Workshop reúne compositora brasileira e soprano alemã

Elas têm em comum a dedicação à músicacontemporânea. Ao longo da segunda metade do século 20,trabalharam com Stravinski, Messiaen, Stockhausen, Luciano Berio, Luigi Nonno. Estrearam obras, levaram outras a países onde eramdesconhecidas. Não se conheciam até alguns dias atrás, mas,talvez o destino - ou as trajetórias baseadas em princípiosmusicais bem definidos - fez com que a compositora brasileiraJocy de Oliveira e a soprano alemã Sigune Von Osten seencontrassem esta semana, no Rio, onde vão ministrar workshopssobre a música do século 20, na Academia Brasileira de Música.Este primeiro encontro estava previsto para alguns mesesatrás, quando Sigune estreou na Alemanha a nova peça de Jocy,Medea Ballade. Mas a compositora não pôde viajar. Recebeu,então, uma gravação da performance. Pouco tempo depois, marcavamo encontro, no Brasil. "É como se nos conhecêssemos há anos.Quando peguei a partitura da Jocy, senti que aquela música seencaixava perfeitamente no meu temperamento", diz Sigune. Jocygarante que a sensação, ao ouvir a gravação, foi a mesma.Jocy de Oliveira começou a carreira como pianista.Estudou em São Paulo com José Kliass e, em Paris, com MargueriteLong. Com o tempo, foi se aproximando da música do século 20.Conheceu John Cage, publicou livro de cartas trocadas com ele.Tocou sob regência de Stravinski. Na América Latina, foi aprimeira a tocar a música do francês Olivier Messiaen. Entresuas principais obras estão Liturgia do Espaço e FataMorgana.Nomes-chave da música do século 20 também passeiam pelabiografia de Sigune. Estreou obras de Messiaen, Berio, Nonno.Participou da primeira montagem de Erwartung, de Schoenberg,na Rússia. Na Alemanha, criou um festival no qual procura unirmúsicos estrangeiros lá residentes, pedindo a eles que tragam àprogramação obras de autores de seus países, sempre explorandoinstrumentos e outras características específicas de suasculturas.Foi assim, aliás, que Medea Ballade surgiu. É umapeça de pouco mais de 25 minutos, na qual Jocy discute osaspectos políticos suscitados pela personagem grega, tratando detemas como a presença do estrangeiro ou a multiplicidade damulher. "É um tema atual na Europa e a repercussão que poderiater na Alemanha me interessou bastante", diz Jocy. "O tipo delinguagem usada por ela é perfeito, me convenceu no ato",completa Sigune. As duas, nos próximos dias, além dos workshops,estarão trabalhando na peça, estudando modos de ampliá-la.Curiosidade - Foi a curiosidade por elementos deculturas distintas que fez com que Sigune encomendasse a peça aJocy. E é essa característica que a soprano pretende passar comoelemento fundamental para seus alunos presentes ao workshop."Basta ter coragem, querer tentar novas coisas. Abrir oshorizontes é fundamental para qualquer pessoa que queiratornar-se um artista", defende Sigune. Ela diz que orienta seusalunos a não serem tradicionais. Nada contra o repertóriotradicional. Mas, sim, à atitude comodista. O cantor, acredita,tem de aspirar à criação."É mais do que uma bela voz, uma boa técnica. É o usoque se faz desses elementos. Uma pessoa não se torna um cantor,já nasce assim. Para mexer com as pessoas, despertar nela algumtipo de reação, é preciso se dar à música, abrir suas concepções, o próprio corpo. Se não, o cantor transforma-se em uma máquina,repete fórmulas."A questão é que, para Sigune, esse tipo de comodismopode explicar, em parte, o abismo que, em sua opinião, se abriuentre o público e o repertório do século 20. Por parte dointérprete, que deixou de se arriscar. E por parte do compositor, que deixou de ver a música como expressão de algum tipo desentimento, emoção humana. "É algo de nosso tempo, extravasarqualquer tipo de sensação não é bem-visto."Jocy concorda, vê a mídia como grande impulsionadoradesse processo de afastamento do público das salas de concerto."Impõe-se um gosto, a audição não é mais precisa. Esse públicoem potencial não ouve mais, não tem tempo, não tem treinamento" afirma Jocy. E Sigune concorda. Começa, então, a "briga".Jocy diz que Sigune, tendo em vista a tradição musical daAlemanha, "reclama de barriga cheia". Sigune demora um pouco,entende a expressão, e rebate. "É um processo cada vez maiscomplicado na Europa, há locais de resistência, alguns festivais, mas, se comparada com décadas passadas, a situação assusta."Jocy lembra que só nos anos 60, por suas mãos, ouviu-se ao vivono Brasil concertos de Bartok. Sigune conta que, na década de 80, Erwartung, escrita no início do século 20, era novidadepara o público russo.Duas faces de um mesmo problema. Enquanto autores comoSchoenberg ou Stravinski já são compositores do século passado epassam a ser assimilados, a música contemporânea, feita agora,vai encontrando os mesmos problemas de divulgação. "Muitasvezes, estreamos uma obra. E anos e anos têm de se passar atéque a possamos ouvir de novo", comenta Sigune. "O número derécitas de uma ópera, no Brasil, por exemplo, é mínimo, três,quatro. Não há como competir com o teatro ou cinema pelopatrocínio das empresas", rebate Jocy.Depois da exposição de tantos problemas, sobra espaçopara soluções. "Fazer a música é conectar-se de alguma formacom o público", diz Sigune, e sugere que ouçamos a gravação daMedea Ballade, para que fique claro o que ela quer dizer. E, defato, fica.

Agencia Estado,

11 de fevereiro de 2003 | 16h45

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