Sérgio Castro/Estadão
Sérgio Castro/Estadão

Zélia Duncan declara amor ao samba em seu novo disco

'Antes do Mundo Acabar' reúne parcerias com Xande e Arlindo Cruz

Adriana Del Ré, O Estado de S. Paulo

18 Outubro 2015 | 04h00

Antes do mundo acabar, a cantora e compositora Zélia Duncan queria lançar seu próprio disco de sambas. Não que uma nova data para a extinção da humanidade esteja batendo à nossa porta, mas, após uma série de acontecimentos, Zélia sentiu uma espécie de urgência de contemplar, no que seria seu novo álbum de estúdio, esse gênero popular. Para entender esse desejo legítimo de Zélia, é importante ressaltar que estamos falando de uma artista cujo trabalho não se pode catalogar. Isso porque, da mesma maneira que ela mergulha a fundo na obra de Itamar Assumpção, faz pacto com o folk, se espraia pela MPB, vira devota de Luiz Tatit a ponto de se transformar em atriz por ele e por aí vai. Segue o que seu coração musical manda - e não os modismos.

Sempre que fala de sua memória musical afetiva, Zélia a relaciona ao que sua mãe ouvia em casa. E, entre a fina flor da MPB, lá estavam grandes expoentes do samba, como Martinho da Vila, Alcione e Beth Carvalho. “Minha mãe era louca pela Alcione. Alcione apareceria na TV, ela gritava, e fui ouvindo esse repertório inadequado para minha idade, porque eu era muito criança ouvindo aquilo”, conta a cantora, em entrevista ao Estado, em um hotel em São Paulo. 

Esse seu “se sentir à vontade” nesse universo, somado à sua aproximação com os sambistas - e a ‘cobrança’ deles por um disco desse - e ao convite de José Maurício Machline para roteirizar o Prêmio da Música Brasileira em homenagem ao gênero, em 2014, levou Zélia, então, a fazer de seu novo álbum Antes do Mundo Acabar o seu disco de sambas. A maioria das canções é autoral, feitas por ela com parceiros como Arlindo Cruz, Zeca Baleiro, Xande de Pilares, Bia Paes Leme, Ana Costa e Pedro Luís, além de uma música inédita, Por Água Abaixo, de Pretinho da Serrinha, Leandro Fab e Fred Camacho, e músicas menos conhecidas de artistas que admira, como Pintou um Bode, de Paulinho da Vila; Por Que Você Não Me Convida Agora?, de Riachão; Vida da Minha Vida, de Moacyr Luz e Sereno; e Em Cada Canto Uma Esperança, de Délcio Carvalho e Dona Ivone Lara, dupla essa que, graceja Zélia, é “Lennon e McCartney do samba”. 

A princípio, seria um disco de regravações, que traria o mesmo apuro na escolha do repertório dentre uma longa lista de cerca de 30 canções. No entanto, timidamente, a cantora começou a levar para a produtora do álbum, Bia Paes Leme, composições suas com parceiros e, encantada, Bia decretou que aquele seria um trabalho autoral. Respeitada arranjadora, compositora e professora, Bia Paes Leme já havia produzido outro disco da cantora, Eu Me Transformo em Outras (de 2004 e relançado este ano), e assina a direção musical do espetáculo Totatiando, com a mesma Zélia no palco, em cartaz no Teatro Porto Seguro, em São Paulo, ainda nos dias 20 e 27. 

Antes do Mundo Acabar se mostra um belo e elegante passeio pelo samba e suas várias vertentes. E já começa de forma contundente na faixa Destino Tem Razão, aberta com o tambor de macumba do percussionista Thiago da Serrinha batendo forte, seguido Marco Pereira, “com o violão que é meio uma chula”. As cordas de nylon de Pereira flui em harmonia com o violão de aço de Webster Santos. Eles integram a pequena escola de samba que conduz com maestria a sonoridade desse álbum e da qual ainda faz o bandolinista Luis Barcelos - e participações de Gabriel Grossi na gaita e Rogério Caetano no violão 7 cordas. Destino Tem Razão é uma das parcerias de Zélia com Xande de Pilares, que compartilham também Olha, O Dia Vem Aí e No Meu País - cuja letra avança para a crítica social (Se vai cuidar da criançada ou vai mandar prender), mas sem perder a esperança (Chuva de paz e amor, um dia eu vou ver). Os dois se conheceram por intermédio de Zé Maurício, que organizou uma reunião em sua casa. “A presença de Xande na minha vida foi meteórica. A gente não se conhecia pessoalmente. Eu e Ana Costa começamos a mostrar umas parcerias para ele. Naquele dia, quando saímos de lá, ele me mandou música pelo WhatsApp, aí coloquei a letra. Temos hoje sete músicas, ele sempre com melodia e eu com a letra.” 

Do veterano Arlindo Cruz, Zélia ganhou primeiro um refrão certeiro. “Arlindo me chamou para cantar com ele num show, e ele nem sabia que meu disco estava quase para acontecer”, conta ela. No dia seguinte, ele ligou para ela, falando: ‘Nosso amor dormiu, mas acordou/Dormiu, mas acordou/Dormiu, mas acordou feliz’. “Meses depois, ele mandou para mim. A música e esse verso são dele, o resto da letra é meu. Ralei para ele me entregar essa música.”

Como compositora, Zélia encarou o desafio de se adaptar à linguagem do samba. “Foi um pouco diferente para mim. Achei divertido, usei palavras que não uso normalmente: ‘Quando é dia de baixo astral, meu amor me faz bem’. Nunca usei essa expressão em música minha.” Com outros projetos na fila para este ano, a turnê do novo trabalho deve ficar para o começo de 2016. E ela brinca: “Antes do mundo acabar, ele estreia, espero (risos)”.

TRÊS REFERÊNCIAS EM SUA FORMAÇÃO

Martinho da Vila

"Ele é um cara muito político, ele fala muito da questão do negro no Brasil. É um clássico, um mestre como Tom Jobim, Chico, Caetano, tem uma grife imensa por trás dele"

 

Alcione

"Cantora sensacional, que voz, que mulher incrível, e ela teve a grande sorte de escolher um dos maiores clássicos que é Não Deixe o Samba Morrer"

 

Beth Carvalho

"Além de ser uma cantora incrível, parece que ela sempre está na hora certa, no lugar certo. Tem um faro, por isso virou a madrinha de todo mundo”

Catedral

Alma

Não Vá Ainda

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