Vitor Ramil traz a SP sua estética do frio

Durante uma temporada de quatro semanas no teatro Crowne Plaza, com shows às sexta-feiras, o primeiro deles amanhã, o compositor e violonista Vitor Ramil, do Rio Grande do Sul, mostra a riqueza da sua estética do frio. O conceito musical foi criado no disco Ramilonga. A síntese da estética, porém, encontra-se no segundo disco da série, Tambong, álbum repleto de bonitas canções, a ser lançado em São Paulo durante a temporada do compositor.A estética do frio, além de ser música popular brasileira de primeira linha, põe em evidência uma insatisfação com a centralização da produção cultural concentrada no eixo São Paulo-Rio-Bahia. Vitor Ramil contesta essa concentração e mostra uma outra face da música popular. Contesta pensando nos produtos exportado por cada um daqueles estados, nos últimos anos: os engodos do neopagode (e neosertanejo), o funk carioca e a axé music. Lógico, a existência dessas modalidade musicais não seria tão especialmente ruim se não houvesse a hegemonia delas. Enfim, a conhecida conversa da indústria fonográfica e de poder. Ramil resolveu modificar a equação e criou artifícios para sair do eixo e, conseqüentemente, das amarras da indústria. Desde 1997, lança seus discos por seu selo independente Satolep Music usando a Internet, e chegando ao mercado de língua hispânica.O manifesto contra a exclusão, que pretende redesenhar o mapa dos centros produtores, só faz sentido porque a música de Vitor Ramil é boa e singular. E seus motivos para fazê-la e justificá-la são interessantes. "Quando comecei a ser independente, divulgando meus discos pela Internet, senti-me ainda mais estimulado para construir minha obra desvinculada de prazos de validade", diz. "Não tenho a preocupação de fazer um disco para ser esgotado num período determinado, como ocorre com o artista que precisa gravar um por ano, embora eu tenha uma produção constante. O meio de divulgação também influenciou o meu trabalho."O estalo para a definição da estética do frio, com seu o caminho alternativo ao das grandes gravadoras, deu-se com Ramilonga, de 1997. "Nesse disco, eu parti do norte de que o chão da música tinha de ser a milonga. A partir disso, eu criaria. Mas descobri, prestando atenção nessa essência sonora típica do Rio Grande do Sul, que há muita música interessante, de outros polos, do rock à música da fronteira, e que era necessária uma linguagem unificadora, já que tudo está muito segmentado. Eu me propus a fazer isso, a sintetizar", conta. "Sei que é um ideal pretensioso e utópico, mas, de certa forma, concentrei todas essas linguagens, coisas de outros lugares, num outro eixo, o meu."Tambong, lançado oficialmente em setembro no mercado hispânico (Argentina, Chile e Uruguai, com versões em espanhol e português), não nasceu no "centro-Rio Grande do Sul". Foi feito em Buenos Aires, onde Ramil já tem público, parceiros e admiradores fiéis - incluem-se nomes como o de Mercedes Sosa. O centro oscilou, mas temporariamente, por causa da produção do disco, feita em parceria com um músico argentino, Pedro Aznar.O chão da música: os violões. Mas há uma variação de cordas, de acordo com os arranjos e a poética nada fria, que comprova o quanto Ramil sintetizou tendências. Quem tem paixão por violão, fica satisfeito com sua linguagem. Com Aznar (que toca baixo acústico, guitarra, acordeão), o trabalho estaria completo. Mas há outros agregados, que juntaram-se aos dois em Buenos Aires. Entre os participantes da estética do frio estão o percussionista, fundamental em Tambong, Santiago Vazquez; Lenine, que toca violão e canta na belíssima versão de Gotta Serve Somebody, de Bob Dylan; e o pianista Egberto Gismonti, na música Foi no Mês que Vem."Tambong" tem ainda um poema inédito de Paulo Leminski "O Velho León e Natália em Coyoacán", musicado por Ramil. Para os shows na cidade, ele conta com a participação de Chico César (que fez vocalises na canção "A Ilusão da Casa", do novo disco) e Zeca Baleiro.Vitor Ramil - Amanhã, às 21 horas. R$ 15,00. Teatro Crowne Plaza. Rua Frei Caneca, 1.360, tel. 289-0985. Até 1.º/6.

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