Laura Campanella/Paramount+
Laura Campanella/Paramount+

A cultura do cancelamento às vezes é desproporcional, diz Maria Bopp, que estreia 'As Seguidoras'

A ‘Blogueirinha do Fim do Mundo’ fala sobre a nova série 'As Seguidoras', que estreia no Paramount+

Simião Castro, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2022 | 10h00

Matar para preservar likes, seguidores e engajamento é o recurso encontrado pela influencer Liv para permanecer no restrito círculo dos influenciadores digitais. Essa é a premissa básica de As Seguidoras, série brasileira estrelada pela atriz Maria Bopp.

O projeto vai abordar a positividade tóxica e a cultura do cancelamento enquanto acompanha a blogueira vegana good vibes que vira serial killer. Os seis episódios chegam de uma vez no próximo domingo, 6, ao Paramount+.

A produção é do Porta dos Fundos, no primeiro produto seriado da empresa feito para uma plataforma de streaming. E as realizadoras estão otimistas por uma continuação mesmo antes do lançamento. "Vamos sonhar, todo mundo dar a mão, pensamento positivo!", disse a criadora Manuela Cantuária durante entrevista coletiva.

Encarnando Liv, que se engaja em rituais de sangue menstrual enquanto esconde um corpo esquartejado num freezer do patrocinador de cupuaçu, está Maria Bopp. A atriz vinha mais próxima do drama após papel na série Oscar Freire 279 e interpretar Bruna Surfistinha na TV.

Mas foi na pandemia que ela flertou com o surreal ao criar a Blogueirinha do Fim do Mundo. Feita para as próprias redes sociais da atriz, a personagem sem noção acometida por uma ironia ácida viralizou por viver totalmente fora da realidade.

No meio do turbilhão de compromissos para a divulgação da série, Maria atendeu o Estadão para uma conversa via Zoom. E contou já estar numa empreitada nova: ela acabou de filmar a série Novela, para o Amazon Prime Vídeo, com Mônica Iozzi e grande elenco.

Além de explicar o que a interessou em Liv: ‘Fazer uma comédia foi um desafio absurdo’, diz. E questionar até que ponto é válida a chamada cultura do cancelamento: ‘Às vezes é desproporcional’, afirma. Maria lembra que a arte e o entretenimento são formadores fundamentais da cultura, ao mesmo tempo em que podem ser apenas alívio para a dura realidade do século 21. Leia a entrevista completa a seguir:

O que a Liv tem da Blogueirinha do Fim do Mundo?

Eu acredito que a Liv tem um tanto da ironia. Porque eu digo que a Liv é uma personagem irônica por definição, né! Porque quando você lê numa sinopse que é uma blogueira vegana good vibes que se torna serial killer tem uma ironia clara aí. E a Blogueirinha do Fim do Mundo é uma personagem da ironia também, então acho que isso é um ponto em comum na linguagem das duas. Apesar de a Liv não ser irônica no dia a dia. Ela inclusive leva muito a sério as coisas que fala. Ela tem esse discurso ‘cura vida’ e não é da boca para fora, ela realmente acredita nisso, ela leva isso muito a sério. Eu já tinha feito um vídeo exclusivo só sobre positividade tóxica como Blogueirinha do Fim do Mundo. Fiz antes de ter a Liv. Essa coisa um tanto alienada de achar que tudo depende de energia positiva, de você querer muito algo, jogar energias boas para o universo e isso voltar. É algo que parece com a Liv. Mas eu acho que elas têm mais diferenças do que semelhanças, porque Liv é uma personagem tridimensional. Ela tem profundidade, uma história, tem arco dramático, um início, meio e fim.  E a Blogueirinha do Fim do Mundo não sai ali da tela. Talvez se a Blogueirinha saísse da tela e a gente a visse no dia a dia sem ser através dos tutoriais e tudo mais, a gente visse alguém parecida com a Liv, mas como as coisas são hoje eu as considero bastante diferentes.

Depois da Blogueirinha do Fim do Mundo, que se confunde muito com você por causa dos seus próprios posicionamentos políticos e sociais, topar fazer a Liv tem um pouco a ver com restabelecer essa separação cênica entre personagem e atriz?

Eu acho que não. Depois que eu fiz a Bruna Surfistinha admiti para mim mesma que eu era atriz e a Blogueirinha do Fim do Mundo, na verdade, veio quase de um desabafo meu. Uma maneira de transformar, quase uma alquimia, da minha raiva e da minha indignação, de botar isso para fora. Mas eu nunca deixei de ser atriz. Talvez eu tenha dado uma pausa na carreira por causa da pandemia. Eu já tinha um longa marcado para filmar em maio de 2020 que, claro, adiou, mas eu já gravei em abril do ano passado. E aí logo depois já veio na sequência a Liv e essa outra série. Então, assim, eu nunca deixei de ser atriz e nunca foi uma coisa ‘Ah, agora eu preciso topar um outro projeto para que me diferenciem’, não.

