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Violinista americana promove, no interior de SP, um festival para realizar sonhos de jovens artistas

Ilumina, evento com novos talentos em situação socioeconômica difícil em Bragança Paulista já está com inscrições abertas

João Luiz Sampaio , Especial para O Estado de S. Paulo

27 de agosto de 2016 | 16h00

A trajetória da violinista Jennifer Stumm parece um caminho de sonho para qualquer músico norte-americano. Nascida em Atlanta, ela se formou em duas das principais instituições musicais do país (e do mundo): o Curtis Institute, de Filadélfia, e a Juilliard School, em Nova York. Venceu concursos e logo estava atuando em palcos como o Carnegie Hall ou o Concertgebouw de Amsterdã. Até que, em 2004, esteve no Brasil pela primeira vez, onde trabalhou com jovens da Escola de Música do Estado de São Paulo. “Fiquei impressionada. O talento, a humanidade, a ânsia por crescer mesmo perante desafios socioeconômicos: eu não havia experimentado nada assim na minha vida. E ficou clara mais uma vez para mim uma crença antiga, a de que a música clássica deve ser dinâmica, viva, transformadora. Foi uma inspiração”, relembra Jennifer.

Inspiração tão grande que a artista, às voltas com a ideia de criar um festival dedicado à música de câmara, resolveu que era o Brasil o lugar ideal. “Os músicos que conheci tinham tanto a oferecer que poderiam e deveriam ter a chance de tocar nos mesmos palcos mundo afora onde me apresento. Mas eles precisam de investimento, orientação, oportunidades. E daí veio a ideia de um festival que pudesse reuni-los com solistas internacionais experientes, um iluminando o caminho do outro, lembrando a nós e ao público o poder da música que escolhemos tocar.”

A primeira edição do Ilumina ocorreu em janeiro de 2015, no interior de São Paulo, mais especificamente em uma fazenda em São Bento do Sapucaí. Em janeiro de 2016, a segunda edição foi realizada na região de Bragança Paulista, onde vai acontecer, de 2 a 15 de janeiro, a terceira edição (inscrições para músicos de 18 a 26 anos estão abertas). “O festival é uma meritocracia. Os músicos se hospedam, comem e trabalham juntos como iguais, cada um dando aquilo que pode oferecer. Estarmos juntos em um local no campo cria um ambiente especial, um espaço seguro para interações. Ao contrário de muitos festivais, nos quais um jovem encontra um solista de renome durante uma hora por semana, aqui não há separação entre os artistas. Todos trabalham juntos em conjuntos de câmara de 60 a 80 horas por semana. Acreditamos que a melhor maneira de se aprender é fazendo – e que o impacto máximo para todos os músicos vem da experiência”, explica Jennifer.

A programação inclui concertos em cidades da região. “Pensamos muito sobre o que oferecemos à comunidade, em como colocar os ideais do Ilumina nas apresentações, atingindo plateias que não costumam ir a concertos. Na última edição, mais da maioria das 4 mil pessoas que nos assistiram estavam ouvindo algo totalmente novo. E acho também que estamos crescendo como organização: o primeiro festival foi bancado por um patrocinador individual e agora temos uma parceria com a Cultura Artística, a mais antiga sociedade de concertos da América Latina. Eu realmente amo essa mistura entre o antigo e o novo”, afirma. 

Sobrevivência. “A geração que tenho visto no Ilumina representa algo único. A maior parte desses músicos vem de situações socioeconômicas difíceis. A música para eles é, então, mais do que só uma forma de arte, é uma forma de sobrevivência”, diz Jennifer, quando questionada sobre como entende o cenário musical brasileiro à luz da realidade americana ou europeia. “Isso é algo bastante diferente do que acontece no Hemisfério Norte e por isso é tão importante que essas vozes sejam ouvidas.” Ela vê diferenças também na ênfase da formação musical. “A música de câmara é muito pouco enfatizada, uma vez que o Brasil tem uma larga tradição orquestral. Acredito que tocar em pequenos grupos, em que cada um precisa ser responsável por si próprio e por seus colegas, é fundamental no desenvolvimento musical”, ressalta também.

Além da música de câmara, outra das “lições” do Ilumina tem a ver com a própria noção do que é o trabalho de um músico. “Artistas estão sempre buscando o próximo nível. É um ato de coragem, significa que você acredita que, com trabalho duro, pode conquistar algo, crescer. Então, a coisa mais importante a se aprender quando se é jovem é como pensar sobre o aprendizado: não se trata de uma série de tarefas, mas de atingir um jeito de ser. No Ilumina, passamos muito tempo falando sobre por que tocamos, sobre a ideia de que a música deve nos conectar com a nossa própria humanidade e lembrar a plateia da dela. Jovens músicos, muitas vezes, acham que o trabalho se limita a tocar as notas certas. Isso é uma pena. Eu gostaria que eles vissem o próprio poder que têm de usar a arte para influenciar a sociedade para melhor, sentindo que uma vida na música é uma vida de dedicação a uma causa.”

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