SUZANNA TIERIE/NETFLIX
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'Bom dia, Verônica' é o suspense nacional que faltava no streaming da Netflix

Com jeito de cinema e cara de série, trama policial investiga caso de violência comum no Brasil

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2020 | 15h21

Desde que estreou 3%, em 2016, a Netflix investiu em histórias de todos gêneros. Da animação de Super Drags, aos zumbis de Reality Z e as produções queridinhas de Sintonia e Coisa Mais Linda.

Neste ano, a estreia de Bom Dia, Verônica chega trazendo seriedade no catálogo da plataforma, o que pode atrair a atenção de um público mais velho que a audiência fiel da Netflix.

Apesar de comum nos filmes e na literatura, o suspense policial ou de terror tem dificuldades de se multiplicar no streaming atual. Não é raro que um bom filme do gênero seja a opção para economizar algumas horas. E no caso de Bom Dia, Verônica, o segredo é o ritmo.

A trama a se descobrir é inspirada no livro Raphael Montes e Ilana Casoy e não tem receio de mostrar as consequências de uma investigação que começa com o ato de desespero de uma mulher. No centro, a atriz Tainá Müller é a escrivã e testemunha envolvida em uma tragédia bem brasileira. 

Com Eduardo Moscovis e Camila Morgado, o elenco dessa caçada fica completo. A dupla interpreta Brandão e Janete, um casal aparentemente comum, mas que almoça entre segredos e ameaças. O que acrescenta horror à narrativa policial de Bom Dia, Verônica é mostrar a rotina de quem pratica e sofre violência doméstica. 

O trabalho do elenco surpreendeu até mesmo um público que já conhecia o trio das novelas. A atriz Tainá, no papel de Verônica, não se iguala à personagem que faz em Flor do Caribe, que voltou em em exibição na TV Globo. O mesmo ocorre com Moscovis, bem distante dos pares românticos que já fez na telinha.

A direção de José Henrique Fonseca ganha dinâmica na narrativa policial e faz da primeira temporada um filme de fôlego. Na série, há tempo para imaginar o que Brandão pretende com suas vítimas e também de compartilhar do medo diário na vida de Janete. Embora não saiba como nomear seu pesadelo, a personagem de Camila Morgado comunica o terror silencioso vivido por muitas mulheres no Brasil. 

O clima de caçada permite que o serial killer cometa crimes e consiga sair impune. Mais uma vítima morta, mais um almoço de Brandão com a esposa, que é carinhosamente chamada de passarinho. A poesia se torna ainda mais cruel quando Janete veste um tipo de gaiola na cabeça para não se tornar cúmplice das atrocidades do marido.

Ao fim de cada episódio, a série rompe com a ficção e assume a responsabilidade do debate ao exibir uma mensagem de que a violência doméstica é um crime que precisa ser combatido. Isso sem precisar se dobrar ao apelo educativo.

Algo semelhante ocorreu com 13 Reasons Why, série de ficção da Netflix que aborda o suicídio de uma estudante vítima de bullying. Diante de realidades tão cruéis, a série pode ser sim, perturbadora para alguns públicos, mas o incômodo, também pode ser o começo de uma libertação.

 

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