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Violinista Luíz Fílip está pronto para voos ainda mais altos

Aos 30 anos, brasileiro da Filarmônica de Berlim oferece leitura ímpar de Shostakovich na Sala São Paulo

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S. Paulo

26 de julho de 2014 | 02h00

Os aplausos incessantes não conseguiram arrancar um bis do solista do concerto nº 1 para violino e orquestra de Shostakovich. Também pudera, a obra exigiu tanto dele que um extra era impensável naquele momento. O violinista paulista Luíz Fílip – assim mesmo, com estes acentos esquisitos – saboreou intensamente o seu triunfo pessoal e artístico na Sala São Paulo, na quinta-feira, 24, à noite. Colaborou de modo decisivo a condução envolvente, segura e sempre flexível da regente finlandesa Susanna Mälkki, de 45 anos, à frente da Osesp.

Luíz Fílip nasceu Luiz Filipe Coelho mesmo, em São Paulo, 30 anos atrás. Desde 2001 radicado na Europa, integra hoje a Filarmônica de Berlim – e, de tanto os colegas o chamarem de Fílip, adotou a forma. A primeira parte foi dedicada a Shostakovich. A abertura festiva funcionou como “warm up” para o concerto. O sombrio Notturno inicial contrasta com o buliçoso scherzo, cujo tema alegre é citado nos movimentos seguintes, de tintura trágica. A extrema condensação de estrutura complica muito a vida do solista: cordas duplas, harmônicos, exploração da região mais aguda do violino, vertiginosas corredeiras – até David Oistrakh, que o estreou em 1955, reclamou das dificuldades. Fílip, à vontade nesta partitura dificílima, está destinado a alçar voos bem mais altos do que os já elevados conquistados em sua curta carreira. 

Depois do intervalo, Susanna mostrou nos Quadros de Uma Exposição que músicos e regentes dedicados à prática da música contemporânea (ela foi regente do Ensemble InterContemporain por dez anos) fogem do piloto automático. Sempre alertas, extraem de obras arquiconhecidas novos matizes, iluminando-as. Seus movimentos são amplos, mas sempre fluentes e claros. Dá atenção a cada uma das dúzias de achados geniais de Ravel.

Toda vez que ouço uma de suas obras sinfônicas me pergunto como ele opera este milagre de instrumentação e orquestração. Ravel responde: “Instrumentação é quando, a partir da música que você mesmo ou um terceiro escreveu, você encontra o tipo de instrumento adequado – uma parte com oboé, outra com violino, outra com violoncelo. Tudo se complementa bem e o som é bom, mas paramos por aí. A orquestração acontece quando colocamos sentimento nos dois pedais do piano, isto é, quando crio uma atmosfera de som em torno da música, ao redor das notas escritas. Isto é orquestração”. 

Susanna Mälkki ressaltou em cada uma das partes da obra esta justeza na escolha do instrumento certo. Fez, e isso é raro, o que Ravel chama de criar uma atmosfera de som ao redor das notas escritas. Desde a escrita poderosa para os metais (as trompas claudicaram logo na entrada da Promenade e os demais metais também exibiram pequenos problemas de emissão/afinação) até as combinações translúcidas entre madeiras, excelentes, e as demais seções.

ORQUESTRA SINFÔNICA DO ESTADO DE SÃO PAULO

Sala São Paulo. Praça Júlio Prestes, s/nº, Luz, 3223-3966. Sáb., às 16h30. 

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