Ben Kaban | Divulgação
Ben Kaban | Divulgação

Youth Lagoon faz viagem pessoal em novo disco para esquecer o luto

Projeto de Trevor Powers tem o terceiro disco, ‘Savage Hills Ballroom’, lançado no Brasil

Pedro Antunes , O Estado de S. Paulo

10 de dezembro de 2015 | 04h00

Em madrugadas daquelas intermináveis, um par de horas antes de o sol surgir no horizonte, a figura magrela de Trevor Powers, nome do criador do projeto Youth Lagoon, era visto perambulando pelas ruas da pequena Boise, no Estado norte-americano de Idaho. O músico, de 26 anos, figura das mais importantes de um movimento de dream pop, ora psicodélico, ora pés no chão, pegou gosto pela corrida noturna como uma forma de escapar do lugar imaginário criado por ele e que daria nome ao seu terceiro disco, o Savage Hills Ballroom, lançado no Brasil pelo selo independente LAB 344.

De alguma forma, as paredes desse “ballroom” (ou “salão de baile”, numa tradução literal) foram erguidas por Trevor ao longo dos dois anos da feitura do álbum. Ali, ele escapava de algumas dores que sentia, como o luto pela morte de um amigo muito próximo. Ele estava em turnê com o segundo e elogiado álbum, Wondrous Bughouse, de 2013, quando recebeu uma ligação vinda de Boise. Em meados daquele ano, o rapaz com quem Trevor tinha uma forte relação de amizade se afogou no rio que leva o nome da cidade. O músico cancelou apresentações, interrompeu a turnê e voltou para casa. 

Embora tenha encarado alguns shows depois do ocorrido, a cabeça de Trevor já não estava no disco Wondrous Bughouse. Talvez estivesse buscando o tal fictício Savage Hills Ballroom. De 2013 a 2015, o músico trabalhou nas canções desse novo disco. O tempo, dois anos, correu mais rápido do que o relógio mostrava, ele conta. 

“Para mim, tudo pareceu acontecer muito depressa. Cheguei a este disco de uma forma diferente dos outros”, conta Trevor, ao telefone, em um intervalo dos novos shows. “Comecei a escrever essas canções, uma por uma. Aos poucos, percebi que elas eram parecidas. Havia algo que as conectava. Tinham ideias em comum. Depois dos primeiros meses, percebi que tinha alguma coisa, que é esse disco que agora está lançado.” 

O nome do álbum, Savage Hills Ballroom, pode parecer um lugar que existe no mundo real, mas nem adianta procurar: o único resultado que o Google exibe é o disco de Youth Lagoon. “Esse lugar eu criei, mesmo. É algo que esteve dentro da minha cabeça ao longo desse tempo, um lugar especial”, tenta explicar. “A ideia de imaginar como a humanidade tenta se mostrar perfeita, sem falhas e erros. Ver as pessoas tentarem disfarçar seus erros, em vez de se mostrarem abertas, translúcidas, sabe? De algum jeito, a ideia desse grande salão não parava de vir à minha mente.” 

Trevor conta que mal conseguia comer e beber, dedicado ao papel. Sua mulher tentava forçá-lo a se alimentar. “Fiquei obsessivo com essas ideias, mesmo”, ele conta. “Ficava ali, no meu jardim, pensando.” 

O luto pela morte do amigo não é entregue logo de primeira no disco de Trevor. Tudo acontece de forma sutil, como a voz dele ao microfone, imperfeita, porém imensamente humana. Uma jornada musical que, preferivelmente, deve ser acompanhada do início ao fim. Savage Hills Ballroom é um álbum curto, 10 faixas e 36 minutos de duração – a duração ideal messes tempos. 

Officer Telephone é o início dessa jornada obsessiva. E, nela, Trevor já traduz o motivo que o fez voltar para a casa de maneira sonora. A balada leve segue um caminho com a voz dele solitária, com poucos instrumentos ao seu redor. Nos 30 últimos segundos, contudo, o ruído tira até o ouvinte do sério. Do dream pop, caímos dentro de um liquidificador de dupstep. “Isso é proposital”, ele conta. “É como você ter uma última conversa com alguém, sem saber que é a última. De repente, a pessoa não está mais lá.” Única forma de sair do inquietante Ballroom, durante aquele período, conta Trevor, era correr cidade afora. “Estava lidando com muitas coisas pesadas naquela época.” 

Tudo o que sabemos sobre:
Música

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.