Zezé Motta canta a saudade de Elisete Cardoso

Afinidade é uma palavra que pode decretar o sucesso de uma produção cultural. É uma coincidência de gostos ou de sentimentos. A afinidade entre as cantoras Zezé Motta e Elisete Cardoso (1920-1990) converge para o segundo caso. Ambas viveram grandes amores e desilusões. Ambas fizeram da música o melhor canal para extravasar os sentimentos. Essas e outras afinidades - mais uma pitada de acaso - foram fundamentais para a decisão de Zezé Motta de gravar o CD Divina Saudade, uma homenagem à maior "cantadeira do amor" da música brasileira.O disco, com 16 faixas, tem lançamento previsto para setembro, pela gravadora Albatroz, de Roberto Menescal. Depois, Zezé começa turnê pelo Norte do País, passando por Manaus, Belém e São Luís do Maranhão. Em novembro, chega a São Paulo e Rio.De forma indireta, foi o escritor e jornalista Sérgio Cabral o responsável pelo tributo de Zezé. Há cerca de um ano, ela leu a biografia de Elisete escrita por Cabral e descobriu os traços em comum com a Divina. "Fiquei impressionada com detalhes da vida dela que coincidem com coisas que vivi", diz Zezé. Mas só há poucos meses surgiu a idéia do disco, graças à intervenção do acaso. Enquanto participava de sua última novela, Esplendor, da TV Globo, pensava em qual seria seu próximo projeto. "Um dia, acordei, passei pela estante e o dei de cara com o livro; foi uma uma coisa mágica", lembra a cantora. "Nessa hora, eu pensei: por que não a Elisete?"Uma das primeira atitudes de Zezé foi ligar para Paulo César Valdez, filho e único herdeiro de Elisete, que, em abril, impediu a realização de uma série de shows no Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio, em homenagem à sua mãe, alegando não ter autorizado a utilização da sua imagem. "Ele me deu seu ´axé´ e disse que ela gostaria muito de ser homenageada por mim porque também era minha fã", conta Zezé.À medida que começou a vasculhar o universo musical de Elisete, Zezé fez emergir uma série de lembranças e novas afinidades com a Divina. O primeiro encontro entre as duas, por exemplo. "Foi num espetáculo em homenagem a Erivelto Martins, no Rio, reunindo quatro ou cinco cantores, entre eles Peri Ribeiro, eu e Elisete; na época achei um enorme privilégio participar de um show ao lado dela", lembra Zezé, que se impressionou com a simplicidade de Elisete. "Conversamos muito rápido, mas parecia que nos conhecíamos havia anos; ela até me falou sobre seu momento afetivo."Recentemente, Zezé comentou sobre esse encontro com sua mãe, que a lembrou de uma coincidência curiosa: ela e Elisete freqüentavam o mesmo salão de beleza, no Rio. Muitas vezes Zezé, então uma adolescente de 12 anos, esbarrou com a já famosa cantora no local. "Só sabia que era uma pessoa importante", diverte-se.Mais coincidências - As coincidências que acabam de unir as duas cancerianas (mais uma) não param nos encontros. Ambas foram crooners, Elisete no Rio e Zezé em São Paulo. "Cantei no Telecoteco e no Balacobaco por quatro anos, até desistir porque achava que ninguém me descobriria", conta ela. "Há outras semelhanças, como os olhos fechados quando sorrimos, a meiguice e a simplicidade, coisa da qual me orgulho sem modéstia, pois não consigo ter essa atitude de diva; não tenho nada contra a vaidade, mas sou uma operária da minha profissão."Zezé considera essa simplicidade uma conseqüência da maturidade. Quando despontou para o estrelato, na década de 70, com o filme Xica da Silva, "era extravagante, usava roupas com cores chamativas". "Hoje