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Violinista lança álbum de parcerias de Vinicius de Moraes com outros compositores

Disco de Mario Adnet traz canções do poeta com Claudio Santoro, Pixinguinha e Moacir Santos

Lucas Nobile - O Estado de S.Paulo,

02 de dezembro de 2011 | 21h15

Coerência sempre foi palavra de ordem nas obras de resgate e preservação da música brasileira feitas por Mario Adnet. Assim como em seus trabalhos anteriores - com as criações de Moacir Santos, Tom Jobim, Baden Powell e Luiz Eça -, o arranjador, compositor e violonista de 54 anos trata os temas de Vinicius & Os Maestros com um equilíbrio louvável: a cautela e o respeito com as composições do poeta e seus parceiros aliados à ousadia em acrescentar novas ideias.

As escolhas por tais parcerias de Vinicius não são nada fortuitas. Muita coisa se explica ao saber que Claudio Santoro foi professor de Moacir Santos que, por sua vez, teve Baden Powell como seu aluno. As ligações também se revelam entre Santoro e "São Pixinguinha", como o poeta gostava de chamar o maior compositor de choros da história. "O Santoro era spalla da orquestra regida pelo Pixinguinha, que dizia, em forma de reconhecimento, para ele: ‘maestro, você está no lugar errado. Devia estar aqui regendo, no meu lugar’", explica Adnet.

O início da parceria de Santoro com Vinicius se deu de maneira curiosa, de acordo com a pianista Iracele Vera Lívero de Souza, que defendeu dissertação de mestrado sobre vida e obra do compositor manauara, em 2003, na Unicamp. No fim da década de 1950, Santoro gozava de grande sucesso no Leste Europeu e, em turnê pela União Soviética, apaixonou-se por Lia, sua tradutora de russo. Como ela era casada com um funcionário da KGB, a polícia secreta soviética, Santoro teve de deixar a região, sendo acolhido na embaixada brasileira em Paris, justamente onde Vinicius servia ao Itamaraty como diplomata. Tal enredo explica a temática das canções da dupla, com o poeta "consolando" Santoro de seus desenganos.

Ao todo, os dois compuseram 14 temas em parceria. A maioria ficou esquecida em gravações do tenor Aldo Baldin com a pianista Lilian Barreto. Do total, Adnet optou por dar nova roupagem a três: o breve poema Em Algum Lugar, interpretado por Tatiana Parra; Acalanto da Rosa, na voz do próprio arranjador; e Luar do Meu Bem, em que ele divide os microfones com Monica Salmaso.

"O Santoro foi o maior sinfonista brasileiro. Ouvi o Tom falar bem dele e fui atrás de sua obra. Essas músicas com o Vinicius eram pequenas, para piano e voz, e tiveram gravações, em geral, por cantores líricos, com aqueles vibratos que ofuscavam o piano incrível do Santoro. Quis valorizar a riqueza estética dele e transformei o seu piano em orquestra. A Sílvia, viúva do Baden, encontrou em casa uma caixa com temas do Santoro, com indicações em alemão para o Baden gravar, o que nunca aconteceu", diz Adnet.

Em relação aos temas de outro gênio, Moacir Santos, ele escolheu regravar quatro dos cinco feitos com Vinicius. Triste de Quem é cantado por Joyce Moreno, amiga antiga de Adnet e que teve relação estreita com Vinicius; Lembre-se ficou a cargo de Dori Caymmi, outro a ter tido aulas com Moacir; Se Você Disser Que Sim, dividida por Joyce e Sérgio Santos; e A Santinha Lá da Serra, também com arranjo sinfônico, na bela voz de Salmaso. Os três últimos temas tinham sido registrados magistralmente por Muiza Adnet, irmã de Mario, em 2007.

Já Pixinguinha e Baden tiveram gravadas agora suas parcerias com Vinicius, naturalmente, mais conhecidas do público. Do flautista e saxofonista, de suas quatro composições com o poeta, foram feitas releituras de Lamento (por Dori) e Mundo Melhor (por Sérgio Santos), ambas da trilha de Sol Sobre a Lama (1963), de Alex Viany. Do violonista, de seus 39 temas regados a álcool com Vinicius, entraram no CD Consolação (por Sérgio Santos), Samba em Prelúdio (por Tatiana e Dori) e Canto de Xangô, nas vozes de todos os intérpretes do álbum juntos. "Não tem como fazer um disco só de raridades. O Baden não podia faltar. Ainda tem coisa inédita e pretendo dar continuidade, já penso em um Afrosambajazz 2", comenta Adnet.

Além desses quatro parceiros, ainda há espaço no disco para dois temas feitos apenas por Vinicius. Jobim e tantos outros compositores chegaram a declarar que o poeta tinha um ouvido excelente. Prova disso são Valsa de Eurídice (por Tatiana e Adnet), com participação do pianista Philippe Baden Powell, filho do violonista, e Medo de Amar (por Joyce).

MARIO ADNET ORQUESTRA E CONVIDADOS

Auditório Ibirapuera (Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, Portão 2 do Pq. Do Ibirapuera). 3ª, 21 h. R$ 20

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