Virtuosismo e beleza em concerto da Osesp

Flautista Emmanuel Pahud surpreendeu plateia com bis pouco usual, interpretando, com a orquestra, peça de Tchaikovski

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S. Paulo

30 de maio de 2014 | 16h13

Não me lembro de outro concerto em que o bis concedido pelo solista não tenha sido uma curta apresentação-solo. Às vezes, ocorre de solista e orquestra repetirem o movimento mais aplaudido. Anteontem na Sala São Paulo, a performance fulgurante de Emmanuel Pahud no concerto para flauta de Dalbavie foi saudada com aplausos apenas protocolares, só multiplicados na ânsia por um extra convencional. O presente foi esplêndido, do ponto de vista do público: uma transcrição para flauta e orquestra da famosa (e romanticamente melosa) ária de Lenski, da ópera Eugene Onegin, de Tchaikovski. Nela, Lenski prepara-se para duelar com o personagem-título. Sabe que provavelmente vai morrer, mas só lamenta não ver mais sua amada Olga. Aí sim, os aplausos foram torrenciais, o público de pé.

Ora, por que não colocar no programa a ária de Lenski? A curta Catalonia, de Albéniz, que abriu o concerto, tem jeitão de extra, e constava. Mesmo assim, encaixar o excelente concerto de Dalbavie entre dois extras sob medida para fisgar o publico é o mesmo que induzi-lo a lamentar que não houvesse mais árias de Lenski no concerto. Este foi o tema geral dos comentários no intervalo.

Vamos ao concerto. Pahud é um músico extraordinário. E o regente espanhol Jaime Martín caiu nas graças da orquestra. Ex-flautista de longa carreira, voltou-se para a regência na última década. E se dá bem no pódio. Numa obra em que a transparência da instrumentação “mozartiana” expõe demais a orquestra, ele a conduziu com o refinamento necessário para a flauta notável de Pahud se integrar ao delicado tecido sinfônico concebido por Dalbavie, ex-aluno de Michel Philippot, Donatoni, Murail e Boulez.

Titular de orquestração no Conservatório de Paris desde 1996, sua escrita evoca Debussy pela beleza. Mas o que mais atrai na obra é a busca da ressonância em tom camerístico e o sutilíssimo brilho instrumental. Apesar de dizer que não persegue a virtuosidade, ela é essencial neste concerto, assim como a busca da beleza. Sim, uma beleza etérea, interessantíssima.

Beleza e perícia memorável na orquestração foram duas características-chaves de Tchaikovsky. Manfred, a mais longa de suas sinfonias, é ao mesmo tempo “uma aula de instrumentação”, como costumava dizer Shostakovich, e música que persegue a beleza trágica do herói de Byron. Desequilibrada na forma, sua música, aliás, é sempre de programa. Ter à mão o roteiro que Balakirev lhe deu provocando-o a compor a obra teria ajudado o público a entender melhor a trama. Martín, de 48 anos, saiu-se bem. 

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