é o contrário, deve ser coisa da idade, pois só uso cinza, cáqui", brinca a cantora.E foi a maturidade que trouxe a confiança necessária para interpretar canções que se tornaram eternas na voz de Elisete Cardoso. O responsável pelo "perfil" de Divina Saudade foi Roberto Menescal, que selecionou o repertório a partir de aproximadamente 300 músicas. O critério de escolha das faixas foi perpassar épocas e nomes fundamentais da música brasileira, de Pixinguinha, Noel e Haroldo Barbosa, passando por Baden Powell, Tom e Vinícius de Morais (Chega de Saudade).Aliás, a canção-chave da bossa nova quase foi excluída do repertório não fosse a lembrança de Menescal. "Ele disse que era uma música obrigatória, já que foi o primeiro sucesso de Vinícius e Tom na voz de Elisete", conta Zezé. "Mas foi um sofrimento ter de escolher 16 músicas num universo de quase 300."O repertório de Divina Saudade é composto ainda por pérolas como Tudo É Magnífico (Haroldo Barbosa/ Luiz Reis), Prece (Vadico/ Mariano Pinto), Nossos Momentos (Haroldo Barbosa/ Luiz Reis), A Noite do Meu Bem (Dolores Duran), Feitio de Oração (Noel Rosa/ Vadico), Consolação (Baden Powell/ Vinícius de Morais), Tem Dó (Baden Powell/ Vinícius de Morais), Tristeza (Haroldo Lobo/ Niltinho), Amor e a Rosa (Pernambuco/ Antônio Maria), Noites Cariocas (Jacó do Bandolim/ Hermínio Belo de Carvalho), Lamento (Pixinguinha/ Vinícius de Morais), Barracão (Luiz Antônio/ Teixeira), Samba Triste (Baden Powell/ Billy Blanco), Molambo (Jayme Florence/ Augusto Mesquita) e Estrada Branca (Tom Jobim/ Vinícius de Morais).Para Zezé, há uma frase de Elisete que traduz perfeitamente tanto a sua vida como a da Divina: "Amei demais." "A vida afetiva de Elisete foi tumultuada como a minha", diz a cantora.Divas - Depois do lançamento do CD, Zezé parte em turnê com o show. Aliás, ela conta que a concepção cenográfica é, de certa forma, uma homenagem às divas negras do jazz, que exerceram forte influência em Elisete. "Na pesquisa que fiz sobre a sua vida, percebi que ela usava muitas roupas de pele, brilho, óculos escuros enormes; as décadas de 40 e 50 no Brasil foram muito influenciadas por esse visual excêntrico, glamouroso", conta Zezé. "Elisete era muito chique; pelo seu visual, notei que ela se inspirava em divas como Ella (Fitzgerald) e Billie (Holiday)."O show, que estréia no próximo mês em Manaus, terá como diretor de cena Charles Möller, que já trabalhou com Zezé no espetáculo Chiquinha Gonzaga. A cantora diz que assistiu ao espetáculo Cole Porter, atualmente em cartaz no Rio e com cenografia de Möller, e ficou deslumbrada com o visual do musical. "Na hora, pensei que tinha de ser ele o diretor de cena do meu show", lembra Zezé. Para compensar a frustração de ter deixado de fora do CD músicas que sonhava cantar, Zezé vai acrescentar seis canções no show.A homenagem de Zezé a Elisete não é a primeira que a cantora faz a alguém que admira. Há dois anos, ela subiu aos palcos no espetáculo Invisíveis Cores, só com músicas de Luiz Melodia. No início da década, Caetano Veloso foi o homenageado, em show que ficou quatro anos e meio em cartaz.Depois da correria de gravações do disco e turnê, Zezé se prepara para integrar o elenco da próxima novela das oito, com título provisório de Mistérios do Mar, escrita por Agnaldo Silva. "Vou interpretar uma mãe-de-santo moderna, pouco convencional, nada a ver com aquelas baianas com vestido branco", antecipa Zezé, que já começa a gravar a novela no fim do ano.

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