Daniel Rocha
Daniel Rocha

Vovô Bebê lança 'Briga de Família', terceiro álbum da carreira

Artista da cena carioca conta que quer ser ouvido por um público maior

Renato Vieira, O Estado de S. Paulo

27 de fevereiro de 2020 | 07h00

De um tempo no qual as opiniões divergentes podem servir como combustível para conflitos em várias camadas da sociedade, Pedro Carneiro, o Vovô Bebê, tirou a inspiração para o novo disco. 

O dissenso, no entanto, não está presente apenas nas letras. Ao trabalhar com músicos de influências distintas, ele cria uma sonoridade plural e abrangente, indo do rock nervoso à música de câmara.

Briga de Família, terceiro álbum do artista, tem 13 faixas e é um retrato do convívio de Pedro, um dos principais nomes da cena alternativa carioca, com a banda que o acompanha em shows.

O disco também representa a vontade dele de ser ouvido por mais gente, reconhecendo que os álbuns antecessores, Vovô Bebê (2015) e Coração Cabeção (2017), tiveram um público restrito.

 


“Esse disco foi feito para se comunicar mais, ser uma coisa menos fechada. Quero trocar com os pares da minha época. Os meus dois primeiros discos as pessoas não ouviram porque não eram comunicativos”, afirma Pedro, que escolheu o rock Briga de Família como faixa-título por evocar a polarização atual em um ambiente onde confiança e intimidade estão presentes. 

O trabalho representa uma mudança de rota na trajetória de Pedro, que assumiu o nome artístico Vovô Bebê depois de uma história curiosa envolvendo o lançamento de seu primeiro disco. “Eu tinha um discurso de que estávamos numa época em que querem saber mais do artista do que da arte. Aí fiz a rede social do disco Vovô Bebê, não do Pedro”, conta ele. 

A partir daí, ele passou a ser chamado por quem se interessou pelo seu trabalho de Vovô Bebê.

Artista que vem se destacando na cena contemporânea, Ana Frango Elétrico participa ativamente de Briga de Família - Pedro tocou baixo no segundo álbum de Ana, o aclamado Little Electric Chicken Heart e participa de seus shows. “Quando eu a conheci nunca mais larguei, é uma pequena mestra que me ensina muito. E ela tem muito a ver com esse disco. Tenho 34 anos e tocar com ela deu uma renovada no meu trabalho”, explica Pedro.

Ele regravou com Ana Êxodo, uma das faixas de Coração Cabeção. Em apresentações, a canção ganhou novo arranjo que agora é registrado em disco. “Toda a onda do disco está presente nessa música”, conceitua Pedro sobre a canção que mistura guitarra, clarinete, trombone e efeitos. 

Conflitos e incompreensões guiam a lírica do disco. Em Sabidão Sabe Não, Pedro e Ana falam sobre as mudanças de percepção do mundo contemporâneo. “Ate outro dia eu pensava que eu não tinha mínima ideia de nada/ até comecei a pensar em parar de pensar”, diz a letra.

A letra de Aluno mostra a visão nada elogiosa de um estudante sobre seu professor. Pedro deixa claro que não concorda com a tensão entre mestre e aluno, mas afirma não poder negar que ela de fato existe. Em Polícia do Mundo, Pedro e Ana citam países que foram ocupados pelos Estados Unidos. Repleto de gírias cariocas, o reggae Saparada conta com a participação do compositor Luis Capucho e mostra a briga e a conciliação entre duas pessoas.

Em meio à confusão, há espaço para o deboche. Cancioneiro Fitness Espiritual é um compilado de dicas de saúde que culmina com a recomendação de que o ouvinte vá ao show e compre o disco - além de fazer um exercício de abdominal.

Pedro também procura a calmaria por meio de lembranças e perspectivas de um futuro melhor. Médios 30, que encerra o disco, foi inspirada em um homem que Pedro viu andando de bicicleta e achou parecido com um amigo da adolescência. Pedro muda os andamentos da faixa e evoca as marchas de outros carnavais.

Gravada com a participação de Luiza Brina, Jão Mininu é inspirada no filho de Brisa Marques, parceira de duas músicas incluídas em Briga de Família, F..... e Jeggae. Delicada, a faixa é definida por Pedro como “uma música sobre a reprogramação da masculinidade”.

Três músicas de Briga de Família contam com a palavra “tranquilão”. Pedro afirma que as citações não foram programadas. “Quando eu falo tranquilão é justamente porque não tem nada de tranquilão.” O conceito do disco se fecha em Good Vibe Bad Trip. “A gente é good vibe mas é meio bad trip.” Boa frase para definir um disco que, apesar de contestar as controvérsias, tem nelas sua matéria-prima.

Tudo o que sabemos sobre:
Ana Frango Elétricomúsica

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.