Wisnik faz canções para "abrasileirar" São Paulo

Ao encontrar-se com Hermeto Pascoal após a apresentação do músico alagoano no Centro Cultural Banco do Brasil, no último fim de semana, José Miguel Wisnik ouviu dele uma declaração entusiasmada: "São Paulo é o coração do mundo". Pascoal se referia à gigantesca metrópole, ponto convergente e irradiador de tendências para o Brasil inteiro, onde todos os gêneros musicais se entrechocam ou se fundem. Wisnik concorda - sem que haja aí qualquer traço bairrista. Ao contrário. Em seu mais recente CD, São Paulo Rio, lançado no fim do ano passado, apela para o que Caetano Veloso denominou o abrasileiramento de São Paulo. Algo que há muito tempo já acontece, com o movimento hip-hop, o samba e o choro, que resistem mesmo à margem do mercado. Para analisar essa diversidade, o professor de literatura da USP, músico e compositor faz um workshop hoje no CCBB, como convidado da série Sons da Cidade. Amanhã, sábado e domingo, dividirá o palco com as cantoras Elza Soares e Jussara Silveira. Ele ele falou ao JT sobre as propostas e discussões levantadas por São Paulo Rio.Além de ser o principal pólo da indústria cultural brasileira, São Paulo criou tradição musical ou ainda desempenha papel secundário no panorama da música brasileira?São Paulo é uma cidade do século 20, que cresceu e se tornou uma grande cidade com a industrialização. Está mergulhada no inconsciente da Nação. O Rio se insere nesse imaginário como a cidade do século 19, as cidades históricas mineiras identificam-se com o Brasil colonial e barroco enquanto Salvador está associada ao século 17. Embora não seja uma cidade que tenha criado gêneros da música popular brasileira, é em São Paulo que se processam esses gêneros, onde há tradição de se processar o Brasil. Isso sem se ter criado gênero próprio, mas uma mistura.Em "São Paulo Rio" essa vocação da cidade aparece como um manifesto? O disco propõe exatamente isso: uma conversa com os gêneros. Misturei samba e choro, samba paulista e carioca, baladas e traços experimentais. Todas as músicas estão em situação de diálogo. Em uma delas proponho uma conversa com Paulinho da Viola, em outra com Adoniran Barbosa e Nelson Cavaquinho, e assim por diante, tem até um tango russo. A música que dá título ao CD é uma síntese utópica das duas maiores cidades do País e faz uma espécie de apelo para que as supostas rivalidades entre Rio e São Paulo se diluam num final feliz? Você tem toda razão de que é uma coisa contra o bairrismo, contra uma atitude meio paulista. Existe algo em São Paulo que alimenta o desprezo pelo Brasil. Acima de São Paulo você tem regiões que estão plugadas no inconsciente do Brasil, algo colonial que, para o bem e para o mal, e é o que se tem como idéia da nação brasileira. Em São Paulo existe gente que se sente como se a cidade estivesse livre disso, desprezando aquilo que o Brasil tem. Como se esse modo de ser brasileiro fosse visto como atraso pelo paulista. Minha música é contra essa atitude. Ela propõe uma leitura de SP sem perder o que possa receber do Brasil. A faixa "Inverno (Anhangabaú da Felicidade)" tematiza essa e outras questões, como a resistência cultural do Oficina e os moradores de rua. Qual sua proposta nesse caso? Fiz a música para o Oficina. Nela comento a situação do teatro, mas vejo também as pessoas dormindo na ruas do Bexiga. Ela expressa então esse sentimento diante do horror. Ao mesmo tempo o Oficina é uma força de São Paulo, cidade ligada ao modernismo. O Zé Celso representa assim uma força, cercada pelo Baú da Felicidade, querendo rasgar o Anhangabaú. Há uma força afirmativa para o futuro nessa música. Resuma o atual panorama da música feita na cidade. O movimento musical paulista é fortíssimo. Aqui você tem Arnaldo Antunes, com uma força poética poderosa, e Tom Zé, que cita o movimento rap da periferia. São exemplos de artistas que dialogam com a cultura popular. O rap paulista é um dos maiores acontecimentos da cultura brasileira. Aqui as coisas transbordam das margens. Isso aqui é um anhangabaú de gente espalhada por todos os lados. Na periferia e mesmo na Zona Oeste, que faz parte da cultura do nicho a que eu pertenço e que envolve a USP, vanguarda paulista, Pinheiros e Vila Madalena. José Miguel Wisnik no Centro Cultural Banco do Brasil, rua Álvares Penteado, 112, centro, tel.: 3113-3600. Workshop hoje, às 18h30. Shows: sexta e sábado às 18h30 e domingo às 18h. Grátis.

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