Wagner Tiso de volta, com CD ao vivo

O maestro e compositor Wagner Tiso é um caldeirão de idéias. Engatilha projetos enquanto pensa em outros e realiza tudo com calma, como se cada um fosse único. Quando não viaja, trabalha no estúdio que fica no prédio onde mora, com a mulher Gisele (também sua produtora) e a filha Joana, uma bela morena com os traços do pai. O projeto mais novo é o disco Cenas Brasileiras, com músicas dele mesmo, Tom Jobim e Villa-Lobos, gravadas ao vivo com a Orquestra Petrobrás Pró-Música (OPPM), regida por Roberto Tibiriçá, em dois concertos no ano passado. O disco sai pela Biscoito Fino e, em agosto, eles partem para uma excursão por oito cidades do Nordeste. Sua música fica na fronteira entre o popular e o erudito e ele transita bem entre os dois, pois toca o primeiro para se manter, mas quase só ouve o segundo. "É um hábito de infância. Minha família é do Leste Europeu e em casa só tocava música instrumental. Dessa forma, me identifico com Tom Jobim e Radamés Gnatalli. Tal como Tom, fui pianista de boate e, como Radamés, fiz muito arranjo de música popular. Mas gosto da erudita e só não a componho porque não estudei o suficiente para isso."Cenas Brasileiras tem três partes. Primeiro, ele juntou seis temas antigos na suíte que dá nome ao disco em que os climas vão se sucedendo. Os arranjos são dele, com a grandiosidade e mineirice que inventou já nos primeiros discos de Milton Nascimento, seu companheiro de palco e estúdio desde a adolescência. De Jobim há Eu Sei Que Vou te Amar, num raro arranjo orquestral pedido pelo maestro Tibiriçá. Na apresentação do disco, o poeta Geraldo Carneiro inclui Wagner na descendência de Villa-Lobos e Tom Jobim. Modesto, ele fala da admiração e da influência dos dois. "Villa é uma fonte inesgotável. Compôs muito e deixou idéias fantásticas a se realizar. Há muita coisa inédita dele. Seu próximo será comparar a música brasileira e a norte-americana dos anos 50. "Com isso vou completar uma trilogia da música no século 20, iniciada com Debussy e Fauré, continuada com Villa e Tom e que termina com as origens do samba e do blues." Além desse disco, ele fará a direção musical de uma ópera rock baseada em lendas brasileiras, com músicas compostas por Gilberto Gil, Lenine, Alceu Valença e outros. Batalha pela criação de orquestras nas escolas públicas e pensa um disco de samba de mineiros, de Ary Barroso a Geraldo Pereira, sem esquecer Ataulfo Alves. Quase não sobra tempo para compor. "Só quando me encomendam alguma trilha, mas arranjo é um tipo de composição. Você muda uma coisa aqui, mexe na harmonia ali, dá uma melhorada mais adiante...", ensina o maestro. E o que ele melhorou em Villa-Lobos e Tom Jobim? "Nesses dois nada... (riso) pelo contrário! Fiz diferente, pode até ter ficado pior, mas fiz do meu jeito."

Agencia Estado,

19 de março de 2003 | 18h23

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