Roberto Setton
Roberto Setton

Zélia Duncan se apresenta em São Paulo cantando samba

A cantora está em turnê com o repertório do seu último disco 'Antes do Mundo Acabar' e termina um projeto com o violoncelista e maestro, Jaques Morelenbaum interpretando músicas de Milton Nascimento

Amilton Pinheiro, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2017 | 17h47

A cantora Zélia Duncan, 52, está em turnê há quase dois anos divulgando o seu último álbum de estúdio Antes do Mundo Acabar, dedicado a uma de suas paixões e gênero que gosta de cantar, o samba. “Amo esse show, esse disco, esses músicos que reuni. As apresentações são sempre intensas, alegres e nisso a gente se agarra para continuar”, falou a cantora com exclusividade ao Estado por e-mail.

Além dos compromissos com os shows, a cantora está terminando um projeto com o violoncelista, maestro, compositor e produtor Jaques Morelenbaum. “É um projeto com voz e cello, cantando Milton Nascimento”, revela. 

Sobre entrar novamente em estúdio para gravar um novo álbum, ela diz que só no ano que vem. “Meu (disco) mais recente ainda dá muito samba!”, explica a cantora.

São 35 anos de carreira, dez álbuns de estúdio, DVDs, discos ao vivo, participações e projetos híbridos, como o que realizou em 2011, no espetáculo Tô Tatiando, cantando músicas de Luiz Tatit e onde testou seu lado atriz (Duncan fez curso de teatro na Casa das Artes de Laranjeiras no Rio). “O trabalho de atriz é Tô Tatiando, se outros vierem e eu achar que posso e devo, seguirei o chamado. Gosto de desafios, cresço com eles”, desconversa.

A artista que nasceu em Niterói e morou em Brasília, onde começou sua carreira, em 1981, fala que vive uma fase muito tranquila em relação à profissão, mas se sente constrangida e desacreditada com o que vem acontecendo na política brasileira. 

“(Michel) Temer pra mim é golpe. Dilma foi eleita. Com seus muitos erros e possíveis acertos, era legítima e o que vivemos hoje é um desgoverno ladeira ainda mais abaixo. Sinto constrangimento. Vejo um ladrão indicar o outro ladrão e as pessoas passivas, como se a única missão fosse tirar a presidente daquele jeito infame. Não acredito no que acreditava.”

Se a política não enseja confiança, ela acredita no feminismo “porque é humano e urgente”, na arte “como liberdade sempre”, na luta contra o racismo e a homofobia, nos esportes “para melhorar a saúde, a autoestima e o desenvolvimento” e na educação “para melhorar a vida das crianças”.

Zélia aproveita a folia do carnaval para mostrar mais uma vez em São Paulo seu show Antes do Mundo Acabar, no Sesc Pinheiros, a partir desta sexta, 24, e sábado, 25, às 21h, e no domingo, 26, às 18h, acompanhada pelos músicos Webster Santos, Pedro Franco e Domingos Teixeira, nas cordas, e por Thiago da Serrinha e Paulinho Dias, nas repercussões.

ENTREVISTA COM A CANTORA ZÉLIA DUNCAN

Você lançou o disco de samba Antes do Mundo Acabar, em 2015, e desde então, segue em turnê com ele. Até quando seguirá fazendo show em cima deste último trabalho? Qual o balanço que você faz do show e do disco, que recebeu três troféus da 27ª edição do Prêmio da Música Brasileira?

É um trabalho suado, vivemos um tempo onde ganhamos a internet, mas esse ganho nem sempre significa que as pessoas conhecem o que você está fazendo. Amo esse show, esse disco, esses músicos que reuni. As apresentações são sempre intensas, alegres e nisso a gente se agarra pra continuar.

O que levou você a mandar uma fita cassete, aos 16 anos, para o concurso Sala Funarte de Brasília, em 1981? Tinha certeza da carreira de cantora que iria abraçar logo em seguida?

Com 16 anos? Eu tinha um sonho de cantar… Certezas, nem hoje, aos 52. Só posso afirmar que faço o que amo fazer. Neste aspecto, deu tudo certo, o aspecto do ofício.

