Vocais valorizam álbum de Fatboy Slim

A música eletrônica é cada vez mais um fruto da colaboração entre produtores e vocalistas. É a impressão que se tem com o novo álbum de Fatboy Slim, o aguardado Halfway Between the Gutter and the Stars, que acaba de chegar ao mercado internacional. O DJ e produtor que estourou em todo o mundo com o disco We´ve Come a Long Way, em 1998, se apoiou no carisma esquisito da voz de Macy Gray e no apelo incontestável de um sample de Jim Morrison para renovar sua música. O trabalho comprova o que muita gente já havia descoberto: ele é um dos mais versáteis alquimistas sonoros dos últimos tempos.Fatboy Slim, cujo nome verdadeiro é Norman Cook, era integrante de bandas pop inglesas variadas nos anos 80 e 90 quando teve a idéia de começar a misturar beats com músicas conhecidas para usar em seus sets como DJs de festas em clubes londrinos. O primeiro sinal de que ele dar certo foi justamente o talento para as tais misturas, como ficaria claro mais tarde, quando ele fez uma versão de seu Rockafella Skank com os vocais de Satisfaction, dos Rolling Stones.We´ve Come a Long Way surgiu assim, por acaso, e se tornou um fenômeno pop de proporções quase assustadoras nos Estados Unidos e Europa, conquistando primeiro as pistas de dança, depois as emissoras de rádio, passando para o cinema e a propaganda. Slim virou o maior astro da música inglesa em 1999 e o maior nome da música eletrônica mundial - um caminho que Moby demorou dez anos para percorrer. De quebra, ele ainda ajudou a impulsionar o bib beat, gênero do qual os Chemical Brothers eram os embaixadores.Enquanto com o trabalho passado ele se beneficiou pelo clima de novidade e da sede do mercado por um grande astro da música eletrônica, desta vez os críticos já estavam com o nariz torcido e sua missão era provar que existe dignidade no mainstream. "Passei um mês pensando em como eu não queria que esse disco soasse", diz o produtor. "E vários meses tentando descobrir o que queria fazer."A absoluta falta de princípios e reservas de Slim é, na verdade, sua maior arma. Ao não estar associado com determinado som e não sentir a obrigação de se manter em determinada cena, ele se sente livre para atirar em várias direções - acertando boa parte das tentativas. O álbum tem big beat, house, funk, blues, ambient e tech-house, mas o que realmente faz a diferença são os vocais, coisa que não acontecia em We´ve Come a Long Way.Assim como os samples de soul music do início do século salvaram Moby da mesmice, Madonna fez de William Orbit um nome reconhecido e Bernard Sumner, do New Order, temperou o último trabalho do Chemical Brothers, as vozes em Gutter fazem muita diferença. Má notícia para o mundo da electronica.O álbum começa com a faixa Talking Bout My Baby, na verdade uma espécie de vinheta com base de piano e guitarra com wah-wah, construída em cima de Macon Hamborne Blues, gravada por Wet Willie, um bom aquecimento para a Star 69, um tech-house bobo, que tem tudo para emplacar em pistas desavisadas.Sunset (Bird of Prey), o primeiro single, é uma adaptação de Bird of Prey, que apareceu no disco de poesias de Jim Morrison American Prayer. A voz do cantor aparece soturna (e curiosamente parecida com a de Bono Vox) na base atmosférica que Slim havia produzido havia vários anos. A primeira faixa que tem Macy Gray, o funk Love Life, parece uma faixa de Macy Gray. A música é contagiante e parece um remix eletrônico da mistura de hip hop e soul que a cantora vem fazendo com sua banda. "Foi a primeira música que gravamos e foi quando achei o coração do trabalho", diz Slim. "Depois disso, tudo se encaixou."Gray também é responsável pela música que vale o preço do disco, Demons, que ela considera seu melhor trabalho até hoje. A balada funkeada explora bem a potência vocal da cantora (uma espécie de Janis Joplin com Neneh Cherry) e faz uso criativo dos elementos da electronica. Outros bons momentos são Weapon of Choice, que tem a participação do baixista do P-Funk All Stars, Bootsy Collins, e as boas faixas house Song for Shelter e Retox (é pena ele não ter explorado ainda mais o gênero, que é onde parece estar a criatividade da electronica no momento). O resto são bobagens para garantir o amor de mauricinhos neo-clubbers ao redor do mundo. Mas não se deixe abalar: Fatboy Slim ainda não está produzindo remixes para Jennifer Lopez ou Janet Jackson.

Agencia Estado,

16 de novembro de 2000 | 15h53

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