"Wanda Vagamente", de 1964, sai em CD

Era o início dos anos 60. A bossa nova, consolidada, conhecida no mundo, tinha seus mitos,consolidados, núcleo fundador - Tom Jobim, João Gilberto, Carlos Lyra, Roberto Menescal. Uma segunda geração começava a formar-se composta de gente que se espelhava naquela turma original.A primeira geração reunia-se na casa de Nara Leão, em Copacabana, no fim dos anos 50. A segunda, principalmente na casa do pianista Marcos Valle, que tinha um piano e gostava de fazer festas. Nara foi, naturalmente, a musa da primeirageração. A musa da segunda - Marcos Valle, Edu Lobo, Francis Hime - era Wanda Sá.Ela era bonita, inteligente, tocava violão muito bem, cantava com voz soprada, intimista, como se no ouvido da gente, direto para cada ouvinte, quase como se não estivesse cantando,mas contando um caso - necessariamente, um caso de amor. Em 1964, Roberto Menescal resolveu produzir um disco para Wanda Sá. Escolheu músicas daquela turma nova, mas coisas dele mesmo, Menescal, outras de Tom Jobim, um canto pungente deLuiz Roberto e Geraldo Vandré, outro de Durval Ferreira, Maurício Einhorn e Bebeto (do Tamba Trio).Juntou um time de músicos de primeiríssima linha: ele mesmo, ao violão e assinando os arranjos, mais os pianistas Eumir Deodato, Tenório Jr. e Luiz Carlos Vinhas, o baterista Edison Machado e João Palma, o percussionista Dom Um Romão, o contrabaixista Sérgio Barroso e outros bambas.O resultado foi o elepê "Wanda Vagamente", lançadopela RGE. Foi uma febre, um grande acontecimento, um dos discos mais populares de seu tempo. Repertório esplêndido, arranjos impecáveis, a voz deliciosa de Wanda, uma capa moderna - aloirinha Wanda descalça, de vestido de listras grossas, como mandava o tempo, arrastando o violão pela areia, olhando para o longe. "Vagamente" era uma bossa radical, inédita, de RobertoMenescal, com letra de Ronaldo Bôscoli: "Só me lembro muito vagamente/ Correndo você vinha/ Quando de repente/ Seu sorriso, que era muito branco/ Me encontrou/(...) Só me lembro muitovagamente/ O quanto a gente amou, e foi tão de repente/ Que eu nem lembro/ Se foi com você/ Que eu perdi meu amor."E a bossa nova perdeu Wanda Sá, que se casou com Edu Lobo e abandonou a carreira. Para retomá-la - ao menos em disco - exatamente 30 anos depois, quando lançou o CD "Brasileiras", em que dividia vozes e violões com Célia Vaz (lançado pela CID,já esgotado, o disco teve participação especial do Quarteto em Cy, de Nana Caymmi, Gal Costa, Joyce e Márcio Mallard - para que se tenha uma idéia de quanto Wanda era considerada).A boa notícia é que "Wanda Vagamente" - o elepê,jamais reeditado, virou raridade dessas disputadas a tapa - saiu finalmente em CD, pelo selo Dubas, que pertence ao compositor Ronaldo Bastos. E chegou ao CD em grande estilo, remasterizado, comentrevista da Wanda e Roberto Menescal no encarte, capa original mantida e o acréscimo de três faixas-bônus gravadas, duas, em 1965, nos Estados Unidos, cantadas em inglês: "So Nice" (Sambade Verão), "Quiet Nights of Quiet Stars" (Corcovado); e, gravada em 1969, "To Say Goodbye (Pra Dizer Adeus).O time de acompanhamento muda, mas não perde aqualidade: na primeira e na segunda faixas-bônus, piano de Sérgio Mendes, baixo de Tião Neto, bateria de Chico Batera, violão de Rosinha de Valença, sax alto de Bud Shank; na terceirasax alto de Paul Desmond, baixo de Ron Carter, violão de Dório Ferreira e bateria de Airto Moreira, arranjo de Don Sebesky."To Say Goodbye tem uma história muito boa", contaWanda. "O Paul Desmond estava gravando o disco ´From the Hot Afternoon´, com músicas do Edu (Lobo) e do Milton Nascimento. Nós (ela e Edu) morávamos em Los Angeles e fomos para Nova York.Mas eu fui a passeio, não era para ir ao estúdio, pois só o Edu iria gravar. Creed Taylor, o produtor, me telefonou um dia e perguntou a letra da música em inglês. Então me chamou no estúdio para mostrá-la ao Paul. Queria simplesmente ler a letra, mas o Creed me fez cantar. Quando acabei, o Paul entrou no estúdio, emocionado, adorando a gravação. O Edu não queria autorizar porque a música era inédita nos Estados Unidos. Mas oPaul insistia, ligava pra gente toda semana, aí o Edu só deixou que a música entrasse no disco se a história fosse contada na contracapa. Na gravação, parece que estou emocionada, mas não é nada disso... na verdade, não conseguia cantar no mesmo tom" - era muito grave para ela. É lindo.O registro original de "Wanda Vagamente" tem 12faixas. A maior parte delas, inédita, ou quase - coisas que a roda tocava. Vinícius de Morais deu de presente para ela uma parceria com Francis Hime, "Sem Mais Adeus" - questão de darforça para a menina, como Roberto Menescal conta no encarte do disco. Roberto Menescal era pai recentíssimo de Adriana, para quem compôs um tema em 5 por 4, compasso comum no jazz, incomumna música brasileira. "Adriana", a canção, que tem letra de Fernando Freire, de fato, faz lembrar as músicas de Dave Brubeck do tempo de "Take Five". Vinícius fez ainda "Só me Fez Bem", com Edu Lobo, no dizer de Menescal "o menino da turma da Wanda". Mais tarde, Edu gravaria "Só me Fez Bem" em dueto com Maria Bethânia. De Marcos Valle, Menescal e Wanda escolheram "E Vem o Sol", bossa vigorosa com letra de Paulo Sérgio Valle, irmão de Marcos; Wanda compôs com Nelson Motta o sincopado "Encontro" - é sua única participação autoral em Vagamente. Francis Hime, além da citada "Sem Mais Adeus", comparece com "Mar Azul", letra de João Vitório Maciel. De Tom Jobim, duas: "Vivo Sonhando", só dele, e "Inútil Paisagem", com Aloísio de Oliveira.Completando o repertório, "Tristeza de Nós Dois", deDurval Ferreira, Maurício Einhorn e Beteto, e "Tristeza de Amar de Luiz Roberto e Geraldo Vandré.Na retomada da carreira, Wanda tem feito belos discos, dos quais, infelizmente, se tem pouca notícia. Os mais novos marcam, um, encontro com Menescal e Marcos Valle, e outro, com o Bossa Três. Foi o último trabalho de Luís Carlos Vinhas.

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