Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Wanderléa puxa nova fase que revisita a 'apedrejada' Jovem Guarda

“Existia o purismo do pessoal da MPB e nós lá, chegando com guitarras, equipamentos de som novos, fazendo uma revolução que começava dentro das casas. Fomos muito contestados”, diz Wanderléa

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

06 Abril 2017 | 05h00

Alienados, superficiais, infantis, acéfalos, donos de uma capacidade ímpar de hipnotizar as massas com truques, gestos e canções ingênuas que desviavam o foco do combate contra os militares para o comércio milionário de uma inconveniente felicidade juvenil. Quem eram eles?, perguntavam Elis Regina, Geraldo Vandré, Edu Lobo, Gilberto Gil, MPB 4, Ronaldo Bôscoli, os críticos e os jovens universitários. Como se atreviam a tomar de assalto os espaços mais nobres da TV, do rádio e dos jornais em tempos de guerra? O que é que, afinal, havia nessa tal de Jovem Guarda?

As perguntas duraram um pouco mais de 50 anos para começar a ser respondidas. A vitrine maior era o próprio programa que deu nome ao momento: Jovem Guarda. Seus apresentadores: Wanderléa, Erasmo e Roberto Carlos. “Existia o purismo do pessoal da MPB e nós lá, chegando com guitarras, equipamentos de som novos, fazendo uma revolução que começava dentro das casas. Fomos muito contestados”, diz Wanderléa, principal mulher daquela cena e que, exatamente por essa condição, viveu mais batalhas do que seus pares. “Se fôssemos realmente tão irrelevantes quanto diziam, não teríamos tomado conta do País.”

Hoje, ela fala. Absolvida dos pecados que poderia ter cometido aos olhos da patrulha da esquerda, apontada por Ronnie Von como tão cruel quanto a própria censura da direita, Wanderléa está prestes a lançar um livro de memórias, escrito com a colaboração do jornalista Renato Vieira, e é estrela de um musical em formato de documentário chamado 60! Década de Arromba, com estreia no dia 10 de abril, no Theatro Net, depois de uma temporada de cinco meses no Rio de Janeiro.

A era das revisitações às jovens tardes de domingo compreendidas entre 1965 e 1968, época de duração do avassalador Jovem Guarda, tem encorajado personagens ligados diretamente ou indiretamente ao cenário a visitar suas recordações. Jerry Adriani, que fez 70 anos em 29 de janeiro e, no momento, se recupera de uma trombose nas pernas, prepara sua autobiografia, em colaboração com o pesquisador Marcelo Fróes, para sair até o final do ano. Paulo Cesar de Araújo, o biógrafo proibido de Roberto Carlos, está prestes a entregar à editora um novo livro sobre o cantor para ser lançado no segundo semestre. E um belo documentário, Jovem Aos 50, dirigido por Sergio Baldassarini Junior e narrado por Milton Gonçalves, segue em cartaz.

A Jovem Guarda transbordou às dependências da TV Record para fazer sua própria revolução

A Jovem Guarda não se restringiu ao antigo auditório da TV Record, na Rua da Consolação. O rock que chegava ao Brasil com mais força a partir de 1966, contrapunha a calmaria dos antecedentes samba-canção e bossa nova e, pela primeira vez, criava uma música feita e consumida exclusivamente por jovens. Longe da Record, onde o artefato era detonado, jovens viviam a chegada do rock and roll como se percebessem que testemunhavam a escrita da própria história.

Os Jordans, grupo pré-Jovem Guarda surgido na Mooca paulistana em 1956, em atividade até hoje com Aladdin, Sival, Tony e Foguinho, tiveram a mais sensacional das histórias de bastidores, uma das muitas retratadas no documentário Jovem Aos 50, de Sérgio Baldassarini Junior, em cartaz nos cinemas.

A banda já era grande no Brasil quando saiu em viagem pela Europa. Em Madri, resolveram comprar seus próprios discos para cobrar da gravadora no Brasil os direitos autorais por aquelas vendas. Da Espanha, foram para Londres. Num final de tarde, entraram em um restaurante indicado por um amigo para comer macarronada. Irupê, o saxofonista, se levantou e foi ao banheiro. Ao voltar, estava mais branco que o normal. “O Ringo Starr está ali”. A banda não deu atenção. “Vamos que eu mostro a vocês”. Antes que se levantasse, vieram todos eles, John, Paul, George e Ringo. Cruzaram com os brasileiros, sorriram e saíram do restaurante. Os Jordans foram atrás, bateram na porta do prédio onde entraram os Beatles e conseguiram gravar, em um resto de filme, cenas do encontro mais improvável com o qual poderiam sonhar. As cenas estão no documentário.

Antes de dar título a todo o movimento, Jovem Guarda era apenas o nome do programa da TV Record. Sua abrangência, no entanto, foi bem maior do que aquela circunscrição e seu fim, mais de 50 anos depois, também ganhou uma contestação inédita. “Não entendo ainda como não tentaram colocar ninguém no lugar de Roberto Carlos”, disse Jerry Adriani em recente entrevista ao Estado. O fim do programa foi proclamado pouco tempo depois da conversão do artista em cantor romântico, em 1968. “Acho muito estranho, é como se houvesse uma pressão nos bastidores (feita pelos militares) para o fim do programa.”

Erasmo Carlos costuma dizer o mesmo que Wanderléa quando fala dos anos em que recebia as pedradas da patrulha de esquerda. “Eu só lia a seção de esportes dos jornais. Não fazia ideia do que estava acontecendo.” Wanderléa resume: “A maior ditadura que existia estava dentro de casa. E a gente só queria ser feliz.”

60! DÉCADA DE ARROMBA

Theatro NET. Rua Olimpíadas, 360, 3448-5061. 5ª e 6ª, 20h30; sáb., 17h e 21h; dom., 17h. Pré-estreia de 6ª (7) a dom. (9). Estreia 2ª (10). R$ 40 a R$ 220. Até 28/5

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