MARCOS DE PAULA/ESTADÃO
MARCOS DE PAULA/ESTADÃO

Vinte anos sem Renato Russo, em 2016, motivam mostra no MIS

Cantor e compositor da Legião Urbana ganha exposição em 2017

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

16 Março 2015 | 03h00

 RIO  - Na cama, a colcha é a mesma. Nas estantes, a ordem alfabética dos CDs segue intocada. Na gaveta da escrivaninha, os óculos de grau estão à mão. Os relógios de ponteiros parados também denunciam que o tempo parou no apartamento em Ipanema onde Renato Russo (1960-1996) viveu seus últimos seis anos. 

A partir dessa semana, a casa vai se movimentar: é quando chegarão os técnicos do Museu da Imagem e do Som (MIS) paulistano, onde está sendo gestada para 2017 uma grande exposição sobre o cantor e compositor da Legião Urbana, cuja morte completa vinte anos em 2016. A data motiva também outro projeto: um filme baseado na música Eduardo e Mônica, um dos hinos da banda, pensado na esteira do sucesso de Faroeste Caboclo, de 2013. A estreia é estimada para setembro do ano que vem.

A mostra, que terá curadoria de André Sturm, diretor do MIS, nasce ambiciosa. A ideia é superar o impacto da exposição sobre David Bowie, que levou mais de mil pessoas por dia à instituição, um ano atrás - foi o recorde de lotação da casa. Sturm visitou o apartamento de Renato e ficou impressionado com o fato de quase nada ter sido mexido desde a partida dele, em decorrência da aids, no dia 11 de outubro de 1996, aos 36 anos. 


“No meu sonho, queria reproduzir aquele quarto. É espartano, fiquei surpreso. Tem que ser algo grandioso, que ofereça experiências sensoriais, coloque as pessoas dentro da casa dele”, promete. “Queremos mostrar coisas inéditas, mostrar a vida pessoal, da qual ninguém faz ideia.” 

Quem propôs o projeto a Sturm foi Giuliano Manfredini, filho de Renato. Impactado pela exposição de Bowie, ele vislumbrou uma homenagem mais abrangente e com mais recursos do que a montada em 2004 no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília pela irmã de Renato, a cantora Carmem Manfredini. 

A opção à época foi por revelar seu processo de trabalho e a relação com os companheiros de Legião, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, e destacar o papel de Brasília na formação de Renato: carioca, ele morou na capital federal na adolescência, e nela formou a banda. Agora serão reveladas peças de teatro inéditas de Renato, desenhos, cerca de 20 letras de músicas nunca gravadas, diários e o super eclético gosto musical e literário: entre os livros, de coleções de enciclopédias a best-sellers; nas prateleiras de CDs e LPs, alinham-se Menudos, música caipira e orquestras sinfônicas.

“Meu pai queria um curador para a obra dele e guardou tudo porque queria que fosse divulgado. Ele tem a importância de um Tom Jobim, um Noel Rosa para as gerações mais antigas. Mas quero mostrar o homem por trás do mito”, disse Giuliano, que recebeu a reportagem no apartamento de Ipanema, mantido fechado por dona Carminha, mãe de Renato. “Não deixei ninguém mexer. Faz anos que não entro, não consigo, fantasio que meu filho está numa excursão. Até pensei em atender pedidos de fãs de ver as coisas dele, mas ia dar muita confusão”, conta a professora aposentada. Ela lembra que o filho previa que sua obra transcenderia sua vida. “O Junior compunha e não datava. Dizia: ‘não precisa, minhas músicas são atemporais, daqui a 50 anos vão cantar Que país é esse?’”

Dado e Bonfá requerem direitos sobre a marca Legião

Giuliano Manfredini faz 26 anos dia 29 - no dia 27, o pai faria 55. Filho de uma fã, registrado por Renato e criado pelos avós, ele administra a empresa Legião Urbana Produções Artísticas, alvo de ação na Justiça do baterista Marcelo Bonfá e do guitarrista Dado Villa-Lobos. 

“Quero ter controle sobre a marca, que é parte da minha vida e do Bonfá. Não quero vender camiseta, e sim preservar essa história, que está sendo deturpada”, diz Dado. “Era uma banda feita por três malucos. O nome ficou na mão do Renato porque era o mais velho”. 

Ele não sabia do filme Eduardo e Mônica, cujo roteiro está sendo escrito por Luiz Bolognesi (de filmes como Bicho de sete cabeças). Como a música é só de Renato, ele a princípio precisaria ser ouvido apenas para a liberação do fonograma.

O diretor será René Sampaio, o mesmo de Faroeste Caboclo, que fez 1,5 milhão de espectadores. “Queremos lançar para coincidir com as homenagens pelos 20 anos de morte. Tudo que é lançado sobre a obra da Legião se beneficia da relação de carinho dos fãs.”

Giuliano pôs no ar o site www.legiaourbana.com.br - contestado por Dado e Bonfá - e estuda publicar diários do pai (são mais de 70) e licenciar produtos da Legião Urbana, marca registrada por Renato em 1987. “Faço tudo conforme a instrução que meu pai deixou. Ele não queria que a obra ficasse limitada”. O jovem quer morar no apartamento de Ipanema. “Acordo e durmo pensando nele, vivo uma eterna busca. Aqui ele está vivo, gritando”.

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