Violino é estrela de concerto em SP

Um passageiro ilustre, vindo deCremona, na Itália, desembarcou hoje pela manhã no AeroportoInternacional de Guarulhos, em São Paulo, para uma estadiarápida pela cidade. Cercado de seguranças da empresa Brinks, nãose sabe para onde ele foi após a chegada ao Brasil, o lugar estásendo mantido em segredo. Sabe-se, porém, que amanhã àtarde segue para a Sala São Paulo, onde participa de um concertogratuito em homenagem ao centenário da Câmara Ítalo-Brasileirade Comércio e Indústria de São Paulo. Lá, será mantido em umcamarim especial até a hora do início da apresentação.Poderia ser uma nova estrela do cenário musical, talvezuma cantora de ópera beirando a neurose, preocupada com que suavoz se mantenha intacta - coisas assim existem. Mas não.Trata-se de um violino, ou melhor, do violino Il Cremonense 1715, nada mais nada menos que a obra-prima do italiano AntonioStradivari. Orçado em aproximadamente US$ 4 milhões, oinstrumento será empunhado na apresentação por Antonio deLorenzi. Conterrâneo do violino, Lorenzi é o spalla da Cameratadi Cremona, que se apresenta na Sala São Paulo sob regência deMarco Fracassi, seu diretor.Nobreza - O Cremonense 1715 tem uma trajetória nobre.Surgiu das mãos de Stradivari no momento em que ele,contemporâneo de outros lutiers como Guarnieri, abriu suaprópria oficina, no início do século 18. Ficou na cidade poralgumas décadas e acabou, no fim do século 19, em Paris,propriedade de Darius Gras. Depois da sua morte, o violino foivendido ao músico Jules Garcin.Três anos depois, foi vendido ao comerciante DavidLaurie que, por sua vez, anos mais tarde o vendeu a um músicoamador, M. Labitte di Rheims. Em 1889, ele foi comprado para serdado ao lendário violinista Joseph Joachim, por ocasião de seujubileu. Antes de morrer, Joachim deu o instrumento a seusobrinho, que o vendeu a R.E. Brandt. Só voltou à sua cidadenatal há alguns anos, quando a prefeitura de Cremona, paraadquiri-lo, gastou metade de sua verba anual destinada àcultura. Lá, ele é estudado e utilizado, mesmo que apenas emocasiões especiais, em algumas apresentações.Todo o esquema de segurança montado para a vinda doviolino a São Paulo pode parecer, mas está longe de ser exagero.Com quase 300 anos, o Cremonense 1715, como outros instrumentosde madeira, ganham qualidade com o tempo. Além disso,especialistas o apontam como o mais perfeito em detalhes comoespessura já feito por Stradivari. Ou seja: uma jóiapreciosíssima, alvo tentador de interessados em comercializá-lono mercado negro de instrumentos.Isaac Stern - Que o diga o violinista russo Boris Belkinque, certa vez, perdeu em Paris um violino menos importante queesse, pertencente a Isaac Stern. Ele conta que descia do táxi e,ao virar-se para a fachada do hotel, pôde ouvir o carro saindoem alta velocidade, com o violino dentro, claro. Foi necessáriaa colaboração de um negociador de instrumentos roubados paraconseguir rastrear o violino, encontrado horas antes do concertoque Belkin daria na capital francesa. "Um alívio", disse elecerta vez "Imagine eu, começando na carreira, dizendo aogrande Isaac Stern que o violino que ele tão gentilmente meemprestara, para minha estréia em Paris, havia desaparecido!"Na apresentação de amanhã, que já está com lotaçãoesgotada, a Camerata di Cremona vai interpretar um programabastante eclético. Começa com um concerto para violino eorquestra, de Vivaldi. Segue com um concerto para oboé eorquestra de Marcello, um concerto para trompa e orquestra deTorelli, e uma serenata de Elgar. Na segunda parte, ópera,italiana, evidentemente: a primeira cena do Elixir do Amor, deDonizetti; trechos da Cavalleria Rusticana, de Mascagni; e daópera I Lombardi, de Verdi. Também de Verdi, o coro Va Pensiero, da ópera Nabucco, que encerra o programa.Camerata Di Cremona. Sexta, às 20h30. Grátis. Sala SãoPaulo. Praça Júlio Prestes, s/n.º, tel. 3337-5414.

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