Zélia Duncan inicia celebrações de 40 anos de carreira com disco em homenagem a Alzira E

Zélia Duncan inicia celebrações de 40 anos de carreira com disco em homenagem a Alzira E

No álbum 'Minha Voz Fica', a cantora fecha trilogia em homenagem à cena paulistana e apresenta o virtuoso violonista Pedro Franco

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2021 | 16h45

Na obra – e no coração – de Zélia Duncan, há um espaço especial para os compositores da cena paulistana. Esse encantamento não vem de hoje. Vem de longe. Vem de décadas. Primeiro, foi Itamar Assumpção, um dos expoentes da Vanguarda Paulista, que ela canta desde 1985. Na mesma época, conheceu a música de Luiz Tatit. Na década de 1990, foi a vez de Alzira E, integrante da família de artistas Espíndola, da qual fazem parte também nomes como Tetê, sua irmã. Alzira é nascida em Mato Grosso do Sul, mas foi em São Paulo que se radicou e desenvolveu sua carreira. “Esses sons estão dentro de mim há muito tempo”, diz Zélia, ao Estadão, por Zoom. 

E a cada um deles, Zélia dedicou um projeto. Em 2012, lançou o disco Zélia Duncan Canta Itamar Assumpção – Tudo Esclarecido; no mesmo ano, estreou o emocionante espetáculo Totatiando, em homenagem a Tatit, que rendeu DVD em 2013; e inicia agora as comemorações de seus 40 anos de carreira com outro belo trabalho, o disco Minha Voz Fica, ao lado do violonista virtuoso Pedro Franco, com composições de Alzira E, que chega às plataformas digitais nesta sexta, 5, fechando, sem premeditar, uma trilogia. 

Antes, nesta quinta, 4, às 21h, será exibido o show gravado por Zélia e Pedro com repertório de Alzira. Com direção de Marcio Debellian, será uma apresentação única e gratuita em uma sala de Zoom e, no final, haverá uma conversa virtual com Zélia. Os ingressos podem ser obtidos pelo sympla bit.ly/minhavozfica. “É muito doido, porque a gente sempre trabalha em silêncio, horas e horas a fio, para que, na estreia, durante uma hora e meia, as pessoas vejam, e agora elas até veem, mas a gente não sente”, lamenta a cantora e compositora, de 56 anos, sobre a sensação de fazer a estreia de um show remotamente, por imposição da pandemia. “E, como o que os olhos não veem o coração não sente, às vezes, o cérebro tem de ficar mandando para o coração: ‘Olha, está cheio de gente lá, as pessoas estão gostando’. E você vai dando um outro jeito de levar adiante.” 

A conexão de Zélia com São Paulo, aliás, está mais estreita. Ela está de mudança do Rio para São Paulo. A pandemia fez com que ela e a namorada, a designer e artista plástica Flávia Pedras Soares, decidissem morar juntas na cidade, onde Flávia mora. “Não é fácil, tem minha mãe, meus irmãos, meus amigos, minha casa no Rio. Mas estou animada com a nova fase.” 

Primeiro single do disco Minha Voz Fica, a canção Beijos Longos (Alzira E, Jerry E e Arruda) está originalmente em um álbum de Alzira de 2010, o Pedindo a Palavra, mas ganha ressignificação em tempos de distanciamento social. Há nela poesia e melancolia. “Eu tenho saudade daqueles beijos longos”, canta Zélia Duncan, como num lamento, no refrão, acompanhada pelo violão delicado de Pedro Franco. “Estamos num tempo em que as músicas que dizem para nós coisas existenciais, quando você bota na boca, mudam de significado. Quando digo ‘tenho saudade daqueles beijos longos’, várias pessoas choram quando ouvem, porque é uma coisa tão literal. O beijo longo não é só o beijo que você dá no seu amor. Que saudade de dar um monte de beijo na minha mãe. Na verdade, é a saudade da vida da gente que mudou de repente, e nos privou de um monte de coisa.” 

Da mesma forma, outras músicas do álbum inevitavelmente podem ganhar novos sentidos sob o impacto dos dias atuais. Afinal, a obra de Alzira fala ao coração de seus ouvintes em qualquer momento, em qualquer geração. Minha Voz Fica reúne 12 faixas, sendo quatro delas inéditas: Solidão, de Alzira e Lucina (que é antiga parceira musical de Zélia); a feminista O Que Me Levanta A Saia, de Alzira e Alice Ruiz; Sonhei, dela e Arruda; e Fica, parceria de Alzira e Zélia, que assina a letra da canção – e é dela que saiu o título do disco. “Essa música já existia faz um tempo, de repente, ela cai como luva de novo”, afirma. “Nunca imaginei que ela viria à tona nos 40 anos (de carreira). Achei que ela ficou muito emocionante no disco.” A essa nova safra, juntam-se canções afetivas para Zélia que ganham releituras dela e de Pedro, como as ótimas Cheguei (Alzira E/Tiganá) e Ouvindo Lou Reed (Alzira E/Arruda). Zélia ‘reencontra’ Itamar Assumpção (1949-2003) nas parcerias dele e Alzira em O Que É Que Eu Fiz de Mal e Mesmo Que Mal Eu Diga

