PAULO PINTO/ESTADÃO
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Wando, 70 anos, criou um personagem maior do que sua obra

Bons discos e destreza harmônica se escondem atrás de uma montanha de calcinhas jogadas por fãs; relembre algumas canções

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

02 Outubro 2015 | 05h00

Foi uma traição, a mais cruel que Wando poderia ter sofrido desde que seu coração bateu mais forte por uma mulher. Era manhã de 27 de janeiro de 2012 quando o primeiro golpe o atingiu no peito. Às pressas, o cantor foi levado com dores para um hospital de Belo Horizonte e ali ficou por duas semanas ligado a aparelhos. O coração, justamente a parte do corpo humano que havia recebido suas maiores carícias a vida inteira, decidiu traí-lo. Quando amanheceu o dia 8 de fevereiro de 2012, Wando sentiu a última batida e se foi.

Wanderley Alves dos Reis, que a avó chamou logo de Wando, faria nesta sexta, dia 2, 70 anos de idade. Se estaria cantando ou cuidando dos netos, não se sabe, mas, certamente, vivendo uma paixão. Wando assumiu um personagem do romântico incurável que levou uma de suas metades para a glória e a outra para o limbo. A primeira, legitimada por uma base de fãs do tamanho de alguns países da Europa, era a que o importava. A segunda, cravada de balas da crítica e de músicos acadêmicos, não parecia atingi-lo. Wando poderia sacar uma lista do bolso e esfregá-la no orgulho de quem tentasse diminui-lo. Entre os artistas mais vitoriosos da era dos discos no País, seus álbuns somam 10 milhões de cópias, algo como tudo o que venderam na vida as bandas Paralamas do Sucesso e Titãs juntas.

O lorde Wando, no entanto, jamais faria isso. Mais preocupado com a batida dos corações, considerava o amor a única mágica capaz de transformar dinossauros. “Imagine um homem bruto que jamais segurou uma flor na vida. Quando esse homem está apaixonado, ele vai à floricultura, escolhe um arranjo de rosas, pede para embrulhar, o segura com todo jeito e leva para sua amada cheio de poesia”, dizia. Desde que ‘Moça’ havia feito sucesso em seu segundo disco, de 1975, Wando havia iniciado sua gradativa migração do samba e do samba rock que o deram vida para a canção romântica. E foi ali que se sentiu um rei.

O Wando compositor tem qualidades pouco citadas mas que já estavam claras em ‘O Importante é Ser Fevereiro’, que Jair Rodrigues havia lançado antes mesmo de sair seu álbum de estreia em 1973, ‘Gloria a Deus no Céu e Samba na Terra’. Seu violão trazia um lirismo dos anos em que estudou música clássica, como se percebe nos arpejos da primeira parte de ‘Moça’, tudo crescendo para a entrada arrebatadora do samba chique com orquestração na segunda.

A obra de Wando não é maior apenas em seus discos mais obscuros ou de início de carreira. Sua destreza está nos detalhes também de canções como ‘Fogo e Paixão’, de 1985, que lhe deu uma condição de ídolo definitiva. Se quiser derrubar o violonista da roda que diz tirar tudo de ouvido, peça a ele para tocar esta música. “Você é luz, é raio estrela e luar” está em dó maior. Mas “manhã de sol” tem um inesperado mi maior com sétima que cria uma rápida tensão antes que “meio iá iá meu iô iô” seja feito sobre o lá menor que coloca a canção na calmaria novamente. Uma falsa modulação de tom. E então vem a segunda parte começando em fá sustenido menor, uma real modulação, tudo feito sobre um ritmo linear que os violonistas aprendem em suas primeiras aulas como chá-com-pão. Ninguém vendeu um chá-com-pão tão bem.

Wando, o personagem, ficou mais forte do que qualquer uma de suas canções. Sua filha, Gabrielle Burcci, tem a intenção de abrir um museu com as calcinhas que eram arremessadas ao palco nos shows do pai. Mais de 17 mil e todas, segundo ela, devidamente higienizadas. Há também em seus planos a produção de um documentário sobre a vida de Wando com o nome de um de seus principais discos e o que seria a frase que melhor o definiria até aquela manhã de 8 de fevereiro de 2012: ‘Vulgar e comum é não morrer de amor’. 

 

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