Wisnik lança segundo disco

Por alguns meses, a música na forma de canção e espetáculo tomam conta mais intensamente do dia-a-dia do compositor, músico, escritor e professor de literatura José Miguel Wisnik. Ele, que usufrui a licença prêmio da USP tirada pela primeira vez desde 1973 (quando começou a dar aula), lança seu segundo disco, São Paulo Rio, sábado e domingo no teatro do Sesc Pompéia."Não sou acadêmico no sentido que trato as coisas do viés da formação universitária, é uma das óticas possíveis, mas tenho outras", diz. Ciente disso, Wisnik produziu São Paulo Rio - CD a ser lançado de forma ainda inusual: pela Internet, por meio do portal IG (www.ig.com.br). "Não importa que eu tenha estudado 13 anos de piano e tudo mais, eu vou ter de me ver na situação de quem faz samba com uma caixinha de fósforo, que de qualquer modo tem de descobrir qual é a música das palavras que ele vai falar ou quais as palavras da sua música. É preciso não se perder do essencial: a música e a letra."Wisnik começou a estudar piano aos 7 anos. Tocou todo o repertório clássico, mas, ao mesmo tempo, ouvia música popular, bossa nova e Tropicália. "Quem faz música a extrai de um lugar que não sabe qual é, de uma memória musical que se conhece, mas, principalmente, de uma transformação de outras músicas conhecidas e que conversam entre elas e com você", analisa. "É uma filtragem musical de tudo aquilo que você viveu; faço isso tocando piano, no qual componho primeiro a música."É a relação com o piano que o faz aproximar-se de uma melodia. "Geralmente, as músicas às quais acabo me apegando, que se tornam canções, são aquelas inesperadas", conta.Estímulos - São Paulo Rio parece ser um trabalho com intenções evidentes. Por isso, o julgamento inicial do viés acadêmico. Mas está além. O diálogo sobre a introversão e extroversão da arte e do artista das capitais paulista e carioca é um tema do interesse de Wisnik. No entanto, não é somente o que o fez criar canções, em especial, sambas, presentes no CD. Elas nasceram de diferentes estímulos, traindo a intenção.Os estímulos ocorrem por meio dos diálogos. Podem ser tanto a conversa com outra linguagem - como a música e o cinema ou a música e o teatro - quanto a conversa com outro compositor, como as parcerias com Luiz Tatit, Paulo Neves e o filho, Guilherme Wisnik. Nesse processo de composição, Wisnik ainda nos propõe outros diálogos. Um deles é a conversa de gêneros, como o samba, que dialoga com drum´n´bass, blues e tango. Outro é a instrumentação, composta do talento de músicos de São Paulo e do Rio. Além desses, há duas participações de grande beleza: o canto de Elza Soares e Jussara Silveira. "Elas estão no disco tomando para si algumas canções", informa Wisnik. Elza canta sozinha Comida e Bebida, dele e Zé Celso Martinez Corrêa - baseada num fragmento de As Bacantes, de Eurípedes. Jussara canta Terra Estrangeira, um "fado-choro" feito para o filme de nome homônimo de Walter Salles e Daniela Thomas. "Mesmo tendo grande prazer de cantar nesse CD, de saber que certas inflexões não passam certos detalhes que o compositor quer apresentar, certas vozes voam."Em São Paulo Rio, Wisnik reuniu suas composições para dança, cinema e, especialmente, para teatro. "Ter feitos coisas com Zé Celso, Tom Zé e outros parceiros foi extremamente estimulante pra mim, inspiraram-me muitas outras canções no decorrer dos projetos e que estão no disco." São Paulo Rio, canção-título do CD e parceria com Paulo Neves, foi música feita para a peça Mistérios Gozosos, do Teatro Oficina. O mote da música, segundo ele, eram questões como "Por que São Paulo não tem uma alegria carnavalesca e uma aceitação da extroversão pública, por que não pode experimentar uma espécie de felicidade explícita?" A música é uma marcha carnavalesca, feita com uma base rítmica inspirada no recente disco Flash do carioca Marcos Suzano. "Ele trata o pandeiro de maneira reprocessada, reseqüênciada. Tem um lado tecno, que me interessa muito nele, justamente porque ele é um grande músico de um instrumento artesanal", afirma. "A levada do drum´n´bass tem uma proximidade com a da marcha e essa compatibilidade permite a sobreposição, dando um outro tempo à