DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO
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Zuza Homem de Mello foi o profissional mais importante do último meio século no Brasil

'Numa live recente que fizemos em julho, Zuza divertiu-se falando da convivência com os grandes – de Ellington a Marsalis, de João Gilberto a Caetano, Gil, Elis e Tom.'

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2020 | 18h38

Neste mundo compartimentado em que vivemos, sobretudo no domínio das artes, Zuza nos ensinou talvez a maior das lições: a de que a música é uma só, não existem cerquinhas ou divisões. Quando ela tem qualidade de invenção, merece ser ouvida e compartilhada. Este conceito foi escrito e explicitado por Augusto de Campos. Mas Zuza foi, desde antes de Augusto, a própria encarnação desta postura.

E, por isso, foi o profissional de música mais importante do último meio século no Brasil. Além de seu fundamental lado de pesquisador, com vários livros essenciais para a devida compreensão da música popular, Zuza tinha “música nas veias”: por elas cabia de tudo, desde que fosse de qualidade. O slogan nasceu como título de um de seus programas de fim de tarde na Rádio Jovem Pan em muitas décadas passadas.

Um mote pessoal, nutrido e cultivado com paixão em seu dia a dia. Zuza conseguiu – quase num passe de mágica – transferi-lo para cada projeto, cada realização durante sua carreira de estudante de contrabaixo na Juilliard School em Manhattan; depois engenheiro de som da TV Record nos lendários anos 1960; até desabrochar como curador e produtor musical.

Meio século dourado, para ele, profissionalmente, e para a música brasileira, que começou em 1978, no I Festival Internacional de Jazz de São Paulo, no Anhembi. Foi a largada para uma série de outros festivais – Free Jazz, Montreux, entre vários outros –, nos quais ele fez amostragens inclusivas, que iam dos grupos mais revolucionários aos mainstream. 

Não é exagero afirmar que Zuza mudou radicalmente a vida musical deste meio século. De um lado, foi parceiro e pesquisador meticuloso da música popular brasileira. De outro, ao trazer para o Brasil o estado da arte do jazz, impulsionou e tirou do esquecimento a música instrumental brasileira. Pioneiros como o saxofonista Vitor Assis Brasil e o experimental Grupo Um tocaram em festivais concebidos por Zuza. A convivência dos brasileiros com os grandes do jazz e o compartilhamento do público com toda esta efervescência resultou na tão esperada consolidação da música instrumental por aqui. Isso valeu especialmente para os estudantes de música, que passaram a enxergar nela um caminho novo e viável.

O jazz brasileiro, ou que nome se queira dar, floresceu de modo notável nos últimos trinta anos. E isso se deve a Zuza. A música popular de qualidade também – também graças ao Zuza. 

Numa live recente que fizemos em julho, Zuza divertiu-se falando da convivência com os grandes – de Ellington a Marsalis, de João Gilberto a Caetano, Gil, Elis e Tom

Mas, acima de tudo, jamais sentou-se em cima de glórias passadas. Continuava garimpando novos talentos na música brasileira (apostando em Ana Setton, Marcio Montarroyos e Letieres Leite. Falamos sobre suas maiores paixões: a máxima, Duke Ellington, e outra preferencial, Wynton Marsalis. Quanto ao primeiro, ele sempre o considerou o maior músico do século 20.

Uma paixão compartilhada décadas atrás por uma confraria Duke Ellington, integrada por Alberico Cilento e Carlos Conde, que mantiveram um programa de jazz na Rádio Cultura FM de São Paulo. Pois eles bancaram em 1968 um LP não-comercial, com apenas 200 cópias, com parte do show do Duke e sua orquestra no Teatro Municipal em São Paulo. “Estão nas mãos de ellingtonianos do mundo inteiro, inclusive na Duke Ellington Society. É o único registro de Duke Ellington ‘beyond the Equator’”, abaixo do Equador, contou rindo.

Faltou tempo para um livro que com certeza Zuza adoraria ter escrito sobre Ellington. Quanto a Marsalis, ele realizou seu sonho ao conceber ano passado no Sesc Pinheiros, em São Paulo, uma “instalação” Jazz at the Lincoln Center Orchestra com 15 dias de shows, masterclasses e concertos didáticos.

Semanalmente, até a pandemia, Zuza e sua mulher Ercília tinham cadeira cativa nas temporadas da Osesp e da Sociedade de Cultura Artística. Vai fazer muita falta, quando o novo normal chegar.

*JOÃO MARCOS COELHO É CRÍTICO DE MÚSICA

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