Z´África mostra hip hop tupiniquim

O hip hop nacional não pára de avançar na busca de uma identidade brasileira. No recém-lançado Antigamente Quilombos Hoje Periferia, do grupo paulista Z´África Brasil, o gênero escapa da camisa de força norte-americana e ganha moldura tupiniquim, com berimbau, atabaque, pandeiro, sample do Hino Nacional e discurso engajado - que consegue reivindicar as necessidades da periferia sem cair na verborragia cansativa. Para lançar o primeiro disco, o grupo apresenta-se hoje no Infinity Club. Ao vivo, destaca-se o talento de Fernandinho, especialista em beatbox - habilidade vocal muito difundida nos primórdios da cultura hip hop que consiste na simulação com a boca dos sons das batidas e dos ruídos dos toca-discos. No disco, as estripulias vocais de Fernandinho aparecem discretamente na maioria das faixas e só surgem com o merecido destaque em O Dom Da Rima - na qual a letra reivindica o beatbox como quinto elemento da cultura hip hop, além do MC, do DJ, do break e do grafite. Apesar do compromisso com a busca de uma sonoridade brasileira, os integrantes do Z´África Brasil não perdem a coerência na conexão do rap com o reggae jamaicano e o drum n´bass eletrônico - que se faz presente, principalmente, em Origens, que tem a participação dos integrantes do grupo francês Assassins. "A gente mistura referências da Jamaica, onde nasceu o rap, com as batidas norte-americanas e elementos da música brasileira", explica Gaspar, contestando a difundida tese de que a origem do hip hop é exclusividade dos EUA. Ele refere-se aos estilos jamaicanos ragga e dub - que, de fato, foram os primeiros gêneros a trazer as figuras do MC e do DJ, respectivamente, à linha de frente dos arranjos sonoros. "Tudo vem da África, é uma grande árvore musical que difunde a cultura negra", prossegue o rapper em seu raciocínio. "Nos EUA, a harmonia se espalhou com o jazz. No Brasil, os negros esticaram os couros para construir os instrumentos de percussão. Na Jamaica, nasceu o reggae que, para mim, tem no baião o seu primo brasileiro - eu cresci ouvindo Luiz Gonzaga. Qualquer um desses ritmos é base para nossas rimas, se o compasso for 4 x 4 a gente encaixa os versos." Se Gaspar cresceu ouvindo Gonzagão, Funk Buia iniciou na música cantando samba no grupo Vício Nacional e Pitchô, na infância, freqüentava rituais de candomblé e rodas de capoeira. Aos três rappers somam-se as bases do DJ Meio Quilo e do beatboxer Fernandinho e a formação do Z´África está completa. "A gente teve a sorte de se encontrar para fazer hip hop", comemora Pitchô. "Acho que a bagagem de cada um contribui muito para a sonoridade que a gente encontrou." Z´África Brasil - Infinity Club. Rua Casa do Ator, 1169. Tel: 3045-0388. Consumação: R$ 20 (homem) e livre (para mulheres até a 1h). 23h.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.