É um repertório que Zélia não só admira, como domina. Ela já havia gravado outras canções de Alzira em diferentes projetos, além de ter se envolvido em dois discos dela por meio de seu selo, o Duncan Disco: produziu Para Elas, de Alzira e Alice Ruiz, e lançou Alzira E e Arruda

Gravação ao vivo. Em Minha Voz Fica, os diálogos musicais entre Zélia e Alzira se consolidam, mas agora com a presença de um novo elemento que merece também todas as atenções: o violão do Pedro Franco. Gaúcho de 29 anos, Pedro é um grande talento apresentado por Zélia no disco e que divide o protagonismo com ela nessa comunhão de voz e violão. O modo de tocar de Pedro parece beber na fonte de Hamilton de Holanda e Yamandu Costa

“Ele tem um espírito muito improvisador, e eu sou muito aventureira, então eu acho gostoso esse tipo de perigo. Você sabe que o músico vai e que ele vai voltar para te buscar”, comenta Zélia. “Quando o improviso vem, você não sabe exatamente o que vai acontecer. E, no nosso caso, a gente não sabia nem exatamente onde voltava. Por exemplo, na apresentação que vai ser exibida no dia 4, o Pedro não tinha nenhuma cifra durante toda a gravação, nenhuma partitura. Ensaiamos, ele decorou as músicas na cabeça e ele ia fazendo. Alzira é uma compositora extremamente inventiva, os discos dela são lindos, os arranjos são muito legais. Eu que o apresentei para Alzira, assim como apresentei o Itamar.” No disco, Pedro acrescenta ainda sutilmente, em algumas faixas, bandolim, baixo e violino.

Para a cantora, a vontade de gravar um álbum com canções de Alzira E era antiga, assim como fazer algum trabalho com Pedro. O disco acabou sendo uma oportunidade de realizar os dois desejos de uma vez só. Minha Voz Fica faz parte do projeto Joia ao Vivo, criado por Marcio Debellian e DJ Zé Pedro, com patrocínio da Oi e apoio cultural do Oi Futuro. A gravação foi feita ao vivo, com Zélia e Pedro juntos, no estúdio Lab Oi Futuro. “Ou seja, 1, 2, 3 gravando, olho no olho, tirar a máscara só para cantar. Gravamos as 12 músicas em três dias.” 

A produção leva a assinatura de Ana Costa, com quem Zélia já havia dividido o protagonismo de outro disco, Eu Sou Mulher, Eu Sou Feliz (2019), em que as duas aparecem como compositoras. “Falo isso para todo mundo que é mais jovem do que eu: as melhores pessoas para estarem com você profissionalmente são as que gostam de você.” 

Zélia conta que o disco havia sido adiado. Achou até que não aconteceria mais. Mas, de repente, ficou sabendo que gravaria em novembro do ano passado. Na época, ela estava envolvida em outro álbum, também feito em dupla, com o músico pernambucano Juliano Holanda, com quem compôs intensamente durante a quarentena. No entanto, pela urgência com que o disco deveria ser feito, Minha Voz Fica acabou abrindo as celebrações por seus 40 anos de carreira. Autoral, o trabalho com Juliano está em fase de mixagem e deve ser lançado em junho. Estão previstos ainda os lançamentos do clipe em 3D de Medusa, do disco Tudo É Um, de 2019, e de um livro de sua autoria. “Não é ficção, não posso falar muito, tem a ver com música. É um sonho meu e estou prestes a realizar.” 

Por causa da pandemia, as comemorações não têm previsão de se estender para o palco – justamente o lugar que é o marco do início de sua carreira, em 1981. Zélia tinha 16 anos quando venceu um concurso na Sala Funarte, em Brasília. O prêmio era fazer um show. A ocasião até inspirou depois uma canção, Primeiro Susto. No dia da apresentação, Zélia lembra que ficou sozinha no camarim. 

“Eu tinha de dar a volta, no escuro, no breu total, e entrar no palco. Entrei, fiquei apavorada e saí, e o primeiro susto é esse, de sentir justamente o bafo da plateia. O que fez a diferença para mim foi a plateia e agora o que está fazendo a diferença para mim é a falta dela”, diz. “Mas gosto de pensar nas cadeiras cheias da vida, que bom que cantei naquele maio de 81, ganhei em primeiro lugar um concurso da Sala Funarte e o prêmio era fazer o show. Que bom que ganhei aquele prêmio tão jovem, e agora o prêmio que tenho é o de poder comemorar 40 anos de carreira me sentindo ainda com muito frescor, me sentindo em plena atividade. Acho que esse era o maior presente que eu poderia dar para mim mesma, e que posso dar para as pessoas que gostam de mim.”

Veja clipe de 'Beijos Longos'

 

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