FRANK STEWART
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Wynton Marsalis, atração em festival de jazz de SP, faz encontro inédito no Recife

Trompetista toca na capital paulista nos dias 28 e 29 de março, e em Pernambuco no dia 1.º de abril

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

06 Março 2015 | 03h00

Wynton Marsalis ouviu a explosão criativa de doutor Spok como se fosse obra de outro mundo. Até porque de Brasil ele conhecia bastante, samba, bossa nova, mas nada que chegasse perto daquela divisão rítmica compulsiva, daqueles metais dividindo solos como faz o jazz, daquela força da natureza dos trópicos liderada por um homem chamado Spok. Assim que o concerto acabou, lá foi Wynton, 53 anos, natural de New Orleans, defensor das tradições do gênero e membro mais visível do clã Marsalis, tomar aula com o trompetista pernambucano. “Frevo?”, tentava pronunciar. “Pernambuco?”

Agora é a volta. Marsalis, conforme combinou com a Spokfrevo Orquestra depois de levitar na plateia ao vê-la no Festival de Jazz de Marciac, na França, receberia os recifenses primeiro na programação de seu Jazz at Lincoln Center, em Nova York – algo que ocorreu em outubro passado. Depois, viria ao Brasil para se apresentar no Recife – algo que vai acontecer em 1.º de abril, no Teatro Luiz Mendonça, Parque Dona Lindu, Boa Viagem. A Jazz at Lincoln Center Orchestra de Marsalis e a Spokfrevo Orquestra, de Spok, farão cada um seus concertos separados. Apesar de não terem previsto um encontro formal, o clima entre o jazz e o frevo vai cuidar do resto.

Antes de cumprir sua palavra em Pernambuco, Marsalis vem a São Paulo como a atração principal do braziljazzfest, o mesmo encontro criado em 1985 pelas irmãs Monique e Sylvia Gardenberg que já se chamou Free Jazz Festival, TIM Festival e BMW Jazz Festival. O trompetista se apresenta sábado, 28 de março, às 22h, na Sala São Paulo, e domingo, dia 29, duas vezes: pela manhã, às 11h, na parte externa do Auditório Ibirapuera (gratuito), e à noite, a partir das 20h, novamente na Sala São Paulo.

A experiência que sentiu ao ouvir o frevo instrumental da big band de Spok na França sensibilizou o músico para uma das poucas manifestações da música brasileira que ele ainda não conhecia. “Eles têm um improviso impressionante, a forma como usam os metais é muito semelhante ao jazz”, fala ao Estado por telefone, de Porto Rico, onde passava com sua turnê na quarta-feira. Mesmo sem conhecer o Recife, diz ter ficado comovido com a forma como o grupo capturou a atmosfera de sua região e a transporta para o mundo. “Acredito que pode ser até uma ramificação do jazz”, disse, sobre as semelhanças entre gêneros.

Marsalis não parece gostar do selo que colaram a ele ainda nos anos 1980, quando associaram sua imagem à de um defensor do jazz tradicional com restrições a modernizações da linguagem. Mesmo que suas atenções mirem de fato a essência histórica do gênero e tenha apego às tradições formais de sua New Orleans natal, música, para ele, é uma questão de escolha. “E é só uma escolha. Temos só nos Estados Unidos uma riqueza de ritmos por regiões à qual eu não poderia virar as costas, mas são as minhas escolhas.”

Ele é sensível ao tema da formação de músicos, trabalho ao qual é atento desde o fim da década de 1980, quando se ligou aos projetos do Lincoln Center. Sobre o fato de o Brasil ter uma população de instrumentistas talentosos e consagrados que passaram longe dos formalismos acadêmicos, milagres das ruas como Hermeto Pascoal, Raul de Souza e Sivuca, ele responde: “As ruas têm professores incríveis. E esses músicos, quando começam, passam por um treinamento que é tocar em conjunto. Isso é um treinamento fantástico. E é exatamente também o que acontece em New Orleans. Só a linguagem da academia não forma talentos”.

E a culpa de um concerto entediante, seria de quem? Do jazz experimental, tocado por músicos que entram em seu próprio mundo quando fazem solos de bateria de 12 minutos de duração, ou da plateia, que teoricamente não estaria preparada para degustar de seus “biscoitos finos”? Marsalis sorri. “Acho que os músicos podem ter parte de culpa, já que as plateias pagaram para vê-los. Mas eu sempre acreditei que se deve investir na educação das audiências, na formação de plateias para o jazz.”

A pergunta agora é, se depois de descobrir o frevo dos pernambucanos, Marsalis estaria pronto para o baião de Luiz Gonzaga (por sinal, outro pernambucano). Ele repete o termo “baião” como pode e mostra um surpreendente conhecimento do gênero. Simula o ritmo de uma zabumba com a voz por um tempo e faz um paralelo com a levada das brass bands, as big bands de metais criadas nas ruas de New Orleans. O improviso dura um tempo considerável e dá a sensação de que ele está quase compondo um novo tema. Ao menos nos lábios de Wynton Marsalis, baião, frevo e jazz são filhos da mesma mãe. 

BRAZILJAZZFEST

Auditório Ibirapuera

Dia 27 de março, 21h

André Mehmari Trio

Tord Gustavsen Trio

Dia 28 de março, 21h

Miguel Zenón Quartet

The Cookers

Dia 29 de março, 11h

Wynton Marsalis e Jazz at Lincoln Center Orchestra (Evento especial de 30 anos)

Sala São Paulo

Dia 28 de março, 22h / 29, às 20h

Wynton Marsalis e Jazz at Lincoln Center Orchestra (gratuito) 

Músico americano vai tocar pelas ruas do Recife antigo

Marsalis não sabe o que lhe espera no Recife. Além da apresentação no Teatro Luiz Mendonça, vai perambular com seus músicos pelas ruas do Bairro Antigo da capital e de Olinda como se fosse um legítimo integrante de uma fanfarra de frevo. E o pedido foi do próprio, viabilizado por Spok, mestre da Spokfrevo Orquestra. “Vamos levá-lo para tocar pelas ruas, como fazemos no carnaval daqui”, diz. O encontro deve acontecer entre a tarde do dia 31 de março e 1.º de abril. “Mas é mais provável fazermos em 31, já que o concerto será no dia 1.º.” 

Spok diz também que todos os passos do trompetista estão sendo filmados para a montagem do documentário Do Frevo ao Jazz, que começa com a ida dos músicos pernambucanos aos Estados Unidos (eles fizeram quatro apresentações no Lincoln Center em outubro de 2014, a convite de Marsalis) e termina com a vinda do jazz do músico de New Orleans ao Brasil. “É a realização de mais um sonho”, afirma o músico brasileiro.

As semelhanças entre jazz e música pernambucana levantadas pelo trompetista norte-americano não são descabidas, segundo a bagagem de Spok. “A história do frevo tem muito a ver com a do jazz. São ritmos que começam nas ruas. Já vi fotos de pessoas ouvindo jazz com sombrinhas nas mãos, como fazemos no Recife.”

O frevo bebe nas águas do jazz mais visivelmente depois da 2ª Guerra Mundial, quando as formações de rua são criadas com influências das big bands de arranjadores como Glenn Miller, conforme cita Spok. “Musicalmente, o frevo tem reflexos desses dobrados. Mas é uma influência que se dá mais na formação das orquestras. As melodias e harmonias são diferentes e as orquestrações, as formas como distribuímos os arranjos nos trompetes é nossa. E o ritmo é único. Aliás, o frevo é possivelmente o único gênero de música brasileira que nasce de uma orquestra.” E o único que levou Wynton Marsalis para as ruas.

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