Warner abre seu baú e relança 35 álbuns

Que há muito as gravadoras não se arriscam em busca de novidades, já é sabido. E que até há pouco tempo costumavam dar de ombros para obras importantes - e até raridades que nem elas sabiam possuir - de seus arquivos, também. Mas se hoje pode-se dizer "até há pouco tempo" é graças à cruzada do baterista e titã Charles Gavin em busca das velharias.A boa nova da vez chama-se Arquivos Warner, também com a assinatura do titã. Trata-se de uma nova série da gravadora, que em 99 havia lançado a série Dois Momentos, CDs que reuniam dois álbuns de carreira de um mesmo artista. Dessa vez, a iniciativa é ainda melhor: 35 discos remasterizados e com as capas originais de 27 artistas que passaram por lá, como Tim Maia, Ira!, Jorge Ben Jor, Azymuth, Hermeto Paschoal, Lulu Santos e outros.Gravadora que aportou por aqui em 1977, a Warner tem um acervo que reúne samba e MPB, mas seu principal filão foi o pop rock nacional - que saiu ganhando nesta compilação dos "fora de catálogo". Dos 23 títulos nunca lançados em CDs, foram lembrados Ira!, Ultraje a Rigor, Inocentes, Kid Abelha, Lulu Santos e até o Magazine, de Kid Vinil, e Os Mulheres Negras, de André Abujamra. Alguns CDs também ganharam faixas bônus. É o caso de Entre e Ouça, terceiro disco de Ed Motta, com cinco novas músicas; Estação Primeira, do Gueto; Seu Espião, do Kid Abelha, com duas; Tempos Modernos, de Lulu Santos; Magazine, do próprio; e Nós Vamos Invadir Sua Praia, do Ultraje a Rigor, disco que teve todas as suas músicas tocadas à exaustão pelas rádios.Pop privilegiado - Os "roqueiros" dos 80 não esquecem: PsicoAcústica, de 88, terceiro álbum do Ira!, foi uma surpresa para todos. As mudanças no som como em Advogado do Diabo e Farto do Rock´n´Roll, que trazia o primeiro scratch feito em uma banda de rock brasileiro. Fora a capa do LP, psicodélica e que na época vinha até com óculos 3D. Do grupo, também foi relançado Clandestino, de 90, um álbum menor, mas que traz a baladona Tarde Vazia. Dos Inocentes vieram os dois primeiros LPs (mas em um mesmo CD), Pânico em S.P. (86) e Adeus Carne (87), com petardos como Pátria Amada e Rotina. Na linha mais pop, Lulu Santos aparece com Tempos Modernos (82) e Tudo Azul (84), e seus hits instantâneos De Repente Califórnia, Areias Escaldantes, Tão Bem e O Último Romântico. Na seara do soul, o destaque fica para Maria Fumaça, de 77, primeiro álbum da Banda Black Rio, hoje renascida sob o comando de William Magalhães, filho do maestro Oberdan. Tem também a incursão da voz de Tim Maia pela discoteca com Disco Club, de 78. Se por vezes parece datado, é daí que saíram Sossego e Jhony, mostrando que sua veia funk não ficou soterrada debaixo do glitter.Da época das pistas, saíram ainda três álbuns das Frenéticas, a invenção de Nelson Motta. Como o primeiro, de 77, com a faixa de Rita Lee Perigosa ("Eu sei que eu sou bonita e gostosa..."). Deve animar algumas raves. No samba tem Dona Ivone Lara (Alegria Minha Gente, de 82) e Paulinho da Viola (Prisma Luminoso, de 83). A compositora da Império Serrano se sai melhor com um disco de músicas da escola de samba. Zezé Motta também não faz feio com Negritude, de 79, álbum com composições de Cartola, João Bosco e até do maestro John Neschling. O que se convencionou chamar MPB é que tem poucas atrações: um Ney Matogrosso (Seu Tipo, de 79) perdendo a linha, tentando mudar o som que possuía desde os Secos & Molhados. Salvam-se a música Último Drama e a famosa Rosa de Hiroshima. Há também Marina Lima em sua estréia com Simples Como Fogo, de 79 - mas que a contracapa do disco diz ser de 88. Ela vem com cabeleira rebelde e sem nenhum dos hits pop que a consagrariam na década seguinte. Com essa nova leva de relançamentos, Charles Gavin já soma quase uma centena de discos colocados novamente no mercado. Da gravadora Warner, ele ainda promete novos álbuns. Até o fim do ano deve sair Elis Regina Ao Vivo em Montreaux, do show feito em 1979, que terá ainda faixas bônus - material até hoje nunca lançado. Agora é torcer para que as gravadoras voltem a dar atenção também para as novidades. Arquivos Warner - 35 títulos de 27 artistas. Preço médio: R$ 17.

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