Zizi Possi faz leitura particular da bossa nova

Quando cria, não pensa. Faz. Foi o que disse a cantora Zizi Possi ao informar à reportagem sobre a produção de seu novo CD, Bossa (Universal Music), no qual interpreta canções da música popular brasileira e estrangeira com uma leitura bastante particular. Zizi enxerga nessas composições elementos da bossa nova e imprimiu, com intensidades variadas, algo dessa linguagem musical."O disco não poderia se chamar Canção", enfatiza Zizi. "Tenho certeza que discorri sobre o meu olhar da bossa em todas as músicas que canto, apesar de não serem específicas do gênero, de estar distante de uma visão purista. A bossa, nesse caso, é o meu filtro pessoal de interpretação. É o sentido da palavra que significa uma qualidade peculiar para cada composição, em que cada uma chama atenção individualmente. Em algumas, a bossa está reforçada, em outras, suavizada."A bossa de Zizi é muito bonita, embora ela não possa ser considerada completamente inventiva no novo trabalho. "Eu deixo para os outros, os que estão de fora, a função de pensar nos conceitos. Quem cria, não deve partir desse princípio", diz. "O que mais prezo, o meu grande barato, é justamente poder ter essa liberdade, de escolher, de mudar de idéia, de lidar com arte, estética, textura", completa. "O resto, honestamente, não me interessa."Zizi ainda não pensou se terá contribuído (ou não) com a bossa nova, embora não seja o critério pelo qual pode ser questionada em Bossa. Há algumas canções nesse repertório interpretadas e reinterpretadas, como Yesterday, dos Beatles. Motivo da escolha: gosto pessoal reavivado durante o período de concentração para o processo criativo. Diferentemente de Puro Prazer, quando se propôs declaradamente a lançar um disco sem pretensão, desprovido de conceitos, ela teve ali atitude corajosa. Fez um disco só voz e piano, como poucas têm coragem de realizar hoje, pois optam pelos arranjos suntuosos, cheios de clichês.Por outro lado, quando ela canta no novo CD Caminhos Cruzados, de Tom Jobim e Newton Mendonça, citando Águas de Março, Wave e Inútil Paisagem, reafirma quanto essas canções transcendem gerações e que a sua criação intuitiva é o bastante. Enfim, põe os conceitos e as reflexões em contradição e oferece ao seu público um registro fonográfico digno. Para essa questão, também bastam os versos de Preciso Aprender a Só Ser, de Gilberto Gil, presente no CD: "Sabe, gente/É tanta coisa, que eu fico sem jeito/ Sou eu sozinha e esse nó no peito..."Realista - Bossa é o 17.º álbum de uma carreira de 20 anos. Ela o lança aos 45 anos. Nesse momento, outra característica da intérprete que se consolida é a de ser realista. Bossa nada tem a ver com a circunstância oportuna em que se encontra a bossa nova no mundo, com mercado amplo. As vendagens dos discos de Bebel Gilberto e Joyce são dois exemplos dessa situação. "Sei que a minha estética musical transcende fronteiras, mas não sou ingênua. Não tenho carreira internacional. Esse disco não foi feito com essa expectativa. Bebel plantou essa carreira. É uma outra situação", explica. "Essas questões de estratégia fogem da minha função. O investimento de gravadora é feito aqui no Brasil, onde é a minha esfera de trabalho, o restante não me compete. Se fora daqui tiverem interesse em investir, já é uma outra questão, que desconheço."Zizi é também ponderada em relação à carreira da filha, Luiza Possi, que interpreta ao seu lado na música Haja o Que Houver, de Pedro Ayres Magalhães. "Agora, o meu papel é apenas de mãe. Não quero atropelar, opinar a mais ou a menos", informa. Ela também não sabe se Luiza estará com ela nos shows.A base de Bossa foi feita em Ibiúna, onde Zizi tem casa. Lá, concentrou-se na música com os parceiros Jether Garotti Jr. (amigo há mais de dez anos) e Camilo Carrara. Gravaram sete músicas. Depois, encontraram a vestimenta certa, como no caso de Capim, de Djavan, que é, sem dúvida, uma das mais bonitas faixas do disco.

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