JOSE PATRICIO/ ESTADÃO CONTEÚDO
JOSE PATRICIO/ ESTADÃO CONTEÚDO

Virada Cultural sente mudanças e sofre esvaziamento

Shows no Anhembi e atrações no Autódromo de Interlagos têm baixo público; Prefeitura não reconhece adesão menor no centro e diz que vai seguir com o evento nos mesmos moldes em 2018

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

21 Maio 2017 | 21h52

Ao responder à pergunta do Estado durante a coletiva de imprensa que anunciou a Virada Cultural de 2017, o responsável pela curadoria, o ator Hugo Possolo, se mostrou irritado ao ouvir do repórter se a organização estaria preparada para enfrentar um ano de público menor no centro, já que as atrações maiores não estariam mais presentes e os palcos seriam trocados por tablados. “Curioso como você já está decretando que a Virada vai ter um público menor. Ninguém faz curadoria para não ter público.”

Anunciada na mesma coletiva em tom de orgulho pelo presidente da SPTuris, David Barioni, como a data mais importante do calendário cultural da Cidade, ao lado da Parada LGBT, capaz de atrair mais de 4,5 milhões de pessoas no último ano, a Virada sentiu o golpe e esvaziou. Mesmo sem a divulgação dos números oficiais, prevista para esta segunda (22), a adesão era visivelmente mais tímida do que em anos anteriores.

Na coletiva realizada na noite de domingo, o secretário de Cultura, André Sturm, não admitiu que houve público menor e disse que vai aguardar os números oficiais. Sobre a pouca adesão no Autódromo de Interlagos, culpou a chuva. “Se eu tivesse filho pequeno, eu não levaria para Interlagos, levaria para um cinema, um teatro ou em lugares fechados. Entre levar o filho ao shopping para comer um Bob’s e assistir a um cinema e ir para o autódromo aberto, com chuva, levaria ao shopping.” Ele admitiu, porém, que algo deu errado no Anhembi, para onde deslocou os grandes shows, como o de Daniela Mercury. O público esperado, de 30 mil pessoas, acabou sendo de oito mil no sábado.

Muitos artistas que participaram do evento reclamaram da produção. “Esta é a pior organização que já vimos em 26 anos de carreira”, escreveu a banda Dead Fish em suas redes sociais. O pianista Vitor Araújo, que tocou no palco Instrumental, escreveu que não lhe foram dadas “as mínimas e mais básicas condições para realizar o show na Virada Cultural.” Mano Brown cancelou sua apresentação, marcada para o Centro Cultural Palhaço Carequinha, no Grajaú. Em sua página do Facebook, escreveu: “... Na sexta, por falta de organização interna do evento, a Virada não conseguiu entregar a estrutura mínima necessária para o show de uma banda de mais de 13 músicos. Se tudo estivesse pronto na sexta daria certo. Mesmo com a produção do artista cortando mais de 40% das exigências para o show e com todos cientes da complexidade que existia para realização do mesmo, não conseguimos evitar o cancelamento.”

Um documento com rubrica do Ministério Público de São Paulo distribuído nos camarins do evento trazia uma advertência aos artistas para que não se manifestassem politicamente: “Considerando que os eventos são integralmente custeados pelo Poder Público, deve prevalecer o princípio da impessoalidade quanto a manifestações político partidárias para benefício ou em detrimento de qualquer pessoa pública.” Sturm disse que a decisão do MP não teve a ver com a Prefeitura, e que a organização da Virada apenas reproduziu e distribuiu o documento.

O som, orientado para um público menor, foi dos piores no histórico das Viradas. No palco dos musicais, houve atraso de uma hora e meia para o início da montagem de Gota D'água por causa de falhas. E, mesmo depois dos ajustes, o espetáculo foi seriamente comprometido. Uma falha de logística impediu a apresentação dos DJs no coreto da Bolsa se Valores. O palco, segundo os produtores da festa Talco Bells, não havia sido montado com a estrutura e os equipamentos combinados.

O tablado das Big Bands maltratou artistas renomados que ocupavam formações de, em média, 15 pessoas espremidas. O som do piano e do baixo pareciam sair de uma lata. Outro pecado foi o descaso com o espaço para a música do mundo no palco (ou seria um tablado?) chamado Refugiados e Imigrantes, na Rua Direita. Uma formação de cubanos incendiários, o Batanga e Cia, venceu porque sua música era bem maior do que respeito que a Virada lhe destinou.

Mesmo com a orientação do Ministério Público, a politização marcou vários shows. No tributo a Tim Maia, o público pressionou o cantor Lincoln Tornado até que ele dissesse “Fora, Temer”. Pessoas empunhavam os cartazes mais vistos na Virada: “Doria mente” e “#querovotar. Diretas Já!”. Artistas como as cantoras do Cabaré Queer, Filipe Catto e Fernanda Takai pediram eleições diretas e a retirada de Michel Temer. Daniela Mercury pediu por renúncia. No intervalo do palco dos musicais, um jovem instigou a plateia do Vale do Anhangabaú regendo um ‘Fora, Temer’ do alto do Viaduto do Chá. André Sturm informou que vai repetir a Virada no ano que vem nos mesmos moldes.  

Colaboraram Guilherme Sobota, João Paulo Carvalho e Luiz Fernando Toledo

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