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Vulcão poético

Assim como você, tenho em meu radar uma fartura de momentos que daria tudo para ter presenciado, do beijo de Judas em Jesus ao inverossímil Grito do Ipiranga (um imperador que às margens de um corgo puxa a espada e solta um berro, depois de ler uma carta no lombo de um cavalo...) - e vários deles têm como protagonista o poeta Murilo Mendes. 

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

28 Julho 2015 | 02h00

A lembrança me vem talvez porque tenho vadiado gostosamente nos quatro livros, caprichadíssimos, com que a Cosac Naify iniciou o relançamento da obra do escritor mineiro. E tem mais dois no mês que entra, adianta o editor Milton Ohata. 

A viagem me trouxe de volta não só o autor como o personagem Murilo Mendes. Nem sempre escritores são também pessoas interessantes, e o poeta de Juiz de Fora, morto em 1975 aos 74 anos, juntava como poucos uma coisa e outra, sendo capaz de produzir, além de joias poéticas, todo um repertório de histórias divertidas - os tais momentos de que falei acima.

Eu queria ter estado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro na noite em que Murilo, sentindo-se desfeiteado pela execução medíocre de uma criação de Wolfgang Amadeus Mozart, figura máxima do seu panteão musical, abriu o guarda-chuva na plateia, em sinal de protesto. Manuel Bandeira, Otto Lara Resende e outros amigos não punham em dúvida o relato que Murilo fez de uma visita de Mozart (“vestia uma casaca azul”) ao quarto em que ele morava. Assim que soube da invasão de Salzburgo, berço do compositor, pelo exército nazista, mandou a Hitler um telegrama de protesto. Dava trabalho aos correios, aliás. Indignado com a ruindade de uma tradução, telegrafou ao tradutor: “Favor passar-me de volta para o francês pt Charles Baudelaire”. 

Uma vez, conta Eneida de Moraes, Murilo interrompeu a leitura que fazia um literato pretensioso: “Não! Isso não é poesia. O senhor não é poeta. Desculpe, mas não faça isso, não chame essa mixórdia de poema! Não admito!”. Outro episódio célebre se passou em 1932, durante a exposição do “Apartamento Moderno” que o arquiteto Warchavchik plantara no topo de um prédio na praia de Copacabana.

É ainda Eneida quem lembra: enquanto os visitantes eram guiados de cômodo em cômodo, Murilo começou a dar mostras de desagrado. “De repente, uma grande varanda envidraçada, e diante dela o mar. O mar, a praia de Copacabana, banhistas. Murilo pôs-se a gritar, fazendo clara sua raiva até então contida: ‘Mar! ó mar, só tu és nosso, de todos. Só tu, e eu te amo! Aqui dentro há veludos demais, cortinas demais. Só tu não tens cortinas nem veludos. Não deixa fulano te comprar, nem deixa o Warchavchik te invadir nem te decorar’.”

O vulcão Murilo Mendes era dado a súbitas erupções, apocalípticas ou jubilosas. Viu Otto Lara Resende e Fernando Sabino numa livraria e se pôs a bradar: “Vou para Minas! Viva Minas! Vou de férias! Viva a poesia! Viva Keats!”. Os jovens amigos puseram Murilo nos ombros e saíram para o fuzuê da rua. O poeta saudava a multidão e reverenciava o vate inglês. “Todos nos olhavam, atônitos”, registrou Sabino, “sem saber quem era esse Quites.” 

Murilo via poesia nas coisas mais inesperadas. Ligou do Rio para uma tia em Juiz de Fora, e a velha senhora, a quem contou um caso, exclamou: “Cáspite!”. O sobrinho não teve dúvida: tomou o trem para Juiz de Fora. Em Belo Horizonte, estacou diante de uma vitrina cheia de carretéis de linha colorida - e, eufórico, gritou para a balconista: “Parabéns pelos retroses!”. Numa rua de bairro, ao ver uma senhora na janela, caiu em transe poético: fazia tempo, discursou, que não se via “mulher na janela”. Para contemplar um céu especialmente belo, deitou-se no asfalto da avenida Rio Branco. 

Em 1934, na porta da igreja da Candelária, deu sua bênção ao cardeal Eugenio Pacelli, que cinco anos mais tarde se tornaria o papa Pio 12. Por que não? Se o cardeal abençoava todo mundo, tinha direito a retribuição... Nenhuma irreverência no seu gesto, pois meses antes se convertera ao catolicismo - bem à sua maneira: à beira do caixão do melhor amigo, o pintor Ismael Neri. 

Pedro Nava testemunhou a “conversão instantânea” de Murilo, que subitamente se pôs a falar para si mesmo, sussurrante, daí a pouco aos gritos. Do cemitério, seguiu para o Mosteiro de São Bento. “Quando, depois de três dias, ressurgiu para os homens, tinha deixado de ser o antigo iconoclasta, o homem desvairado, o poeta do poema-piada e o sectário de Marx e Lenine”, escreve Pedro Nava. “Sua poesia tornara-se mais pura.” 

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