Michele K. Short/HBO via AP
Michele K. Short/HBO via AP

Baseada em livro de Philip Roth, minissérie faz alerta contra o medo

David Simon, de ‘The Wire’, lança ‘The Plot Against America’, sobre Estados Unidos sob comando fascista

Mariane Morisawa/Especial para o Estado, Los Angeles

16 de março de 2020 | 07h00

Pouco depois da reeleição de Barack Obama, em 2012, David Simon, o criador de The Wire, recebeu o convite para fazer uma adaptação de Complô Contra a América. O romance, publicado por Philip Roth em 2004, imaginava uma realidade paralela em que um célebre herói americano (o aviador Charles Lindbergh) era eleito presidente dos Estados Unidos em 1940, no lugar do terceiro mandato de Franklin Delano Roosevelt, fazia um acordo com Adolf Hitler e promovia uma política isolacionista, baseada no medo do outro, em particular de judeus. “Achei que o livro era um belo artefato, mas não tinha nada a ver com nosso momento político”, explicou ele durante evento para jornalistas da Associação de Críticos de Televisão, em Los Angeles. “Como eu estava errado!”, acrescentou.

Em 2020, uma celebridade está sentada no Salão Oval da Casa Branca, promovendo um discurso isolacionista e baseado no medo do outro – desta vez, latinos e muçulmanos, apesar do crescimento de ataques antissemitas. É nesse momento que estreia nesta segunda-feira, 16, às 22h, a minissérie da HBO The Plot Against America, que leva o nome original do livro de Roth.

“Eu perdi minha esperança de que, mesmo se contar uma história direito, alguma mudança vai acontecer”, disse Simon mais tarde, em entrevista mesa-redonda com a participação do Estado. “Mas isso está acontecendo agora. E nos juntamos e fizemos um projeto que trata disso. Então podemos pelo menos dizer que não ficamos em silêncio não apenas em relação ao antissemitismo, mas à violência direcionada a muçulmanos e pessoas não brancas e à retórica contra imigrantes e nacionalista. Nós fizemos alguma coisa, uma série que tratou do tema diretamente e francamente. Fizemos nosso trabalho.”

Mas nem a realidade paralela criada por Roth é páreo para a realidade. “Nós nem precisamos de um grande herói americano para abalar nossa fundação política, o que me deixa inquieto”, contou Simon.

Lindbergh foi o primeiro homem a voar sozinho entre Nova York e Paris, revolucionando a aviação comercial, e teve o filho sequestrado e morto. Depois, revelou-se simpatizante do nazismo.

David Simon teve a oportunidade de conversar com Philip Roth antes de sua morte em 2018 e ouviu do escritor um pedido: que ele trocasse o nome da família, já que O Complô Contra a América era baseado em sua infância. Em vez da família Roth, a minissérie tem a família Levin, que mora numa comunidade judaica do Estado de Nova York e é formada por Herman (Morgan Spector), Elizabeth (Zoe Kazan) e os dois filhos, Sandy (Caleb Malis) e Phillip (Azhy Robertson). Herman logo fica indignado com o discurso de Lindbergh, que culpa os judeus por uma retórica pró-guerra. Elizabeth, que sofreu na pele o antissemitismo, teme pela família. Ela tenta apoiar a irmã mais velha, mas há uma divisão na família quando Evelyn (Winona Ryder) encontra no rabino Lionel Bengelsdorf (John Turturro) a solução para sua solidão. O rabino se alia a Lindbergh, acreditando que sua retórica antissemita e aproximação dos nazistas é apenas jogo de cena.

Simon criticou os judeus que relevam o discurso e atitudes antiminorias da atual administração. “Os elementos da comunidade judaica que estão satisfeitos com essa transformação da vida nos Estados Unidos precisam fazer uma reflexão, porque, quando eles vêm atrás de alguém que é minoria, vêm atrás de todos. Eu como judeu reajo e sinto que é um momento em que perdemos algo profundo.”

O roteirista teve a preocupação de escalar atores judeus e comprometidos. Tanto Winona Ryder quanto John Turturro admitiram ser fanáticos por história. “Quando eu era bem nova, ia à biblioteca e ficava folheando livros sobre o Holocausto. Eu achava que havia algo de errado comigo, mas depois percebi que estava procurando ali pela minha família”, disse a atriz, que teve parentes assassinados em campos de extermínio nazistas.

Turturro acha que o momento de agora é próximo da época da ascensão do fascismo na Europa. “A história nos mostrou diversas vezes que, quando há pessoas sendo deixadas para trás na distribuição da riqueza, esses demagogos preenchem esse espaço.” Simon concordou. “Essas pessoas que compram essa demagogia ou ficam em silêncio estão sofrendo. Elas procuram um médico para curar seus males, mas ganham um charlatão e ficam piores do que antes. No fim, dão poder às pessoas erradas, que minam os fundamentos da democracia”, afirmou ainda. “E a democracia é frágil, é uma luta cotidiana.”

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