canção." ReproduçãoCapa do CDEssa música deu uma certa unidade ao CD, que o tempo inteiro propõe o diálogo. Desde 1993, quando lançou o primeiro álbum, Wisnik demonstra interesse pelo assunto São Paulo e Rio, mas não tinha clareza disso. "Descobri essa questão em mim nesse trabalho, mas não foi nada programático. Quando me dei conta, as canções se amarravam por meio de conversas", afirma. "Não quis fazer um disco para tratar do assunto, quando vi as músicas que eu tinha feito nos últimos tempos, o assunto estava colocado, tanto nos temas, nos gêneros, quanto na sonoridade e nos músicos."Wisnik é uma pessoa que gosta de parcerias. "Deixo-me transformar pelos estímulos que outros artistas me dão. Eu tenho uma tendência, mesmo quando faço música sozinho, de estar sempre dialogando", acredita. Os encontros provocam na composição de Wisnik reações muito distintas. Zé Celso exige dele envolvimento total, entrega. "E eu exijo dele que as coisas possam ser estruturadas, que elas não sejam só impulsivas e espontâneas", conta. Já Luiz Tatit é mais cético do que Wisnik. "Ele é irônico e cético, como atitude pessoal e principalmente poética. Ele exige que eu me depare com esse ceticismo e me acusa de ser excessivamente crédulo e sentimental." Propositalmente, Wisnik deu a ele uma melodia mais sentimental do que os seus padrões. "Ele fez uma música emocional, mas é também uma piada sobre alguém que vai atrás do caminhão de gás procurando uma mulher Elisa, que não está em parte nenhuma."A parceria com Guilherme, seu filho, foi a última lição de educador. Guilherme é, além de arquiteto, compositor. Ele fez a música e Wisnik a letra. Já faz uns anos. "Eu brinquei com o medo que os homens têm no começo da vida amorosa de se entregar à mulher, de se deixar derrotar", confessa. "É uma brincadeira com ele, comigo, com todos nós sobre esse jogo desigual, vamos perder, é inevitável." Outro diálogo importante no CD é com Paulo Neves, seu mais antigo parceiro. Conheceram-se na faculdade. Paulo é a pessoa que acompanhou todo o desenvolvimento musical de Wisnik, mesmo quando ninguém conhecia as suas composições. "Ele me traduziu e me traduz em muitas músicas", revela.Wisnik não lançava disco desde 1993. Foi por medo da mediocridade que não se arriscou antes? "Eu acho que desde sempre me interessei por muitos caminhos e não sabia qual seguir. Só depois de muito tempo eles se encontraram e hoje estão juntos", confessa. "Tive, sim, medo de me perder e o desejo grande de fazer canções ficou guardado."Wisnik afirma não ter tido medo da mediocridade. Tem um lado mediano, como todos, mas nunca acreditou nele. Nunca se viu medíocre. Apenas por um bom tempo desistiu da idéia de que faria música. Fazia e não mostrava pra ninguém. "Tempos depois vi que eu estava sempre fazendo música, mesmo dando aula aquilo era música, falando era música, escrevendo era música", conta. "Por isso, eu acho que só faço músico, então agora está resolvido. Assumido isso, seja fazendo música para cinema, teatro e dança e admitindo que eu faço tudo isso e isso é uma coisa só, não me dividi mais, sinto-me inteiro."Elza - Há quatro anos, ele assitiu a um show de Elza. Ao vivo, ficou abismado com a potencialidade dela de cantar músicas contemporâneas e reinterpretar clássicos. "Desde então, percebi que Elza não era uma peça do museu do samba, mas uma grande cantora brasileira com pique progressivo", conta. A parceria começou no festival Chorando Alto, quando Wisnik a convidou para interpretar suas releituras de Ernesto Nazaré. "Foi um momento de ousadia do qual tenho me beneficiado até hoje."Recentemente, ele a dirigiu no show Dura na Queda. Os frutos: Elza convidou Wisnik e Alê Siqueira (competente produtor de São Paulo Rio e das trilhas do balé O Corpo) para produzirem seu próximo CD. " É preciso que se entenda a dimensão do canto de Elza Soares e faça uma gravação à altura", declara. "Até agora não houve contato de nenhuma gravadora, mas estamos abertos a possíveis negociações."Zé Miguel Wisnik. Participação de Elza Soares. Sábado, às 21 horas, e domingo, às 18 horas. De R$ 6,00 a R$ 12,00. Teatro do Sesc Pompéia. Rua Clélia, 93, tel. 3871-7700

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