Zélia se multiplica em "Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band"

Com 15 anos de carreira discográfica, somados a outros tantos de profissão, Zélia Duncan atingiu um patamar artístico em que pode tocar em tudo. Seu novo CD, Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band (Universal) bate de frente contra os modismos que ironiza na retumbante faixa-título, parceria com Lenine que abre o álbum, e expande a diversidade de Sortimento (2001). Pré-Pós foi co-produzido por Christian Oyens e Beto Villares, além de Bia Paes Leme, com quem Zélia dividiu a função no álbum Timoneiro, em comemoração aos 70 anos de Hermínio Bello de Carvalho. A idéia do título pode parecer que ela atira para todos os lados para ver aonde acerta. A questão é que de qualquer maneira ela acerta em vários detalhes. Não sem provocar um certo estranhamento. O próprio Oyens, guitarrista, um de seus parceiros mais constantes e co-autor de duas faixas do disco, achou a escolha da cantora uma maluquice. "Zélia chegou com um repertório sem pé nem cabeça. Não há dúvida de que o que fez este repertório funcionar foi a sua coragem artística, sua voz potente e sua marca como letrista", observou ele. O CD tem mais de 55 minutos de duração, 16 faixas. Apesar dessa premissa, as letras são menos centradas em questões pessoais e amorosas e abrem para maior abrangência de temas. Grande parte de sua força se concentra na reunião de mais quatro canções de Itamar Assumpção (1949-2003): duas inéditas, Vi, não Vivi (com música de Oyens) e Tudo ou Nada (com letra de Alice Ruiz), e regravações de duas obras-primas, Milágrimas (também letrada por Alice) e Dor Elegante (sobre poema de Paulo Leminski). "Com Milágrimas, Tudo ou Nada é para mim o grande petardo do disco. Que letra!" Segundo Alice, essa música é o pacto da parceria deles. Fiquei honradíssima por ela ter me dado. Como se sabe, o "namoro" de Zélia com Itamar vem de longa data. Quando ainda tentava se estabelecer, seu sonho era ser uma das Orquídeas que acompanhavam o músico paulista. Dos intérpretes que têm alcance nacional, Zélia é quem mais se empenha na manutenção de seu legado. Abriu três de seus sete discos com músicas dele e o colocou no meio de outros dois. Além disso, assumiu seu lugar, com toda propriedade, ao lado do percussionista Naná Vasconcelos, nos recentes shows de lançamento do miniálbum Isso Vai Dar Repercussão. "Assim como Itamar era o meu abre-alas, agora é minha espinha, me ajuda a levar o barco adiante, porque me fortalece. A dedicação de Zélia se estende ao apoio a duas parceiras de Itamar, Alzira Espíndola e Alice Ruiz, que acabam de lançar o CD Paralelas pelo selo Duncan Discos. Itamar também aproximou Zélia de Naná, um dos vários músicos de ponta que participam de Pré-Pós. Entre outros, estão também o pianista Cristóvão Bastos, o saxofonista Léo Gandelman, o tecladista Beto Villares, a harpista Cristina Braga, o baixista Paulo Lepetit, o violinista Nicolas Krassik. Nenhuma faixa tem a mesma formação instrumental e o disco - com ótimos arranjos - alterna cadências de bossa, balada pop, choro, samba, reggae e outras mais. Roberto Frejat, do "Barão Vermelho", faz dueto com ela em Mãos Atadas, blues de Simone Saback, a única faixa não assinada por Zélia, além das quatro de Itamar. Ela se desmembra em dobradinhas com Lenine, Pedro Luís, Moska, Mart´nália, Beto Villares, Lulu Santos, os mais freqüentes Chistiaan Oyens e Lucina, além da surpreendente parceria póstuma com o maestro Guerra Peixe, num tocante choro-canção de 1945, Diz nos Meus Olhos (Inclemência), que virou tema de um dos personagens da novela Alma Gêmea. Uma vinheta (Sulista Nordestinizado) com texto didático sobre Guerra Peixe, escrito e falado por Beto Villares, divide o disco em duas partes. "O que o texto diz não é tão relevante, o que importa é ter conseguido levar Guerra Peixe para a televisão, numa trilha de novela", pondera Zélia."Quando vim para o Pré-Pós, não quis abrir mão das experiências que tive. Ter vários parceiros foi uma determinação minha. Então, mandar letras para pessoas diferentes vai mudando o rumo da história também." Carne e Osso (uma das duas parcerias com Moska) foi feita há dois anos e tem a ver com o que ela queria do disco, algo mais orgânico. Quisera Eu (com Lulu) é um curioso "samba de gringo" de dois não sambistas. Redentor (com Villares) remete ao Jobim de Corcovado, claro. Braços Cruzados (com Pedro Luís) é flagrante da violência. Dor Elegante e Milágrimas doem de tão lindas. Aos 40 anos, clonada aos montes, Zélia vive um momento de intensa atividade. A imagem que a cantora faz dela mesma é de alguém que desorganizadamente lança sementes. Talvez para nutrição própria, mas também de quem se dispuser a regar junto. Só que ela pisa com segurança num terreno conquistado com talento e inteligência e tanto amadureceu como compositora e intérprete neste Pré-Pós. Curiosamente, surpreende ao afirmar: "Meu sonho é me aposentar", sem que isso represente displicência ou preguiça. No dia 5 de agosto ela desembarca em São Paulo para o show de lançamento do novo CD, que já estreou no interior do Rio. Entre seus próximos projetos estão o lançamento de Eu me Transformo em Outras em DVD, que vem com mais uma idéia singular. O show foi gravado sem público por questões operacionais, numa madrugada, no Centro Cultural Carioca. Vai sair até o fim do ano pelo selo Duncan Discos, bem como o CD de Lucina, do qual Zélia diz que não vai participar. "Não é condição de que eu cante para ter o disco lançado", brinca ela. "Só precisa ter a ver comigo."

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