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William Christie faz pulsar como nova uma música de séculos

Com versão minimalista, o Les Arts Florissants repetiu a mágica dos historicamente informados

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2014 | 02h06

A profissão de músico clássico deriva de ideias, crenças e práticas sedimentadas durante o século 19. Por isso, eles confrontam-se diariamente com um profundo dilema. De um lado, exige-se deles que recriem as obras, mantendo-se fiéis à sua herança musical e tocando em alto padrão de qualidade. De outro, espera-se que criem algo diferente, novo, a cada execução. A habilidade de superar estas exigências aparentemente conflitantes é quesito básico, hoje em dia, do músico clássico. É o que afirma Nick Wilson no recém-lançado livro The Art of Re-enchantment - Making Early Music in the Modern Age (Ed. Oxford).

É por isso que são raras as ocasiões em que o público percebe algo novo rolando no palco, mesmo que seja a milionésima vez que ouvem a quarta sinfonia de Beethoven (como aconteceu semana passada com Giovanni Antonini regendo esta obra na Sala São Paulo)? Anotei que o segredo de Antonini está em sua expertise como praticante da música historicamente informada.

Talvez a resposta seja outra, como demonstraram anteontem o mestre William Christie e a versão minimalista de seu Les Arts Florissants no auditório do MASP. Christie apontou, em entrevista ao Estado, que, na música antiga, você sempre descobre novos compositores e obras, estabelece novas relações, exerce a criatividade sem o peso da tradição nem se deixa levar pela busca "boba" pela recriação da execução original. Verdade. O espírito garimpeiro desses músicos os faz tropeçar em pepitas inéditas a todo momento. Agora mesmo, Cecilia Bartoli fez um CD inteiro com primeiras gravações mundiais de árias de italianos que atuaram na corte russa no século 18 (São Petersburgo, Decca).

A pergunta final seria: por que este espírito aventureiro recusa-se a habitar as mentes de quem toca a música feita a partir da segunda metade do século 18? Um levantamento recente indica que, entre 1740 e 1800, foram compostas na Europa cerca de dez mil sinfonias. Quantas delas conhecemos?

Anteontem no auditório do MASP, Christie repetiu a mágica dos historicamente informados de fazer pulsar como se fosse nova uma música escrita vários séculos atrás. Montou um roteiro matador em torno do amor. "Serão os deuses feitos para amar como nós?", pergunta-se Europa com ares misteriosos, na pequena cantata Jupiter et Europe, de Nicolas Bernier, um dos seis compositores que cultivaram, a grosso modo entre 1650 e 1750, a "air de cour", ou ária de corte, destinada a celebrar as maravilhas da vida nas seletas cortes. "Voa. Amor, só tu deves nos satisfazer", proclama o pouquíssimo conhecido André Campra (1660-1744) nas vozes de Colombina e Arlequim da cantata que fechou o encantador concerto.

Por uma hora, o hoje francês puro-sangue William Christie, apesar de nascido nos EUA, comandou uma entusiasmante celebração do amor, sentimento que propiciou a Freud, a partir dos gregos, entronizar de vez a oposição Eros-Tanathos como pêndulo essencial da humanidade.

Christie pilotou o cravo, ao lado de ex-alunos da Academia de Les Arts Florissants, poeticamente batizada de Jardin des Voix: os dois excelentes cantores (a soprano Élodie Fonnard e o barítono Marc Mauillon), a entusiasmada Florence Malgoire e Catherine Girard aos violinos, Myriam Rignol, ótima na viola da gamba, e o seguro Thomas Dunford ao alaúde.

Além da qualidade elevada da interpretação musical, a movimentação comedida, porém atraente, do par vocal conduziu o público aos meandros fascinantes de um universo em que os franceses são mestres, o das "pequenas formas", como Christie ressaltou em conversa com Gioconda Bordon imediatamente antes do concerto.

POR UMA HORA, CHRISTIE COMANDOU UMA

ENTUSIASMANTE CELEBRAÇÃO DO AMOR

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