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'A Vida em Outros Planetas' combina criaturas imaginadas e ciência em busca fantástica pela galáxia

Minissérie da Netflix aplica as leis naturais da Terra em quatro planetas fictícios que poderiam abrigar seres alienígenas

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2020 | 14h43

Os antigos vídeos de supostos seres alienígenas sendo examinados na Área 51 sempre alimentaram a imaginação de uma civilização que, mesmo cercada por bilhões de pessoas, insiste em não se sentir sozinha.

Os seres humanos nunca deixaram de olhar para o alto, e uma vez encantados pelo brilho das estrelas, seguem na busca por algum cantinho de vida escondido na galáxia. 

Nos quatro episódios de A Vida em Outros Planetas, a nova minissérie da Netflix cria uma mistura de ciência e ficção. A produção narrada por Sophie Okonedo se baseia nas principais leis naturais da nossa Terra para imaginar quatro planetas fictícios com ecossistemas complexos e favoráveis à presença de seres vivos.

Quem já assistiu ao trailer da minissérie não deixa de sentir o impacto visual pelas belas - e estranhas - criaturas animadas digitalmente: seres voadores que lembram arraias flutuam na atmosfera em busca de sementes, primatas peludos com quatro braços caçam em um mundo com mais oxigênio que a Terra. Em um ambiente árido, monstros com tentáculos e cinco pernas caminham por um deserto de fogo e gelo, e vidas inteligentes abandonam seus corpos físicos e são sustentados pelo domínio de robôs e alta tecnologia.

À primeira vista, A Vida em Outros Planetas se assemelha à uma ficção espacial, mas a inspiração não é meramente especulativa. A ciência ocupa um lugar especial em cada episódio de cerca de 43 minutos de duração. 

A explicação está nas diversas entrevistas que preenchem de conceitos o aspecto fantasioso da produção. A minissérie elenca os principais aspectos que favorecem a vida nos diversos ambientes já conhecidos da Terra, como por exemplo, a quantidade de oxigênio, as variações de temperatura e estações, as relações entre diferentes organismos, a capacidade de transformação de energia e a presença de alimento e água.

No primeiro episódio, o gigante planeta fictício Atlas se apresenta com o dobro da gravidade da Terra, capaz de afetar a movimentação e modelar a dimensão dos corpos nativos.

Nesse caso, os animais teriam tamanho superior aos terráqueos, e seriam capazes de flutuar na densa atmosfera. Para fundamentar a ideia, um treinador de falcões nos Estados Unidos explica como a gravidade contribuiu para os movimentos de caça das aves, ao longo da evolução.

Outro exemplo singular são os seres vivos capazes de enfrentar condições de vida extremas. E o planeta Terra está repleto deles. Nos anos 1980, cientistas já conheciam os chamados extremófilos, micróbios com capacidade de sobreviver em lugares extremamente quentes, ou ácidos.

Na Etiópia, a região da Depressão de Danakil, conhecida como o lugar mais quente da Terra, é um laboratório perfeito para entender o ambiente hostil de muitos planetas. Os charcos vulcânicos fazem parte do interesse de muitos astrobiólogos que visitam a região para colher amostras e identificar a presença de vida. 

Em A Vida em Outros Planetas, o pequeno Janus, um planeta fictício, não gira no próprio eixo e acaba recebendo luz direta de uma estrela apenas em um de seus lados, criando um eterno deserto quente. Na outra face, o frio extremo e a escuridão também impõem desafios aos seres viventes. Eles não têm o porte dos micróbios da Terra, mas os desafios são semelhantes. Garantir alimento e conseguir se reproduzir exigem grandes técnicas de adaptação.

No Sistema Solar, ambientes extremos são comuns. Ao expelir água de sua superfície congelada, Europa, o satélite natural do planeta Júpiter, trouxe evidências de que haveria um oceano escondido na lua e talvez atividade geológica capaz de movimentar e aquecer a água. Trata-se de um ambiente semelhante às fontes hidrotermais no fundo dos oceanos da Terra, apontados por muitos cientistas como ponto de origem da vida por aqui. 

Mas a vida não é só dificuldade. O oxigênio presente em nosso planeta tem uma função primordial no desenvolvimento da vida e sua quantidade também altera a dinâmica dos seres vivos. No terceiro episódio da minissérie, o planeta da vez é Eden, banhado pela luz de duas estrelas-gêmeas, criando um ecossistema com 10% mais oxigênio que a Terra.

Pode parecer pouco mas a floresta desse lugar fictício traz uma combinação de grandes árvores e plantas, alimento e seres vivos que armazenam grande quantidade de energia. O resultado é competição. Carnívoros e herbívoros lutam para garantir a sobrevivência, que pode ser fortalecida nas parcerias, como as relações de cooperação entre um pássaro e um jacaré, por exemplo. 

O último episódio de A Vida em Outros Planetas talvez seja o mais interessante aos curiosos pelo que se considera “vida inteligente”. Um polvo é um bom exemplo de “alienígena” dos nossos mares. Com o sistema nervoso mais desenvolvido entre os invertebrados, o animal tem cerca de 70% dos neurônios localizados em seus tentáculos. “É um animal com oito cérebros”, brinca a cientista na minissérie.

No entanto, o documentário reflete que não basta ser inteligente e o planeta fictício Terra dá algumas pistas. Nele vivem seres que, como o livro 2001 - Uma Odisseia no Espaço, abandonaram o corpo físico e habitam dispositivos mecânicos, dado o alto conhecimento e desenvolvimento tecnológico.

A estrela que mantém o planeta aquecido está bastante instável. Após consumir seu estoque de hidrogênio, estrelas-anãs se transformam em gigantes vermelhas, e como o futuro do nosso Sol, vão crescendo e engolindo tudo o que vier pela frente. Dessa forma, as critaturas de Terra estão ameaçadas pelo colapso de sua estrela. A solução? Trocar de planeta. 

O documentário também faz suas apostas sobre a chance de vida em outros lugares da galáxia e apresenta o trabalho importante da nossa ciência. Um deles vem do Observatório de Arecibo, no noroeste de Porto Rico, que recentemente entrou em colapso e desabou em 2020, após 57 anos de operação

A estrutura foi por mais de meio século um ícone nessa busca por outros formas de vida. Construído em 1963, sua missão foi o envio de mensagens por sinais de ários e busca por inteligência extraterrestre.

Em A Vida em Outros Planetas, o olhar científico surpreende, encanta e também amedronta. Um filme de ficção que pode se tornar real a qualquer momento. 

 

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