Zabé da Loca lança álbum 'Bom Todo' no Sesc Pompéia, em SP

Aos 84 anos, a 'moleca' pernambucana diz que não vê a hora de desembarcar na cidade para o show

Livia Deodato, de O Estado de S. Paulo,

12 de março de 2008 | 19h58

Pergunte a Zabé o que ela achou de seu primeiro álbum. Em sua resposta, já vem a razão pelo título escolhido para figurar na capa: "É bom todo!" A pernambucana, que se dirigiu ainda menina à Paraíba e morou durante 25 anos dentro de uma gruta (ou loca, daí seu ‘sobrenome’), parece nunca ter arrefecido diante das dificuldades da vida. Tem um humor inigualável, adora uma cachacinha - "51 mesmo" -, não come se não tiver feijão na mistura e não tem muita paciência para ensinar a tocar o ‘pife’ que a consagrou, não. Que o diga Josivane Caiano da Silva, de 29 anos, que desde os 17 se dedica exclusivamente a Zabé.  Veja também:Ouça trecho de 'Sala de Reboco', de Zabé da Loca   "Eu já tentei aprender, mas ela briga muito comigo. Diz ‘menina, você tá colocando os dedos no buraco errado!’", gargalham ela e Zabé. "Por isso que eu só faço uma zoadinha, toco os pratos." Josivane cresceu ao lado da loca de Zabé, lá em Monteiro, sertão da Paraíba. O tratamento entre as duas sempre foi como mãe e filha. Há três anos, um dos filhos de sangue de Zabé morreu, e há dois, o de criação também, na mesma época que a mãe de Josivane. O terceiro filho de Zabé vive sem rumo pelas ruas de Monteiro. O grave problema dos três é o alcoolismo. "Zabé já sentiu muito a falta deles, mas hoje ela tá mais feliz", garante Josivane. Nem a gripe que a pegou de jeito no começo desta semana conseguiu derrubar essa ‘moleca’ de 84 anos, nascida exatamente 20 anos depois de Lia, no dia 12 de janeiro. No momento da entrevista, via celular, ela estava toda festeira do lado de fora de sua casa cimentada, construída há alguns anos bem pertinho da loca. "É bem difícil deixar tu de cama, né, Zabé?", quer confirmar Josivane e ela gargalha. A devota de Nossa Senhora Aparecida, São José e ‘Padinho Ciço’ não vê a hora de desembarcar em São Paulo para o lançamento do álbum, cheio de canções autorais. A princípio, dois shows estão marcados: dias 22 e 23 de março, também no Sesc Pompéia, assim como Lia de Itamaracá na quinta-feira, 13. Se sente medo de andar de avião? "Dá medo, não. Dá aquela ‘quenturinha’ que logo passa", e cai no riso de novo. Tanto Lia quanto Zabé receberam patrocínio da Petrobrás para a produção de seus respectivos álbuns. Enquanto Lia teve o suporte do produtor Beto Hees, Zabé contou com o apoio de Lu Araújo, responsável pela realização desse trabalho delicado e de muito bom gosto. "Conheci Zabé em 2003 por meio de um amigo em João Pessoa. Ele me presenteou com um disco que um grupo de artistas locais fez sobre ela, gravado ao vivo em uma festa na loca. Fiquei muito impressionada e de imediato idealizei uma série de shows pensando em juntar pessoas como Zabé, que com extraordinária capacidade artística estavam começando a carreira tardiamente", conta Lu, também idealizadora da Mostra Internacional de Música em Olinda (Mimo). Durante todos esses trabalhos realizados com a pernambucana nascida Isabel Marques da Silva, Lu foi desenhando aquele que seria o primeiro trabalho autoral da artista. Chamou o multiinstrumentista Carlos Malta para realizar a direção musical de Bom Todo e convidou para participações especiais os músicos Escurinho, que toca alfaia em Saí de Casa, e Maciel Salú (filho do famoso Mestre Salustiano), na rabeca em Pifada da Loca. No álbum de Zabé ainda tem o Hino Nacional, um remix com sua gargalhada produzido por Malta (É o Que Vier) e o clássico xote Sala de Reboco, de José Marcolino e Luiz Gonzaga, que começa com um solo de cantoria da ‘moleca’. "O que mais me encanta em Zabé é o fato da música ser para ela algo vital, parte da sua existência. Acho o máximo Zabé não ter a menor idéia de quem é Roberto Carlos, Caetano Veloso, Tom Jobim. Ela foi pautada culturalmente por outras fontes e é fruto dos artistas populares do interior do País, que tocam em feiras, ruas, novenas e mantêm vivas tradições que muitas pessoas no Brasil desconhecem", afirma Lu. Zabé da Loca. Teatro do Sesc Pompéia (344 lugs.). Rua Clélia, 93, tel. 3871-7700. Dia 22, 21 h; dia 23, 18 h. R$ 4 a R$ 16

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