Todd Heisler/The New York Times
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Vittorio Grigolo abre série com grandes cantores líricos

A série vai trazer ao Brasil, até 2021, cantores como Michael Fabiano (já em agosto), Sondra Radvanovsky, Kristine Opolais e Jonas Kaufmann, entre muitos outros

João Luiz Sampaio, especial para O Estado

06 de julho de 2019 | 03h00

Não são necessários mais do que alguns compassos para que o tenor Vittorio Grigolo suba correndo ao palco da Sala Mário Tavares e interrompa a mezzo soprano Lara Cavalcanti, que começava a interpretar a ária da ópera La Favorita, de Donizetti. “Olhe para mim”, ele diz. “Esqueça Donizetti, esqueça! Eu quero saber o que você tem a dizer, o que você pode contar para essas pessoas na plateia. O que você sente!”

Aos 42 anos, Grigolo é hoje um dos grandes tenores da atualidade. Corre o mundo se apresentando nos principais teatros do mundo, como o Metropolitan de Nova York ou o Covent Garden de Londres. Abre amanhã a série Grandes Vozes do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, cantando com a orquestra do teatro regida por Ira Levin – e, na última quarta-feira, ofereceu uma master class a jovens cantores brasileiros. A série vai trazer ao Brasil, até 2021, cantores como Michael Fabiano (já em agosto), Sondra Radvanovsky, Kristine Opolais e Jonas Kaufmann, entre muitos outros.

A aula faz parte do conceito do projeto, que conta com curadoria de Ilia Tzempetonidis, diretor de elenco da Ópera de Paris: não se trata apenas de oferecer concertos com grandes cantores da atualidade. “Há uma preocupação em permitir que a presença desses artistas crie uma ligação com a comunidade. A cada concerto, 300 crianças de escolas públicas municipais do Rio de Janeiro vão acompanhar as apresentações e a expectativa é de que a música desperte neles o interesse de participar de programas como o Orquesrta nas Escolas”, diz Tzempetonidis. Da mesma forma, as master classes vão propiciar a oportunidade de revelar talentos brasileiros que possam seguir para o exterior para continuar seus estudos.

De volta à Sala Mario Tavares, localizada no prédio anexo ao Municipal do Rio, Grigolo segue orientando os cantores. A um tenor, ele diz. “Verdi e Puccini não estão mais entre nós, mas você e seu instrumento estão. O que você tem a me dizer com sua voz?”. A outro, ele pede que lhe dê um soco, “como em uma luta de boxe”, para treinar a “agilidade”. De um cantor, ele tira o paletó e abre os botões da camisa. “O palco é seu, relaxa, solte-se”. Com outro, que escolhe cantar a ária Una furtiva lacrima, que fez a fama do italiano, ele brinca. “Esse é corajoso”.

Mais tarde, em seu camarim no teatro, em entrevista ao Estado, Grigolo fala sobre o balanço delicado entre o que pede a partitura de um compositor e aquilo que individual que um cantor pode oferecer ao público. “Precisamos respeitar o que está escrito, claro. Mas há variáveis, que fazem de nós humanos. O que temos de mais belo é o misterioso. Deus nos deu o livre arbítrio, a possibilidade de escolher. Para ir do ponto A para o ponto B, posso escolher o caminho a tomar. E esse é o trabalho do intérprete, fazer estas escolhas, encontrar as cores de um ponto a outro na partitura.”

Para Grigolo, essa busca por uma voz individual é o que define um artista. “É como em um filme de artes marciais que assisti. O jovem aprendiz pede ao mestre que lhe ensine os movimentos mais difíceis e ousados. O mestre então começa a lhe servir chá e, quando a xícara está cheia, continua, derrubando todo o líquido. O aluno pergunta: o senhor não viu que já encheu? E o mestre responde: essa é a questão. Se a xícara está cheia, não há o que fazer. Para trabalharmos, é preciso esvaziarmos a xícara e começarmos do zero. Criar uma personalidade própria.”

A personalidade de Grigolo está bastante associada aos repertórios italiano e francês. Ele os vê como bastante diferentes. “A ópera italiana é mais sangue, mais direta, enfática. A ópera francesa lida com o controle da emoção, mas com energia”. Ele se diz confortável com esse repertório e conta que é preciso saber escolher o que cantar – e dizer não à pressão de teatros, maestros e diretores. “Franco Zeffirelli, por exemplo, insistiu para que eu cantasse La Traviata em 2003, mas eu não estava pronto e tive que dizer ‘ainda não’”, ele explica. Mas faz uma ressalva. “É preciso em alguns momentos correr riscos. O artista que não se renova é um artista morto. Gosto de novos desafios, fronteiras. Sou um homem de descobertas.”

O cantor pertence a uma geração para a qual gravações em estúdio não são mais rotineiras – ele tem apenas um CD, dedicado a árias italianas. Mas suas atuações no palco tem sido registradas em DVD de óperas como La Bohème, de Puccini, Os Contos de Hoffman, de Offenbach, ou Rigoletto, de Verdi. “Não sinto falta do estúdio”, ele diz. “A ópera de verdade é a ópera ao vivo. Em estúdio, você pode repetir, buscar a perfeição. Mas ópera não é repetição. É o momento, no palco.”

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