José Patricio/Estadão
José Patricio/Estadão

Virada no centro perde potencial artístico e recebe público menor

Sem grandes concentrações de público, evento valoriza tributos e releituras; deslocamento entre os palcos foi melhor

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

21 Maio 2017 | 16h54

Ao reduzir o perímetro da Virada no centro, a gestão Doria mudou o perfil da festa. Sem shows de artistas com maior poder de atração de massas, que ocorriam principalmente no Palco Julio Prestes, a festa recebeu um público visivelmente menor do que em outras edições, talvez o menor de seu histórico, uma nova realidade que provoca efeitos colaterais positivos e negativos na data que é, ao lado da Parada Gay, a maior do calendário cultural na Cidade.

Sem shows maiores, houve um esvaziamento artístico na programação, com a substituição de nomes de abrangência ou relevância por artistas e projetos sobretudo focados em releituras de outros trabalhos.

A Virada virou por muitos momentos uma grande festa cover, elegendo como novo palco principal o Boulevart São João, também conhecido como o palco dos tributos, com shows celebrando a obra de Tim Maia Racional por Jair Oliveira, Carlos Dafé e Lincoln Tornado, filho de Toni; Filipe Catto cantando Cassia Eller na fria e molhada manhã de domingo; e Silvério Pessoa lembrando Jackson do Pandeiro.

Mesmo em outros espaços, o tom foi de revival, com o ótimo grupo do baixista Thiago Do Espirito Santo, no palco Arouche (que trocou o brega pelo jazz) tocando temas do conjunto Weather Report. A Banda Black Rio também deixou de lado o repertório de seus discos dos anos 70 e apostou em músicas de Djavan e Tim Maia.

O som, talvez orientado para um público menor, foi dos piores no histórico das Viradas. No palco dos musicais, houve atraso de uma hora e meia para o início da montagem de Gota D'água por causa de falhas no som. E, mesmo depois dos ajustes, o espetáculo foi seriamente comprometido pela falta de condições técnicas. Uma falha de logística impediu a apresentação dos DJs no coreto da Bolsa se Valores. O palco, segundo os produtores da festa Talco Bells, não havia sido montado com a estrutura e os equipamentos combinados.

O pequeno palco das Big Bands, na República, também maltratou ou artistas renomados que ocupavam formações de, em média, 15 pessoas. O som do piano e do baixo pareciam sair de uma lata. 

Não deu para entender o que a Prefeitura chamou de tablado ao anunciar as mudanças. Alguns palcos tinham as mesmas dimensões do que em outros anos, como o República, da Soul Music. Outros foram seriamente diminuídos. Um dos maiores pecados foi o descaso com a ótima ideia de se destinar um espaço para sons do mundo no palco Refugiados e Imigrantes, na Rua Direita.

Com uma programação vibrante, como os cubanos incendiários do Batanga e Cia, o espaço era pequeno e o som, sofrível. 

A politização da plateia e dos músicos, embora de menor intensidade do que o esperado, marcou vários shows. No tributo a Tim Maia, o público pressionou Lincoln Tornado até que ele dissesse "fora Temer". No show de Di Melo, na República, pessoas empunhavam os cartazes mais vistos na Virada: "Doria mente" e "#querovotar. Diretas Já!". No intervalo do palco dos musicais, um jovem instigou a plateia do Vale do Anhangabaú regendo um fora Temer do alto do Viaduto do Chá.

As novidades do cortejo, um trio elétrico que circulava seguido pelo público, e a do espaço de circo com três palcos no Largo do Paiçandu, foram bem aceitos. E o espaço do karaoke foi um sucesso ininterrupto na Avenida São João. Na manhã de domingo, por volta das 9h, havia mais público ali do que as oito pessoas que assistiam à big band Ensemble Brasileiro. 

A redução do perímetro, que excluiu o distante Julio Prestes, proporcionou um deslocamento melhor e mais rápido para quem foi ao Centro. A segurança nos pontos visitados pela reportagem era intensa e zonas delicadas, como a Praça da República, estavam muito bem iluminadas. 

Ao mudar o foco da festa, a Virada perdeu valor artístico e atraiu menos público. A tese na qual a Prefeitura se amparou para fazer as mudanças, de que agora atrairia um público menos interessado em shows e mais em curtir a Cidade, deveria ser alvo de uma pesquisa durante a Virada.

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