Acervo Estadão
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Vinte anos sem Wilson Simonal provam a força de sua obra

Duas décadas depois, o nome de Simonal, mesmo biografado em meio às polêmicas que envolveram seu contador, tem revisitada uma de suas maiores gravações que só não fez mais sucesso porque saiu junto com 'Sá Marina'

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2020 | 10h00

Os 20 anos sem Wilson Simonal respondem por si à dúvida: e então, Simonal foi absolvido? Se ser absolvido é ser lembrado e ser condenado é amargar o silêncio, não há dúvidas de que sim, Simonal vive. Sua obra ganhou uma concorrência séria que poderia abafá-la, a acusação de colaboração com o regime militar por ter pedido que alguns brucutus do Dops dessem uma coça em seu contador. Um erro sob todos os ângulos que a passagem for analisada, mas também um ato impensado que ganhou proporções descomunais ao que de fato foi. Um documentário, um filme e algumas biografias depois, Wilson Simonal, defenestrado em vida da própria carreira, é reabilitado a um posto difícil de ser roubado.

Ele morreu há exatos 20 anos, a 25 de julho de 2000, e, em mais um ato de onipresença, tem um single retrabalhado pelo filho, Wilson Simoninha, e pelo parceiro, autor de Sá Marina com Tibério Gaspar, o pianista Antonio Adolfo. E assim se percebe uma abrangência em Simonal digna de poucos. Ele colocava sua voz grande e cheia de recursos a serviço de uma música pop sem necessariamente ser fácil ou plagiada. Muito graças também a quem esteve a seu lado, como Cesar Camargo Mariano e Adolfo, sua canção se tornou popular na comunicação e interessante na feitura, e isso foi conseguido poucas vezes na MPB. 

Correnteza, que estava em um compacto distribuído pela gravadora Odeon nas versões simples e dupla, em 1968, um tanto eclipsada pelo sucesso de Sá Marina, ressurge agora, pelas mãos do filho Simoninha e do pianista Antonio Adolfo, justamente um dos autores de Sá Marina e da própria Correnteza, ao lado de Tibério Gaspar, quando já se chamava o que Simonal fazia de toada moderna, um conceito mais aprofundado à “pilantragem” de Carlos Imperial.

Quem explica a criação da linguagem de Simonal é seu próprio criador, Antonio Adolfo: “Logo depois que Simonal gravou Sá Marina e foi aquele sucesso total, eu e Tibério apresentamos Correnteza. Ele adorou e fez uma bela gravação. Uma pena que não tenha feito tanto sucesso naquela época, mas agora com essa regravação tenho certeza que vai ser um estouro.”

A origem de tudo, Adolfo também conta: “Tudo vem daquela linguagem que Simonal lançou em Mamãe passou açúcar em mim, Carango e Meu limão, meu limoeiro. Eu e Tibério estávamos compondo o que chamamos de toada moderna. Só que eu já tinha tocado com Simonal com o Trio 3D, já tinha feito vários shows com ele e a Darlene Glória, aqui no Beco da Garrafas.” Depois de várias apresentações por clubes e temporadas fora do Rio, Antonio Adolfo pensou: “Olha essa toada aqui, se colocar um molho aqui do tipo que Simonal faz, vai ser demais”. E foi o que aconteceu com Sá Marina

Antonio Adolfo conta que Simoninha o perguntou com qual música eles poderiam homenagear Simonal. “Eu disse que poderia até tocar o piano e fazer um arranjo básico para Correnteza. Gravei na casa da minha filha, que tem umas câmeras, junto com o baixista Pedro Garcia. Não sabia que ia ficar tão legal depois que Simoninha colocou bateria, guitarra e ele cantando.” O brasiliense Gabriel Grossi faz um belo improviso de gaita.

Simoninha fala do pai. Ele responde o que sente sobre o episódio do contador 20 anos depois, quando a história já foi revisitada algumas vezes. “Não tenho dúvidas. Simonal é um cara que foi proscrito da música popular brasileira e nem todo mundo sabia dos detalhes. Ter a história dele contada de diversas formas em diferentes manifestações artísticas dá uma dimensão da quantidade de fãs e de gente que ele representa. É impressionante o retorno que temos por meio de mensagens vindas daqui e de fora. Os números também. As pessoas escutam muito mais as músicas. Acho que o mundo, diante de tudo o que aconteceu principalmente nos últimos tempos aqui no país, havia uma coisa meio que proibida a respeito da história do contador. Como dizem os sábios, o Brasil não é um país para amadores. Aconteceu tantas coisas e tentaram entender melhor determinados fatos e versões. A prova maior é tudo que saia sobre Simonal tem uma vírgula e hoje superamos isso.”

 

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