Sua ida aos Emirados Árabes, no final de 1991, foi essencial para você ter contato com a música oriental e com artistas que iriam influenciar sua carreira, como Peter Gabriel. Que mundo se abriu para você naquele momento. Você seria outra artista musicalmente caso não tivesse feito esta viagem?

Certamente… todo dia a gente escolhe e muda nosso destino. Eu teria outros olhares, mas seria eu, com meu sonho de cantar e ser feliz a partir disso. Não mudaria esse desejo imenso de música.

Você fez curso de teatro na Casa das Artes das Laranjeiras (CAL), no Rio de Janeiro. Certamente ele ajudou na sua incursão no espetáculo Tô Tatiando, que você fez em 2011, quando completou 30 anos de carreira, homenageando músicas de Luiz Tatit. Como você lida com a representação no palco? Você disse que não descartaria a possibilidade de um dia fazer um trabalho como atriz. Não surgiu nenhum convite irrecusável?

O trabalho de atriz é (o espetáculo) Tô Tatiando, se outros vierem e eu achar que posso e devo, seguirei o chamado. Gosto de desafios, cresço com eles.

Seu primeiro trabalho Outra Luz, lançado em 1990, segundo suas declarações, não ficou muito sua cara. O que aconteceu? Por que demorou quase dez anos para gravar um disco? Qual o balanço que você faz dos seus 35 anos de carreira?

Fui e sou crítica com tudo que faço. Aquele disco foi importante e, se demorei, é porque essa era minha história mesmo. Aquele álbum foi o único que tinha menos de mim, não fui ouvida como deveria e ficou mais ralo, embora me orgulhe de várias coisas ali, como a estreia de Christiaan Oyens como meu parceiro. Balanço da minha carreira? Balança mais não cai! Meu lance é ir fazendo. Balanço eu deixo pro futuro, se alguém se habilitar e meu caminho merecer. No momento, estou em plena função!

Um dos seus projetos mais arriscados foi ter participado do retorno de Os Mutantes ao vivo em 2006. Um pouco mais de um ano, você sairia da banda. O que aconteceu? Você disse na época que Rita Lee, sua amiga, abençoou sua entrada na banda. Mas quem leu a autobiografia que ela escreveu ficou sabendo que Rita guardou muitas mágoas de Arnaldo Baptista e de Sérgio Dias. Rita Lee não fez nenhuma restrição em relação a eles?

Eu fiz tudo tranquilamente, às claras e com muita honra de estar perto um pouquinho. Nada ficou pendente, durou pra mim o que tinha que durar. Eu era apenas uma cúmplice e testemunha ao mesmo tempo daquela volta, que foi linda, entrou pra minha vida como um presente. Os meninos mereciam muito aqueles momentos de reconhecimento que eu presenciei.

Tem planos de voltar aos estúdios para gravar? Algum disco a caminho?

Estou terminando um projeto com Jaques Morelenbaum, voz e cello, cantando Milton Nascimento. Autoral, só ano que vem, meu mais recente (álbum) ainda dá muito samba!

Você disse que a fama é um negócio sedutor. Como vem lidando com ela, nestes 35 anos de carreira? Ela chegou a atrapalhar sua criatividade artística?

Cada vez mais tranquila com esse assunto. Sem ilusões, "Tudo passa, tudo sempre passará…” O artista sempre tem a seu lado exatamente sua criatividade e ela precisa de alimento, faço isso sempre, cada um que dê seu jeito pra se manter honesto com sua expressão no mundo. Dá muito trabalho!

Qual a sua posição em relação ao que vem acontecendo na política brasileira, desde a saída da Dilma Rousseff e a entrada do governo de Michel Temer. Você acredita na política? O Brasil tem jeito?

