Filipe Araújo/AE
Filipe Araújo/AE

Wanderléa dos anos 1970 ressurge em lançamento de caixa com seis álbuns

Ninguém esperava que a Ternurinha da Jovem Guarda poderia cantar os então malditos Mautner, Macalé e Melodia

Lauro Lisboa Garcia, Especial para o 'Estado'

13 Outubro 2012 | 07h00

Um verso de Calypso, uma das melhores canções do álbum Vamos Que Eu Já Vou, diz muito sobre a diversidade musical de Wanderléa, como ela mesma reconhece: “Aprendi a dançar ao som de muitos ritmos”. Um tanto veladamente discriminada pela “turma da MPB”, ela surpreendeu com sua atitude arrojada nos discos da caixa Wanderléa Anos 70, em que apostou em novidades de compositores recém-surgidos - alguns dos quais então considerados “malditos” -, como Jorge Mautner, Luiz Melodia, Walter Franco, Jards Macalé, Gonzaguinha, Djavan, Vital Lima, Altay Veloso. 

Juntou rock, choro, valsa, Hyldon, Gilberto Gil, Moraes Moreira, Roberto Menescal, gravou compositoras pouco conhecidas na época, como Fátima Guedes, Marlui Miranda, Sueli Costa, Joyce. Atirando em várias direções, sem perder o vínculo com os eternos companheiros Roberto Carlos e Erasmo Carlos, arriscou composições próprias e realizou com bom resultado até um disco com Egberto Gismonti, músico considerado “de elite”. 

Com gravações lançadas em compactos e projetos especiais, a compilação de raridades traz os clássicos do sambalanço (ou samba-rock) Krioula (Hélio Mateus) e Mané João (Roberto Carlos/Erasmo Carlos), frevos de Caetano Veloso (Chuva, Suor e Cerveja e Sem Se Atrapalhar) e Jards Macalé e Capinam - Pula, Pula (Salto de Sapato) -, maxixe (Essa Lourinha, de Fred Falcão e Arnoldo Medeiros), xote pop (A Charanga, parceria dela com Dom), entre outras delícias brejeiras e carnavalescas, além de baladas jovem-guardistas.

Recentemente, o DJ Zé Pedro empenhou-se em relançar Maravilhosa, mas o projeto emperrou. “Ele preparou um trabalho maravilhoso. Tinha um texto de Pedro Alexandre Sanches, peguei muitas fotos do show, mostrando bem como foi esse trabalho. Mas a gravadora (Universal) não aceitou. Eles disseram ‘ou sai como era o original, ou não sai’. Zé Pedro achou que não tinha porquê então. Por sorte Marcelo (Fróes) conseguiu lançar agora.”

O show Maravilhosa, no Teatro Tereza Raquel, no Rio, foi um marco. Wanderléa encontrou Guilherme Araújo (então empresário de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa) em Londres e eles idealizaram um espetáculo teatral para o verão carioca. “Naquela época período pré-carnaval era meio morto. Mas aí pintou a chance de fazer esse espetáculo no teatro e o show business brasileiro descobriu que era uma época maravilhosa, porque todo o Rio de Janeiro era lotado de visitantes em férias”, lembra. 

“Foi uma lotação fantástica e o show era muito ousado, tinha as coreografias, as roupas, o brilho, o desbunde. Eu me lembro que tinha a garotada do píer, que fumava todas e vinha assistir ao show e dizia: ‘Ela deve estar muito louca’. E eu careta de tudo (risos), mas enlouquecia no palco.” 

NOVO SITE TERÁ VÍDEOS RAROS E AUDACIOSOS

O site www.wanderlea.com.br, em fase de reformulação, vai ter material raro sobre sua carreira na década de 1970, como vídeos recém-descobertos por fãs, amigos e por uma de suas duas filhas, Yasmin, que acompanham esse período. “Eu choquei”, diz a cantora. Foi um período “muito audacioso”, em que ela deixou para trás uma imagem e um repertório consagrados, “contra tudo e contra todos”. 

Em shows recentes, Wanderléa mescla naturalmente o repertório desses discos com clássicos da primeira fase, em pegada de rock. Completando 50 anos de carreira, ela não planejou montar repertório só com o material da caixa. “Adoraria fazer uma temporada de uma coisa dessas, mas a produção é cara. Há os editais, mas primeiro as pessoas precisam descobrir que eu sou essa daqui, porque ficam muito esperando a Wanderléa de Ternura. Mas não sou ansiosa, não vou sofrer por isso. O que der pra fazer eu faço.” 

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