescrupuloso tabloide da série, inspirou-se no centenário Ekstra Bladet, tradicionalmente de centro-esquerda.

É preciso ter intimidade com a política interna da Dinamarca para notar as semelhanças e diferenças entre os parlamentares e as posições ideológicas dos partidos reais e imaginários, o que não é o meu caso nem o da imensa maioria dos assinantes da Netflix que, não obstante, transformou Borgen num fenômeno mundial, com admiradores os mais inesperados. O escritor Stephen King talvez seja o mais entusiasmado da claque.

A comentarista Jane Merrick, do jornal britânico The Independent, deu-se à pachorra de fazer um balanço dos acontecimentos políticos da Dinamarca que tiveram eco na segunda temporada da série. Pesquisa curiosa, mas sem a menor importância para a fruição plena do que acontece na Borgen liderada por Birgitte Nyborg, não por Helle Thorning-Schmidt.

Para evitar spoilers, abstenho-me de descer a detalhes sobre a trama e realçar alguns lances meio previsíveis do roteiro e uma escorregadela envolvendo um interlúdio sexual, felizmente de curta duração e menor repercussão dramática. O roteiro, diga-se, é quase sempre primoroso, com diálogos inteligentes, mas sem aquela esperteza postiça de que só personagens de cinema (ou teatro) parecem ser dotados. 

Com epígrafes de figurões que vão de Churchill a Lincoln, Maquiavel, passando pelo patrício Kierkegaard, à maneira da série Criminal Minds, Borgen é um drama político da mesma linhagem de The West Wing (Nos Bastidores do Poder) e House of Cards. Se semelhanças houver entre eles (as aberturas de Borgen e House of Cards, por exemplo, são um tanto parecidas, até no estilo da música que a ambas embala), que se reconheça a originalidade da série dinamarquesa, produzida quatro anos antes da americana.

Coalizões partidárias frágeis, troca-trocas entre legendas, idealismo vs. Realpolitik, conspirações, conflitos entre trabalho e vida doméstica, responsabilidade profissional e vida afetiva, chantagens políticas, decepções amorosas, crises conjugais, desajustes familiares, pressões corporativas – a luta pelo poder perpassa ou é perpassada por todos esses percalços. Na pauta parlamentar, as grandes questões que agitavam a Europa no final da primeira década do século: a manutenção das conquistas social-democratas, o fortalecimento do sistema de saúde, as crises do meio ambiente, o problema da imigração.

Birgitte é o oposto de Francis Underwood, o Ubu-Presidente magnificamente encarnado por Kevin Spacey em House of Cards. Destemida e determinada, o maior capital político da PM é sua retidão ética. Apesar das aparências, não é uma supermulher, mas suas fraquezas, notadamente as afetivas, só reforçam a empatia da personagem. E que olhar – alternadamente frio, como o de um exímio jogador de pôquer, e caloroso – tem Sidse Babett Knudsen!

O elenco é um dos pontos altos da série. Suas mulheres excedem, o que não surpreende num drama de manifesta índole feminista, que procura evitar os estereótipos sexistas. A tesuda Birgitte Hjort Sorensen, intérprete de Katrine Fonsmark, jornalista ambiciosa, workaholic, valente e exposta à venalidade da imprensa sensacionalista, jamais sucumbe à sombra da prima-dona da história. Sua voz impõe uma autoridade que poucas vezes tenho visto, ou melhor, ouvido na tela, nos últimos tempos. 

Produção da DR, televisão pública dinamarquesa, é mais uma mostra da pujança artística do audiovisual escandinavo que, dessa vez, não precisou contar com uma adaptação hollywoodiana (como ocorreu com The Killing e The Bridge) para se impor no mercado, inclusive nos Estados Unidos, onde é grande a resistência a filmes legendados. 

A NBC comprou os direitos de adaptação de Borgen em 2011, mas sentou em cima. Uma versão americana da série não fez e não faria a menor falta no streaming nosso de cada dia. Que nos venha a quarta temporada, já em preparo, dizem, com Birgitte às voltas com a neodireita fascista, a pandemia, as fake news e demais flagelos da atualidade, o que pode ou não incluir no pacote o ogro da Casa Branca. 

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘ESSE MUNDO É UM PANDEIRO’

 

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