Violão ganha 1.º festival, no Rio

O Rio recebe a partir desta sexta-feira, às 18h30, a nata do violão nacional e internacional. O 1.º Panorama Internacional do Violão acontece na Sala Cecília Meirelles, no Centro, e traz renomados instrumentistas de vários estilos em apresentações a preços acessíveis. O festival, um dos únicos no gênero no País, pretende descobrir as heranças do violão brasileiro a partir de influências de diversos ritmos, melodias e técnicas. O panorama vai passear por algumas referências: o violão clássico do solista Eduardo Fernández, a tradição flamenca de Adam Del Monte, que substituiu Tomatito, a concepção jazzística do francês Roland Dyen, a guitarra portuguesa de Ricardo Rocha, o estilo popular de qualidade do paulista Paulo Bellinati, as inovações de Cristina Azuma, além da carioca Camerata de Violões. O jovem violonista Gabriel Improta foi escolhido para a revelação do evento. O festival vai até domingo.A intenção é que o Panorama se firme no cenário cultural carioca. "Faltava um evento desses no Rio", diz Paulo Bellinati, um dos maiores violonistas brasileiros. "Estou acostumado a levar o som do violão brasileiro ao exterior, fazer o caminho contrário é ótimo". O festival sofre uma baixa com a ausência repentina de Tomatito e sua famosa guitarra flamenca. No lugar dele, Adam Del Monte foi convidado - também um representante da tradição flamenca, mas com forte influência do clássico. Del Monte executa obras de Roland Dyens, de Bellinati e Astor Piazzolla, além de solos flamencos.A pluralidade e a divulgação do violão permitem essa mistura de estilos. O violonista erudito Eduardo Fernádez, uruguaio de nascimento, faz com freqüência recitais solos ou à frente de orquestras norte-americanas e européias, como a filarmônica de Londres, mas seu trabalho explora as fronteiras entre o clássico e o popular. "A América Latina foi o primeiro lugar do mundo onde o violão foi levado a sério, com a cátedra argentina nos anos 20", explica o músico. "O violão acaba sendo menos prestigiado por sua forte ligação com a música popular. No meio erudito, nós temos que ser muito melhores para sermos considerados iguais", brinca o músico que costuma oferecer workshops pelo Brasil e elogia a técnica dos violonistas nacionais. Ele sente falta de uma formação geral de música nos novos instrumentistas, não só na América Latina, como no mundo. No programa de apresentação de Fernández, estão quatro suítes de J. S. Bach.A diversidade aqui é vista com bons olhos. E não poderia ser diferente em um País com vários estilos. "O violão do sul é bem diferente do nordestino, do baião, xaxado... e diferente do violão de sete cordas carioca", explica Paulo Bellinati. "O violão brasileiro são vários violões". Bellinati ganhou o Prêmio Sharp como arranjador do CD O Sorriso do Gato de Alice, de Gal Costa, já trabalhou com Chico Buarque, Edu Lobo, César Camargo Mariano e matém sua carreira solo no exterior e no País - uma "raridade", segundo ele, viver como concertista no Brasil. Bellinati trabalha numa linha que privilegia a boa música brasileira, algo na fronteira entre o popular e o clássico. Neste festival, ele toca composições próprias, de João Gilberto e Tom Jobim. "Mas não as que o público está acostumado a ouvir. Fui buscar composições deles mais sofisticadas, de qualidade altíssima".Programa de concerto é algo que não existe para o compositor e violonista Rolan Dyens. Estudante de violão desde os nove anos, o francês, hoje com 45 anos, prima pelos acordes originais procurando novas possibilidades para o instrumento. A formação clássica encontra no jazz sua expressão. É tudo na base do improviso e ele nunca revela a lista de composições que farão parte de sua apresentação. Acredita que essa é a única forma de criar "um momento musical" mais adequado à platéia.A violonista e musicóloga Cristina Azuma teve seu CD Contatos escolhido pela crítica americana como um dos cinco melhores do ano. Faz concertos de violão solo e guitarra barroca e participa de turnês anuais ao Oriente. No Panorama, Cristina executa, entre outros compositores, Bela Bartok, Jacob do Bandolim e Toninho Ramos. A guitarra portuguesa, instrumento raro, tem em Ricardo Rocha, um de seus mais jovens e melhores representantes. Rocha aprendeu a técnica com seu avô - não havia nenhuma escola especializada no instrumento na época. "O que me fez desviar da linguagem tradicional foi o estudo de piano e composição.", escreve o músico, que no panorama estará acompanhado do cravista João Paulo Esteves da Silva.Bem carioca, a Camerata de Violões, cria do Conservatório Brasileiro de Música e "habitué" da Sala Cecília Meirelles, chegou a ganhar uma música de Hermeto Paschoal especialmente para o conjunto, formado por Paulo Pedrassoli, Gaetano Galifi, Bruno Correia, Luis Leite, Valmyr de Oliveira, Rogério Borda, Arthur Gouvêa e Antonio Mello. Eles trazem composições próprias, de Villa-Lobos e Lorenzo-Fernandez. Tido como a provável revelação do festival, o violonista Gabriel Improta, de 25 anos, é filho de Tomás Improta, renomado tecladista e compositor brasileiro. Já tocou ao lado de Lucinha Lins, Selma Reis, Hermínio Bello de Carvalho. Gabriel vai apresentar um repertório nacionalista com composições suas, de Edu Lobo, Pixinguinha e Egberto Gismonti. O festival ganhou um site onde pode ser checada a programação e o histórico dos músicos participantes : www.panoramadoviolao.com.br.Panorama Internacional de Violão - Dias 08, 09 e 10 de dezembro. Sala Cecília Meirelles (Largo da Lapa, 47 -Centro) Tel. (21) 224- 3913.R$ 10, 00 (platéia) e R$ 5,00 (balcão). Dia 08 às 18h30 -Roland Dyen e 20h30 - Adam Del MonteDia 09 às 18h30: Cristina Azuma, 19h30 -Paulo Bellinati e 20h30 - Eduardo Fernández. Dia 10 às 18h: Gabriel Improta, 18h30 e Camerata de Violões e 20h Ricardo Rocha

Agencia Estado,

08 de dezembro de 2000 | 17h24

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.