Eu entendo que na Blogueirinha existe uma separação menor entre o que sou eu o que é minha personagem porque os vídeos dela então ali no meu feed junto com outras coisas da minha vida pessoal. Eu até criei um perfil da Blogueirinha no Instagram, que eu não uso. Postei um vídeo, mas acho que é até pior. Tem muita gente que não sabe que meu nome é Maria, por exemplo, que não sabe que eu sou atriz. Tem vídeos que tiram de contexto e acham que eu sou aquela sem noção. Então se eu deixar pelo menos uma coisa só, as pessoas vão ver que é uma atriz, que é uma personagem que eu estou criando para a internet. Se eu separar vai ser mais difícil para as pessoas entenderem nas redes. Mas eu entendo que ainda assim existe essa confusão.

Enfim, eu nunca deixei de ser atriz, e eu acho que essa não foi minha motivação para fazer a Liv. Eu quis fazer a Liv porque eu achei uma personagem muito interessante, a sinopse já foi de cara algo que me encantou e quando eu li os roteiros eu não conseguia parar. Queria ler o próximo, o próximo e o próximo. De verdade, essa coisa do thriller, de querer saber o que vai acontecer, de ter um final imprevisível é uma coisa que me encantou e eu acho que pode encantar o público também.

Boa parte das personagens que você já fez tratam de dilemas e questões que as mulheres enfrentam diariamente, especialmente quanto a feminilidade  e hipersexualização. A Liv também, como influencer que busca ideais inatingíveis, em várias medidas. Mas o que a diferencia das outras? 

O que foi inclusive um desafio para mim é que essa é uma série de comédia, uma série do absurdo. Apesar de resvalar em muitos temas reais e que estão muito atuais hoje - como essa coisa da internet, da busca por likes, a busca por engajamento, o medo do cancelamento, tudo isso são coisas muito atuais -, apesar disso é uma série de um humor absurdo. E é uma coisa que eu tinha que me lembrar ao longo da série. Quando eu me via me levando a sério demais eu pensava: ‘Eu estou fazendo uma serial killer. Como funciona a mente de um psicopata?… Não, Maria! É uma série do Porta dos Fundos, é uma comédia’. O absurdo, a graça, é mais do que bem-vindo.

Fazer uma comédia foi um desafio absurdo como atriz, eu acho que é o que diferencia das outras coisas que eu fiz. Eu vinha fazendo dramas. Apesar de a minha primeira personagem, a Zazá, da Oscar Freire 279, não ser uma garota de programa, era a prima de uma. Ela era um pouco cômica, ela era um pouco inconveniente, meio mal humoradinha, ela tinha uma graça ali. A Liv eu acho que vai para o absurdo mesmo, vai para a coisa mais escancarada da comédia, que é diferente. É um ritmo diferente, a comédia tem insígnias diferentes do drama. E isso foi muito interessante para mim. Eu aprendi demais fazendo a Liv.

Por quê?

Porque a comédia dá uma vontade de fazer as coisas num take só, sabe? Eu só posso falar pela minha experiência, mas como atriz de drama, fazendo a Bruna, eu sentia sempre que se eu tivesse mais um take eu poderia fazer melhor. Sentia que eu poderia me conectar mais com aquilo. E o audiovisual pode ser muito cruel às vezes para a atuação, por ser muito fragmentado, por a gente ter que repetir muitas vezes e etc… Então eu sentia que às vezes eu precisava de mais um take para ser melhor. E eu senti que na comédia quanto mais na espontaneidade e na intuição for, melhor! Eu aprendi muito, um ganho de quilometragem mesmo como atriz. De fazer diferentes tons, diferentes ritmos, diferentes gêneros, para poder me deixar pronta para os próximos desafios como atriz.

Você mencionou a cultura do cancelamento. E às vezes isso nada mais é que as consequências das próprias atitudes, mas o que você entende que é a cultura do cancelamento?

Eu não sei se eu tenho exatamente uma resposta para isso porque, eu concordo com você, eu acho que a cultura do cancelamento muitas vezes pode ser as pessoas sendo criticadas por algo que elas fizeram ou falaram. E, por serem pessoas públicas, estão sendo cobradas publicamente por aquilo, criticadas publicamente e de madeira massificada por isso. Não sei se definiria como cancelamento quando a pessoa perde algum contrato ou emprego, se isso definiria o que é cancelamento ou a crítica massificada já seria. Eu acredito que sim. Eu acho que tudo isso entre nessa definição do que é o cancelamento.

