Violonista Alessandro Penezzi se entrega à sonoridade limpa

Músico de Piracicaba atinge a maturidade em 'Sentindo', seu terceiro disco-solo, inspirado na dor da separação

Francisco Quinteiro Pires, de O Estado de S. Paulo,

04 Dezembro 2008 | 20h56

Alessandro Penezzi não é masoquista, mas sabe o quão bendita é uma dor. Quando a maturidade bateu à porta, ele abriu. Na verdade, o amadurecimento entrou ao mesmo tempo por duas portas, a profissional e a pessoal. O resultado é Sentindo, gravado por um violonista que vivia a fossa da separação e colocou a técnica a serviço da interpretação nas 12 músicas do CD.  Veja também:Ouça Saudades do Raphael    Ouça Quando Me Lembro     "O modo como se interpreta pode resultar noutra música", diz. É mais um daqueles casos que a arte explica – a beleza nasce da tristeza. "Minha depressão elevou a autocrítica ao último grau, as gravações só me aborreciam."Alessandro Penezzi percebeu que o amadurecimento, embora um processo comum a todos, apresenta elementos únicos para cada indivíduo. "Por isso Sentindo é o meu disco mais camerístico e autoral, que tem um violão bem solista", diz. "A escolha e a execução do repertório são o meu estado de espírito, daí a sonoridade ser a mais depurada, pois o meu som é naturalmente sujo", diz o violonista, nascido em Piracicaba em 1974. (Nessa cidade, teve como professor o violonista Sérgio Belluco, a quem dedicou uma suíte – o segundo movimento é uma valsa, Sentindo, que dá nome ao disco.)Ele diz que essa limpeza sonora não aparece em outros discos-solo do violonista – Alessandro Penezzi, em que Beth Carvalho canta, e Abismo de Rosas, "que tem um lado teatral no roteiro" e a presença de um regional. Das 12 músicas de Sentindo, 7 são tocadas só pelo violão 6 cordas de Penezzi e 9 são composições dele. Em 5 – Delírio Brito!, O Bicho da Capela, Choro para Criança, Pititi e Café Pelando –, todas de sua autoria, Penezzi toca com Sizão Machado (contrabaixo acústico) e Alex Buck (bateria). Penezzi gravou a valsa Sinuosa, de Maurício Carrilho, "mestre de melodias". Abriu espaço para o bandolinista Luperce de Miranda na valsa Quando Me Lembro. "Ela é lírica, mas com o arranjo que pensei para violão ficou bem inusitada." Com Luperce, um ás da velocidade, surge a questão da técnica que, empregada em excesso, faz o violonista perder a mão. "Velocidade é coisa viciante, é como dirigir um carro, se tem uma reta, você pisa no acelerador, mas logo depois vem a curva...", diz. "Laércio de Freitas me dizia para ter cuidado porque, em certas músicas, a curva vem antes da placa", continua Penezzi, que gravou o CD Laércio de Freitas Homenageia Jacob do Bandolim com o pianista. "Com o Jacob aprendi a eterna busca do equilíbrio, sem perder a possibilidade de fazer a frase rápida, pois a velocidade é uma ferramenta e não um fim." Nas aulas de violão, o professor Penezzi se oferece como exemplo do violonista que "colocava coisas demais na hora de tocar, quando era jovem". Formado em violão clássico pela Unicamp, Penezzi se diz "chorão de corpo e alma" e tem como mestres Baden Powell e Raphael Rabello. É por causa de Rabello que a música Todo Sentimento (Chico Buarque e Cristóvão Bastos), gravada pelo violonista e por Elizeth Cardoso no disco de mesmo nome, de 1991, aparece em Sentindo. Com o violão 7 cordas de Rabello, a quem dedicou Saudades do Raphael, Penezzi aprendeu "que toda frase é uma lição, por isso o escuto exaustivamente". Com o 6 cordas de Baden, considerado um violão macho, aprendeu a "fazer musculação." "Me identifico com a pegada percussiva do Baden, que tem força, mas sutileza, porque sempre toquei forte." Às terças, no Ó do Borogodó (tel.: 3814-4087), ele toca com o grupo Choro Rasgado e a sambista D. Inah. Ali se exercita como acompanhante e segue outra lição de Baden: a de deixar o solista tranqüilo. "Embora coadjuvante, o acompanhante carrega o andor, colocando-se no espaço que deixam." Maturidade é isso – o cara descobrir o lugar que lhe cabe no mundo.

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