Lauren Lancaster/The New York Times
Lauren Lancaster/The New York Times

Wilco surpreende com disco de graça e psicodélico

Banda liderada por Jeff Tweedy lançou ‘Star Wars’, o nono álbum de estúdio

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

17 Julho 2015 | 19h34

Em Star Wars, o filme, a Força está ao lado daqueles que lutam pelo bem. Na noite de quinta-feira, 16, os fãs da banda norte-americana Wilco tiveram a oportunidade de se sentir como verdadeiros Jedis. A Força, ou como quer que queiram chamar, chegou na forma de disco. Com o mesmo nome da saga cinematográfica criada por George Lucas, o novo álbum do grupo de Chicago surgiu como uma surpresa completa. 

Não houve aviso de que Jeff Tweedy e companhia se reuniam em estúdio ou que dedicaram algum tempo para compor o sucessor do aclamado The Whole Love (2011). Ainda assim, o nono trabalho foi colocado à disposição no site da banda de forma gratuita. Basta inscrever um endereço de e-mail para receber o link para download – e, na manhã de sexta, 17, o álbum já estava disponível no YouTube e em serviços de streaming como Apple Music, Spotify e Deezer. 

“Por que lançar um disco desta maneira e por que fazê-lo de forma gratuita?”, escreveu Tweedy no Facebook da banda. “Bom, a maior razão, e eu não acho que precisamos de mais de uma, é que pareceu ser divertido. E o que é mais divertido do que uma surpresa?” 

E que bela surpresa. Tudo soa e aparenta agradável. Desde a escolha do título à ilustração de um gato branco na capa e ao momento em que o play é disparado. Surpresa daquelas capazes de fazer sorrir, seja fã ardoroso da banda, como muitos, seja o ouvinte ocasional. 

É preciso tirar o chapéu para o Wilco. A banda completa 20 anos de carreira, quando fundou suas bases com o álbum A.M., em 1995. De lá para cá, deixou a roupagem alt-country de lado e explorou novas sonoridades. Foi longe – para as estrelas? – e chegou a Star Wars. Explorou uma psicodelia inédita nas guitarras, beirou o glam e o stoner rock e ainda faz tudo com aquela leveza pop da qual os fãs estão acostumados. 

Jeff Tweedy (voz e guitarra), John Stirratt (baixo), Glenn Kotche (bateria), Mikael Jorgensen (teclado), Nels Cline (guitarra) e Pat Sansone (guitarra) nunca se mostraram acanhados ao ousar em seus trabalhos, já aumentaram e diminuíram o volume das guitarras, embarcaram em projetos solo e criaram, ainda assim, uma carreira com mais pontos altos do que baixos.     Versos agridoces de Tweedy em discos como Being There (1996), Yankee Hotel Foxtrot (2002), A Ghost Is Born (2004) e Sky Blue Sky (2007) são capazes de acalentar corações despedaçados como poucos. “Estou tentando quebrar seu coração”, cantou ele, certa vez. Já em Hate It Here, de 2007, ressuscitada no filme Boyhood, ele abandona o amargor e entrega-se, quase beirando o desespero. “O que eu vou fazer se você nunca voltar para casa? Odeio isso. Odeio quando você não está aqui”, escreveu. 

Embora Star Wars não possa ser colocado no topo na lista de melhores discos da banda, o álbum ganha de muitos trabalhos na experimentação adocicada ao longo de 11 canções e 33 minutos de duração. 

Tweedy se mantém como um compositor que olha para dentro ao compor. Na primeira audição, é como se Tweedy conversasse frente a frente com o ouvinte. Enquanto manuseia seu instrumento, de forma despretensiosa, às vezes doce, expurga as angústias que o consumiam naquele momento. Difícil não entender Where Do I Begin como uma conversa de Tweedy com a mulher, Sue, que recentemente venceu o câncer. O segredo do compositor é saber, contudo, extravasar sua própria história e torná-la universal. “Eu nunca, nunca, nunca mais vou desmoronar daquela forma, de novo”, promete, na canção – quem não consegue se identificar com essa promessa? 

The Whole Love indicava o novo direcionamento estético do Wilco e Star Wars chega para confirmar a aposta. É um disco ainda mais roqueiro, embora melodicamente ainda partilhe de momentos folk. EKG abre o álbum com um instrumental experimental, raivoso, seguido por More..., quando tudo parece – repito, parece – voltar à normalidade. Um Wilco barulhento, sim, mas capaz de ser sensível como há 20 anos. Como é possível? Busque a resposta na Força, pequeno padawan. 

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