Temer, pra mim, é golpe. Dilma foi eleita. Com seus muitos erros e possíveis acertos, era legítima e o que vivemos hoje é um desgoverno ladeira ainda mais abaixo. Sinto constrangimento. Vejo um ladrão indicar o outro e as pessoas passivas, como se a única missão fosse tirar a presidente daquele jeito infame. Mas se você me perguntar quem eu acharia indicado no lugar do golpe hoje, eu te diria que não faço a menor ideia, me sinto descrente, desesperançada. Não acredito no que acreditava, só me move pensar em vivermos melhor, com mais humanidade. Acredito no feminismo, porque é humano e urgente, acredito em lutar contra racismo e homofobia. Acredito na arte como liberdade sempre. Acredito no esporte como saúde, autoestima e desenvolvimento. Acredito em educarmos as crianças melhor e cuidarmos delas muito mais. Acredito em livros, acredito no amor. O resto pra mim é vazio.

O que acha da proibição de algumas manchinhas de carnaval? O que tem de bom e ruim no “politicamente correto”?

Acho que há algo anterior a isso, que é pararmos de achar graça em coisas que provocam sofrimento de um tipo de gente, raça, orientação, etc. Se "politicamente correto" significa mais consciência, acho muito bom. Claro que sempre tem o lado tolo, sem recheio. Proibir marchas, acho esquisito e improdutivo. Precisamos conversar sobre as coisas, estudar mais história, interpretação de texto, para podermos detectar melhor os significados. Precisamos rir juntos!

Você já fez um disco e um show em homenagem ao Itamar Assumpção. O que ele representou para sua carreira? Tem outro artista que você tem planos de fazer um disco só com músicas dele?

Fiz Tatit também e agora Milton nesse projeto que te falei. Itamar é fonte forte, uma força dentro de mim, que nem sei. Um amor imenso, uma admiração desmedida, um autor singular, uma revolução por canção.

Chico Buarque disse que passou anos sem cantar a música A Banda, não suportava, já Caetano Veloso adora interpretar Alegria, Alegria. Qual a sua relação com seu maior sucesso, Catedral ? Já cansou de cantá-la nos shows?

Não… sou grata à essa canção. A emoção das pessoas com ela me contagia até hoje genuinamente. Só me chatearia se eu só cantasse a mesma coisa sempre, mas esse risco eu não corro. Quem vai pra ouvir Catedral, passa por Itamar Assumpção, Tom Zé, Tatit e mais um monte de coisas.

Em 35 anos de carreira, você fez 10 álbuns de estúdio, além de DVDs, discos ao vivo e participações. Qual é seu ritmo de trabalho. Gostaria de ter feito mais trabalhos de estúdio?

Não… tenho feito o que quero. E espero mesmo é puxar o freio de mão. Música me renova, mas o que a envolve me cansa o corpo e a alma!

Você disse que tem duas cantoras que foram importantes para sua carreira, como influência, a Rita Lee e Maria Bethânia. Fale um pouco delas e de como se deu essa influência?

Eu disse? Tem muito mais! Elis Regina também. E Gal (Costa) e Simone e Elizeth Cardoso, Zizi Possi, Cida Moreira, Leny Andrade, Elza Soares e Sylvia Telles. Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Joni Mitchel, nossa, teríamos que fazer uma entrevista só sobre isso!

Você sempre foi reservada em relação a sua vida particular. Como faz para lidar com a curiosidade de fãs e da imprensa em relação a sua vida amorosa, por exemplo? Como lida com a solidão?

"Solidão… quem pode evitar?" Faz parte de nascer e morrer um dia. Criar nasce de estar sozinho. Gosto da maior parte da minha solidão. A que não gosto tem a ver com perda e tristeza, mas é inevitável. Minha vida pessoal não merece as páginas. É muito, muito comum.

Se tivesse que escolher entre a Bossa Nova, a Tropicália e o Clube da Esquina, o que escolheria e por quê?

Pra que escolher, se além desses três, ainda tenho o samba? Quero agregar, sempre, sou da geração dos anos 90, a década da mistura total, é assim que existimos e nos sentimos bem.

ZÉLIA DUNCAN

Sesc Pinheiros. Rua Paes Leme, 195; 3095-9400. 6ª e sáb., 21h, 

e dom., 18h. R$ 12 e R$ 40, 

disponíveis no site e na bilheteria

 

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