Ivo Carvalho/Estadão
Ivo Carvalho/Estadão

Zé Manoel lança 'Canção e Silêncio', o 2º disco da carreira

Em novo álbum, compositor faz as pazes com o romantismo

Adriana Del Ré, O Estado de S. Paulo

27 Julho 2015 | 21h19

Água Doce tem a força da canção que cria uma atmosfera sensorial. Durante sua audição, parece saltar diante dos olhos o cenário árido do sertão nordestino. Ouve-se, então, o vento anunciando a desejada tempestade. E, finalmente, sente-se o cheiro da chuva caindo na terra seca. O piano de Zé Manoel, que também dá voz à música, faz a trilha contraditoriamente nostálgica e esperançosa dessa singela poesia cantada. É com essa faixa Água Doce, de sua autoria, que o cantor, compositor e pianista pernambucano Zé Manoel abre seu novo disco, o segundo da carreira, Canção e Silêncio, com patrocínio do Natura Musical. 

Dois produtores de universos distintos usam sua experiência a serviço do novo trabalho de Zé Manoel, de formação erudita: Carlos Eduardo Miranda e Kassin. O primeiro, gaúcho, é produtor de algumas das principais bandas nacionais de rock; o segundo, carioca, se envereda por diversas frentes, da música popular brasileira à eletrônica. “Quando pensei em convidar Miranda, foi exatamente porque eu queria que fosse fora do meu universo musical, para acrescentar algo novo. Ele tem muito esse papel, e o Kassin já é um cara que transita de um universo para o outro, que passa pela MPB e pela música mais ‘modernosasinha’. Ele veio para facilitar a junção desses dois universos tão distantes, é um cara muito ligado em sonoridade”, explica Zé Manoel. “Até me surpreendi com o resultado, porque achei que fosse dar em um outro lugar que eu não sabia qual era. E foi exatamente o caminho contrário que eles fizeram.”

É que, apesar da alquimia de estilos do trio, as características do trabalho de Zé Manoel não foram redirecionadas, mas, sim, reforçadas por Miranda e Kassin. “É engraçado, porque Miranda falava que queria muito fazer um disco clássico, e eu pensava na hora: ‘Pô, é para esse cara fazer uma coisa mais moderna e ele quer fazer uma coisa clássica’”, diverte-se o compositor. “Mas depois vi que o resultado foi muito acertado. E uma coisa importante que ele fez foi dosar: o disco ficou clássico, mas é pop também.”

Antes de Miranda entrar no projeto, Zé Manoel imaginava um disco mesclado, equilibrando algumas canções tristes com sambas mais efusivos. O produtor, no entanto, pediu para que ele assumisse o tom nostálgico do disco, já que boa parte de suas composições apontava para isso.

A princípio, o compositor admite que ficou receoso com esse rumo que o álbum tomava. “Eu tinha um medo mercadológico, sendo bem prático: ‘Pô, quem vai comprar um disco triste desse jeito’. É praticamente meu primeiro disco nacional. Mas, por outro lado, é um perfil muito meu e da minha personalidade. Acho que o artista em si tem essa coisa da melancolia”, diz. “Tenho outro lado que eu gosto muito, mas que posso explorar em outros discos, gosto também de chorinho, de samba, mas o momento desse disco era para ser assim mesmo.” Essa toada atravessa outras faixas, como A Maior Ambição e Na Noite em Que Eu Nasci

No disco, Zé Manoel faz ainda as “pazes” com as canções românticas, pelas quais, confessa ele, nutria certo preconceito. Com o tratamento especial dado, em sua execução, pelo renomado baterista Tutty Moreno e por Kassin no baixo, a canção-título ajudou o compositor a encarar a obra romântica sob um novo prisma. “Canção e Silêncio é a mais antiga do repertório, de 2004, 2005. Todas as outras são bem mais recentes. O Miranda me pediu para mandar músicas. Mandei essa achando que ele não ia escolher, mas ele escolheu”, conta. “Tenho um problema - que é puro preconceito - que é a coisa da canção romântica, dos rumos que ela tomou. Eu não queria ser mais um a bater nessa tecla.”

E se no primeiro disco, Zé Manoel, de 2012, ele direcionava seus pensamentos - e composições - para o Rio São Francisco, como uma forma de se reconfortar em suas memórias de infância, passada em Petrolina, neste segundo trabalho, Zé Manoel canta o mar e, portanto, já se sente incorporado ao dia a dia na cidade grande. “Vim para o Recife já adulto, estou aqui há 8 anos. No primeiro disco, eu estava chegando de Petrolina ao Recife. Era muita coisa do saudosismo. Eu ficava naquele universo, não queria entrar muito aqui”, lembra. “Nesse disco, já sou eu no Recife, já estou me aceitando aqui, começando a me encantar com a cidade, com o mar. Então, os dois discos são bem de momentos que eu estava vivendo.”

Nascido em Petrolina, Zé Manoel, hoje com 34 anos, chegou à capital pernambucana aos 27 anos. Na cidade natal, no interior do Estado, aprendeu a tocar piano clássico - e depois a compor no instrumento -, deu aulas e tocou na noite. Mas ele queria mais. Foi para o Recife estudar música, na Universidade Federal de Pernambuco. Com dificuldade para conseguir tocar na noite local, passou a se dedicar à própria obra. Com o dinheiro que juntou após passar uma temporada tocando piano em um navio, gravou o primeiro EP, que caiu nas mãos de um jornalista respeitado no Recife, que fez a primeira matéria sobre ele, em 2009, e o colocou no mapa musical recifense. Seis anos depois, Zé Manoel lança este segundo álbum, com o qual já fez show no Rio, se apresenta em São Paulo no dia 12 de setembro, e segue depois para Salvador e Recife.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.