Tendo já sido uma ‘semicancelada’ (risos), como esse episódio ressoou em você?  O que nasceu disso? [Maria se envolveu em uma polêmica em 2021 após intervir na reação a questionamento controverso de Enzo Celulari sobre o preço da carne no Brasil]

Tendo acontecido isso comigo, de maneira muito muito leve eu diria - porque acho que foi muito pouco perto do que eu já vi acontecer com outras pessoas, e mesmo assim foi desagradável -, [posso dizer que] é amargo isso. O que eu estava defendendo ali nessa questão com o Enzo Celulari, que eu defendo muito, é que às vezes é desproporcional a crítica e o cancelamento perto do que a pessoa fala. Claro! Quando envolve um crime, quando existe, por exemplo, apologia ao nazismo, quando a pessoa é racista, misógina, homofóbica, transfóbica, daí existe um desejo genuíno de constranger essa pessoa publicamente. E esse desejo também é meu. Muitas vezes eu penso: ‘A pessoa tem 30 milhões de seguidores, dez milhões, um milhão que seja, e está tendo esse discurso absolutamente problemático que fere a dignidade, a liberdade e a existência do outro, essa pessoa tem que ser constrangida publicamente’. É isso! Quando envolve um crime. Quando é uma opinião de uma pessoa, por exemplo, o Ícaro Silva falando que não gosta de Big Brother, por mais que ele tenha sido talvez inábil ou exagerado nas palavras dele, eu achei que foi altamente desproporcional o cancelamento que veio a partir dali. Assim como foi do Enzo Celulari, do Yuri Marçal, da Paola Carosella. Tem vários exemplos semanalmente de casos em que a pessoa se posiciona, independente do campo que ela está, se é no campo progressista, no campo reacionário, não importa, as pessoas avançam nelas de maneira impiedosa. E eu acho que muitas vezes é desproporcional. Cada caso é um caso, mas no geral às vezes é desproporcional, menos quando envolve um crime.  

E, com esse contexto todo, como você enxerga o papel da arte e do entretenimento na vida?

O humor é uma grande ferramenta de crítica social, eu acho que isso é uma função do humor mesmo, que não pode ser dissociado. Ao mesmo tempo que eu penso que muitas vezes o entretenimento e a arte podem servir também como uma válvula de escape. A gente está vivendo num mundo que às vezes parece uma panela de pressão. São tragédias diversas, sociais, ambientais, acontecendo semanalmente que a gente se sente muito impotente e as redes sociais podem aumentar essa sensação de ansiedade e de descontrole. E muitas vezes a arte e o entretenimento podem servir apenas para você esfriar a sua cabeça, pensar em outra coisa e não se relacionar com o mundo que está à sua volta. Mas, de qualquer maneira, eu acho que a arte gruda na nossa cabeça, fica no nosso inconsciente. Muitas vezes eu não sabia exatamente como eu tinha algumas referências para a Liv. Mas eu tinha por causa de séries que eu vi a muito tempo atrás. Desde Dexter até um documentário chamado Don’t Fuck With Cats que é sobre um assassino que se sentiu empoderado a continuar a cometer crimes por causa do engajamento que recebeu nas redes. Muitas vezes me vinham essas coisas na cabeça por algo que eu vi há muito tempo, que eu não estava pesquisando só para essa série, mas ficou aqui. Então acho que o entretenimento tem isso: ele constrói nosso inconsciente, nossos desejos, nossas vontades, nossa cultura como um todo. Então eu acho que de certa forma a série levanta esse debate sobre as redes sociais e pode aumentar o nosso senso crítico sobre o conteúdo que a gente consome, o que faz mal e bem entre a gente, mesmo que seja de maneira inconsciente, de maneira sutil.

 

Muita gente deve te perguntar se você acha que toda personalidade deve se posicionar. Não é isso que eu vou te perguntar (risos). Você acha que toda representatividade é representativa?

Eu estava conversando com a [atriz] Luana Xavier, recentemente, e ela falou que existe o peso da representatividade, muitas vezes. Como, por exemplo, existem poucos personagens de pessoas negras em lugar de destaque no entretenimento, essa pessoa tem que ser perfeita, ela não pode errar, porque se ela errar ela carrega esse peso da representatividade. A gente viu acontecendo isso com a Karol Conká, a gente viu acontecendo com o Ícaro e ele mesmo falou isso no texto dele, que pessoas negras têm que ser sempre excelentes para conseguir se consolidar no lugar de destaque. Então eu acho que existe isso, sim. Esse peso. E acho que não precisaria ser assim. Precisaria ter mais pessoas representando os seus para que não recaísse o peso só sobre uma ou poucas pessoas.

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