Voz esculpida em noitadas, álcool e cigarros

Nelson Cavaquinho era um sujeito engraçado, cheio de histórias para contar. Algumas são famosas. Por exemplo, ele sonha que vai morrer em determinada hora e, quando ela vai se aproximando, toma a simples providência de atrasar o relógio. Ou a do tempo de militar, quando amarra o cavalo na frente de um botequim na Mangueira para tomar umas e outras com Cartola e demora-se tanto que o animal volta sozinho ao quartel.

Luiz Zanin Oricchio,

25 de outubro de 2011 | 21h00

Quem já teve a felicidade de ouvir essas histórias em mesa de bar, de viva voz, riu com seu autor. Mas não deixou de perceber o fundo de melancolia que havia em tudo isso e que Nelson, no correr da madrugada, não procurava disfarçar. Era um triste.

Só que tristeza, mal de amor, angústia diante da morte - nada disso faz um artista. Pode ser um ponto de partida e nada mais. É no conjunto formado pela letra, música, o estilo único de tocar violão e colocar a voz que Nelson forjou sua versão particular do samba trágico. Nele, a dor de cotovelo é elevada à enésima potência, como reflexo de uma visão sombria da própria existência.

Os versos, em parceria ou não, são expressos em linha melódica inesperada. A progressão harmônica contempla mudanças bruscas de tonalidade, como se esse mestre, sem qualquer educação formal, fosse um equilibrista das modulações.

O toque ao violão é rascante, próximo ao cavalete. E a voz é um prodígio pelo simples fato de ainda existir, esculpida em décadas de noitadas, cigarro e álcool. Como enumerar tantas obras-primas saídas de condições tão díspares: Luz Negra, Pranto de Poeta, Mulher sem Alma, A Flor e o Espinho, Folhas Secas, Juízo Final?

Que Nelson traduza a infelicidade de maneira tão genial e pungente de modo a nos fazer felizes com sua música é um dos mais desconcertantes paradoxos da grande arte.

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